Efeito-estufa e carne

Luc Vankrunkelsven

Desde o filme de Al Gore [que no Brasil recebeu o título Uma Verdade Inconveniente] estamos no meio da febre do CO2 e, a partir da conferência sobre mudanças climáticas, em Paris, a febre aumenta dia após dia. É claro que é interessante que todos tenham acordado.

O que me causa estranheza é que em todo o debate (e nas medidas contra este efeito-estufa) quase só se fala do CO2. No entanto, nosso modelo ocidental de consumo exagerado possui dois símbolos máximos: o carro particular e o elevado consumo de carne. O carro é responsável por uma boa fatia deste bolo de CO2. A carne responde, mundialmente, por um crescimento assustador na área cultivada e pelo metano. Pelo menos os ruminantes são responsáveis pelas emissões de metano. A FAO reconheceu o problema, pela primeira vez, no final de 2006. O gás metano teria uma capacidade de aquecimento 23 vezes superior ao CO2. Nestes termos, uma cabeça de gado adulto equipara-se a um pequeno veículo de passeio.

CO2 e metano na cozinha

Não sou nem contra o carro, nem contra a carne, mas nós teremos que lidar com ambos os símbolos de outra maneira. É que nos últimos 50 anos a população mundial dobrou, mas o consumo de carne quintuplicou. Isto se traduz imediatamente em aumento da ocupação de terras, do desmatamento, de emissões de gases na atmosfera, de doenças.

A produção internacional de carne de suínos e aves está baseada, principalmente, em soja e milho. Tudo bem que eles não emitem metano, mas o transporte internacional de rações animais e de carne contribui para as emissões de CO2. O prof. Tim Lang, da Grã-Bretanha, afirma que 50% de nossas emissões de CO2 têm origem na cozinha e são servidas na mesa. Ou seja, no nosso sistema de alimentação.

 

[Foto 57]

Carne e efeito-estufa: o derradeiro tabu.

 

O cúmulo é que neste exato momento o assim chamado ‘bio’etanol/‘bio’diesel ‘verdes’ e a produção de carne se ‘encontram’ no milho e na soja. De quantos planetas nós precisaremos para este estilo de vida? Eu vejo as conseqüências no Brasil. Não só a Floresta Amazônica é sacrificada para os carros e para o gado; a rica biodiversidade do Cerrado também está se perdendo rapidamente.

 

Será que podemos falar sobre isso? Ou será que primeiro o ‘rei’ carro tem que parar diante do ‘imperador’ presunto? Como aconteceu, recentemente, no rodoanel de Bruxelas (1). Pense globalmente, alimente-se localmente. E vamos começar consumindo menos carne e pagando o preço justo pelo trabalho do agricultor. Daí ele poderá obter sua renda com menos animais, menos terras e utilizando ração animal de sua propriedade.

 

Anderlecht, 5 de fevereiro de 2007.

 

Esta crônica foi publicada no Agrarisch Dagblad [Diário Agrícola], na Holanda, e em Landbouwleven [Vida Rural], em Flandres.

Aparentemente é possível, sim, trazer ao debate esta difícil questão da carne no meio agrícola.

 

(1)   Um caminhão carregado de presunto capotou na rodovia. Assim, o ‘imperador’ presunto provocou uma imensa fila de ‘reis’ carros. Desde este acontecimento, Wervel utiliza a metáfora ‘rei carro e imperador presunto’ em seu trabalho de sensibilização de consumidores.

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