Domingão sem Faustão

Um dia zen e ecologicamente correto com Susan Andrews no 
Parque Visão Futuro, uma ecovila onde tudo é regido pelas leis da bioeconomia e do hinduísmo

Por Jomar Morais

O cenário de campos verdejantes, visto do chapadão a 700 metros acima do nível do mar, já vale a viagem. Mas esse visual é só o cartão de visita de um programa delicioso e nada convencional que acontece todos os domingos na altura do KM 162 da rodovia Castelo Branco, a duas horas de São Paulo. É lá que está localizado o Parque Visão Futuro, uma ecovila espiritual auto-sustentável criada logo após a Eco-92, a conferência mundial de ecologia realizada no Rio de janeiro, agora também utilizada como opção de lazer para quem deseja experimentar, ainda que por algumas horas, a vida numa comunidade ecologicamente correta. Ao longo de um roteiro de quatro horas de duração, conhecido como Domingo no Parque, o visitante participa de atividades físicas no campo, recebe orientações para manter a saúde integral, baseadas na medicina ayurvédica (indiana) e nas filosofias orientais, e, sobretudo, conhece o modelo prático de uma vida social e economicamente equilibrada que ali vem sendo testado como solução para conter o êxodo rural, reduzir as tensões urbanas e melhorar a qualidade de vida na Terra. 

Quase sempre o visitante é recebido pela fundadora e dirigente da ecovila, a psicóloga e monja Susan Andrews, uma americana que viveu na Índia e no Tibete, fala sete idiomas e há 10 anos veio para o Brasil com a incumbência de iniciar a experiência do Parque Visão Futuro numa área de 65 hectares no município de Porangaba. “Somos um laboratório social inspirado na filosofia de máxima integração e utilização dos recursos naturais do mestre indiano Prabhat Rainjan Sarkar”, diz Susan. E não é preciso esforço para se perceber a idéia que guia o projeto. Tudo no parque foi concebido para harmonizá-lo com a natureza e as energias cósmicas. Seu traçado arquitetônico tem a forma de uma mandala, a geometria sagrada usada especialmente na tradição tântrica do hinduísmo e do budismo para aquietar a mente. Os jardins floridos exibem lagos e pequenas cascatas que ajudam no relaxamento de quem chega estressado. Trilhas na mata são utilizadas em caminhadas meditativas. A comida lacto-vegetariana é preparada com ingredientes colhidos na horta orgânica, no pomar e na padaria da ecovila.

O Domingo no Parque é um tour vivencial em várias etapas. O programa começa às 10h com exercícios de respiração para controle emocional. Em seguida, os participantes são levados ao campo para conhecer as experiências de agricultura orgânica, conservação de água e energia renovável que garantem a auto-sustentação da comunidade. Para a maioria, é a primeira vez que toma conhecimento e constata na prática os resultados da chamada bioeconomia, que consiste na aplicação dos princípios operacionais dos sistemas biológicos à vida econômica e social. A meta é suprir as necessidades básicas das pessoas (alimento, vestuário, educação, saúde, moradia e energia) através de sistemas cooperativos, auto-organizadores e auto-suficientes, com mínimo desperdício de energia e máxima utilização dos recursos. A agricultura orgânica extensiva, por exemplo, além de provê alimentos para a comunidade, permite a comercialização de excedentes, gerando assim emprego para parcela da população rural vizinha. A experiência se repete com a horta de plantas medicinais e o laboratório  que produzem remédios e artigos naturais como xampus, sabonetes e cosméticos.

Uma das iniciativas que mais chamam a atenção é o sistema integrado de energia renovável, que inclui energia solar (produzida por painéis fotovoltáicos), aquecimento solar de água e bombas de água ativadas por energia solar e cata-ventos. Além disso, os resíduos orgânicos  gerados na área são reciclados na compostagem para a horta orgânica e toda a água do esgoto é tratada através de sistema biológico de tratamento, sendo depois reutilizada na irrigação. A água das chuvas também não é desperdiçada. Ela é armazenada em açudes protegidos por mata ciliar que ajuda a conservar o líquido.

A essa altura, geralmente a curiosidade dos visitantes chega ao auge e acaba sendo saciada com palestras rápidas sobre a crise ecológica atual e a solução das ecovilas e sobre a biopsicologia, disciplina que une conhecimentos da ciência moderna e antigas técnicas orientais para promover o equilíbrio das emoções e o controle do estresse. O périplo é então encerrado com uma caminhada meditativa,  que antecede o almoço lacto-vegetariano.  A tarde os visitantes são liberados para banhos no lago, caminhadas no labirinto (antiga técnica de meditação em movimento), compras de produtos naturais e massagens na clínica ayurvédica da ecovila.

No início, o Parque visão Futuro foi apoiado com doações dos governos da Suécia e da Alemanha. Atualmente, os trabalhos de  educação ecológica e espiritual são mantidos por cerca de 300 alunos por semana que se revezam nos cursos oferecidos pelo Instituto Visão Futuro na própria ecovila – existem acomodações para até 100 pessoas em regime de internato –  e por doações de algumas entidades. O ingresso de 40 reais por pessoa para participação no programa Domingo no Parque contribui para a manutenção do projeto.

O ESSENCIAL

Distância a partir da cidade de São Paulo: 165 quilômetros

Como Chegar: pela Castelo Branco. Seguir até o Km 162 da rodovia, no trevo de Porangaba, e retornar pelo acostamento. Após rodar 500 metros, entrar à direita e seguir pela estrada de terra por mais 3 quilômetros até o estacionamento do Parque.

Quando ir: claro, aos domingos, das 10h às 14h.

Preço: 40 reais por pessoa

Informações e reservas: (0—15) 257-1243,  www.visaofuturo.org.br

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