E se não comêssemos carne?

Apesar dos seres humanos serem considerados omníveros, há no mundo um considerável número de pessoas adepto do vegetarianismo. Por razões de saúde, ecológicas, religiosas ou outras, o tradicional bife mal passado não faz as delícias de todos. Madalena Muñoz explica porquê.

Madalena van Zeller Muñoz, nutricionista licenciada em Ciências da Alimentação pela University of California, fala-nos da história, da prática e das vantagens do vegetarianismo. Ponto por ponto.

Vegetarianismo, prática milenar
À menção de cozinha vegetariana muitos visualizam um grupo de hipies a comer saladas de cenoura com feijão, sentados à mesa de pernas cruzadas. Embora seja verdade que o vegetarianismo se tornou uma moda a partir dos psicadélicos anos 60, as suas origens são muito anteriores. O termo vegetarianismo surgiu pela primeira vez em 1847, aquando da fundação da Sociedade Vegetariana do Reino Unido. A palavra deriva do latim “vegetus”, que significa “vigoroso, vivo, saudável”. Antes disso, as pessoas que não comiam carne eram conhecidas como pitagorianas, em referência a Pitágoras, o filósofo e matemático grego, e tal como o seu famoso teorema, que se aplicava a um triângulo, também a sua argumentação favorável a uma dieta sem carne assentava em três ângulos: veneração religiosa, saúde física e responsabilidade ecológica. Em 1889 já havia 52 restaurantes vegetarianos em Inglaterra; em 1889, Gandhi (o herói da independência indiana) tornou-se membro da Sociedade Vegetariana de Londres. Na Ásia, a tradição de não comer carne remonta às religiões hinduístas e budistas, se bem que nem todos os budistas sejam vegetarianos. Os chineses, aliás, praticavam uma alimentação sem carne muito antes dos monges indianos trazerem a religião Budista Mayhan para a China, entre 25 e 60 A.C.: abstenção de carne era uma tradição local e, tal como os vegetarianos militantes dos nossos dias, os chineses excluiam todos os materiais e roupas derivados de produtos animais.

Motivos e razões
O vegetarianismo tem evoluído de uma necessidade para uma escolha pessoal. Actualmente as pessoas optam por uma dieta vegetariana por uma série de razões: higiénica, ética, de saúde, económica e ecológica. Mais e mais pessoas concluem que matar animais para nos alimentarmos é uma prática cruel e desnecessária. Outras apercebem-se que a carne alimenta poucos à custa de muitos, e que com o cultivo arável se produziria muito mais comida por hectare: uma vaca ingere 23 quilos de proteína vegetal por cada quilo de proteína que nos fornece; esse rácio para porcos é de 8 para 1; para galinhas de 5 para 1. Em termos de saúde, uma alimentação vegetariana proporciona geralmente uma mais elevada ingestão de hidratos de carbono, vitamina A, vitamina E, beta-caroteno, vitamina C, magnésio e fibras, limitando a ingestão de colesterol e gordura saturada. Por fim, muitas pessoas aliam estas vantagens ao facto de se poupar dinheiro quando se opta por verduras e massas em vez de carnes.

Dietas à la carte
Uma alimentação vegetariana é a que exclui todos ou alguns produtos animais, ou seja, não inclui carne mas pode incluir leite, lacticínios e ovos. Há várias modalidades (das mais restritas às mais moderadas):
– Vegatariana – dieta que inclui apenas alimentos de origem vegetal;
– Lacto-vegetariana – dieta vegetarina + lacticínios;
– Ovo-lacto-vegetariana – dieta vegetarina + lacticínios + ovos;
– Semivegetariana – dieta à base de alimentos de origem vegetal mas que pode incluir aves ou peixe, leite e seus derivados e ovos. Exclui as carnes vermelhas.
As dietas vegetarianas que incluem alguns produtos animais são nutricionalmente equilibradas; as vegetarianas restritas requerem uma planificação mais cuidadosa. Mas mesmo não seguindo à risca nenhuma delas, incluir práticas vegetarianas garante-nos uma alimentação mais saudável: por exemplo, reduzindo as doses de carne, ou comendo-a apenas três vezes por semana em vez de quase todos os dias.

Valores nutricionais obrigatórios
A reputada organização American Dietetic Association (Associação Dietética Americana)afirma que uma alimentação vegetariana equilibrada é nutricionalmente sã, ajudando na redução do risco de muitas doenças crónicas degenerativas.
Ao optarmos por uma alimentação vegetariana, temos, contudo, que nos certificar que incluímos todos os seus requisitos alimentares (ver a pirâmide vegetariana que ilustra este artigo). Numa alimentação vegetariana desiquilibrada estarão em falta, sobretudo, as proteínas, vitaminas B12 e D, riboflavina, cálcio, zinco e ferro. Um suplemento de vitamina B12 é obrigatório se não se ingerirem quaisquer produtos de origem animal. Se não come carne, assegure-se que ingere cereais de pequeno-almoço enriquecidos com ferro, espinafres, agriões, feijões e figos secos. Se não ingere leite e seus derivados, deve incluir feijões, soja, couve galega, nabiças e figos secos na sua dieta para garantir e quantidade diária de cálcio indispensável.

A questão das proteínas
As proteínas são compostas por elementos denominados aminoácidos e são indispensáveis a uma boa saúde. Há dois tipos de proteínas: completas e incompletas. As completas contêm todos os aminoácidos em quantidades suficientes e encontram-se nos produtos de origem animal (peixe, ovos, leite etc). As proteínas incompletas contêm todos os aminoácidos, mas não em quantidades adequadas; geralmente um deles não apresenta valores suficientes. Os cereais e os feijões são exemplos de proteínas incompletas.
A boa notícia é que não temos obrigatoriamente de comer produtos animais para obtermos proteínas completas. Basta ingerir duas proteínas incompletas (ex: arroz + feijão) ou uma incompleta e uma completa (ex: cereais + leite) para obtermos todos os aminoácidos necessários.

Vegetarianismo ao alcance de todos
Uma dieta de tipo vegetariano pode ser apropriada a todas as idades (bébés, crianças e adolescentes) e praticada sem risco durante a gravidez ou a amamentação. Oferece inúmeras vantagens: níveis reduzidos de gorduras saturadas, colesterol e proteínas animais; níveis superiores de hidratos de carbono, fibras, magnésio, potássio, acido fólico, antioxidantes (vitaminas C e E), e fitoquímicos.
As pessoas vegetarianas têm demonstrado ter um IMC (Índice de Massa Corporal, ou seja, Kg/m2) inferior (menos risco de obesidade), apresentam menor incidência de morte resultante de doenças cardíacas, níveis de colesterol do sangue e tensão arterial mais baixos, menos hipertensão, menos incidência de diabetes tipo 2 e menos cancros do cólon e da próstata.
Note-se que, como qualquer dieta especializada, é recomendável a consulta de um nutricionista, tanto no caso de adultos como de crianças.

Vegetarianos famosos
O dramaturgo irlandês G. Bernard Shaw dizia, em defesa do seu regime alimentar, que "os animais são meus amigos e eu não como os meus amigos”. Mas a lista de vegetarianos famosos vai mais longe. Além de Pitágoras, refira-se, a título de exemplo, Leonardo da Vinci, Benjamin Franklin, Charles Darwin, Gandhi ou Albert Einstein.

Fonte: http://www.madalenamunoz.com/layout.php?op=sop04_4 

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