Dieta para o planeta


Al Gore, além de ganhar um Oscar por seu documentário Uma Verdade Inconveniente, sobre mudanças climáticas, anunciou uma série de concertos pelo mundo (incluindo Antártida e Brasil), com um timaço de performers, de Red Hot Chili Peppers a Snoop Dogg. Curiosamente, em meio a esse chacoalhar mundial, existe um aspecto de nosso perigo planetário que notavelmente tem recebido pouca atenção e é raramente discutido entre os cidadãos conscientes: uma das principais fontes dos gases que jogamos na atmosfera está ligada à comida que colocamos na boca.

De acordo com um recente relatório da FAO, a Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas, o 1,5 bilhão de cabeças de gado e búfalos, mais o 1,7 bilhão de ovinos e caprinos, com suínos e aves, são responsáveis por quase um quinto do aquecimento global. Segundo o relatório Livestock's Long Shadow (A Longa Sombra dos Animais para Abate), isso representa mais emissões que todos os meios de transporte do mundo combinados. O relatório conclui: "O setor de abate de animais emerge como um dos dois ou três principais responsáveis pelos mais sérios problemas ambientais, em qualquer escala, da local à global".

Os pesquisadores Gordon Eshel e Pamela Martin, na Universidade de Chicago, mostraram que a produção de 1 caloria de proteína animal queima dez vezes mais combustíveis fósseis e emite dez vezes mais gás carbônico que a produção de 1 caloria de proteína vegetal.

Os desmatamentos para pastagens amplificam o efeito. O Brasil ocupa o vexaminoso quarto lugar entre as nações com maior responsabilidade pelo efeito estufa por conta das queimadas, principalmente para pastagens. E os poderosos gases, como metano ou óxido nítrico, liberados pelos processos digestivos e do esterco desses animais têm, respectivamente, 23 e 296 vezes o poder de aquecimento do gás carbônico. Logo, se o gás carbônico é responsável por cerca de metade do efeito estufa, o metano e o óxido nítrico são responsáveis por outra terça parte.

Uma das principais fontes dos gases que jogamos na atmosfera está ligada à comida que colocamos na boca

Estamos comendo o planeta vivo até a morte. E isso está se intensificando. O consumo de carne aumentou cinco vezes nos últimos 50 anos. Estima-se que dobre novamente nos próximos 50. Os pesquisadores concluíram que poderíamos fazer mais para reduzir o aquecimento global comendo menos carne que comprando um carro de consumo eficiente, como o Toyota Prius.

Agora que sabemos que adotar uma dieta mais "verde" é até mais eficiente na prevenção de uma catástrofe ambiental que dirigir um carro "verde", temos então uma saída simples e eficaz. Como o cientista Eshel aconselha, você não precisa se tornar um vegetariano estrito. "Se você simplesmente passar a consumir um hambúrguer por semana em vez de dois, sua atitude já fará uma diferença substancial."

Lembro-me de uma charge do Peanuts em que Lucy aconselha Charlie Brown a trocar a ração do Snoopy. De cima de sua casinha de cachorro, Snoopy rosna: "Você pode me amaldiçoar, me xingar, me humilhar, mas não interfira na minha comida!".

Assim como Snoopy, não queremos que ninguém meta a colher em nossa dieta. Mas o inevitável é que nosso crescente consumo de carne está prejudicando não apenas nossa saúde, mas o próprio planeta. Para enfrentar o que David King, cientista-chefe do Reino Unido, chamou de "o maior desafio que a civilização já enfrentou", precisaremos mudar.Mais uma verdade inconveniente?

SUSAN ANDREWS é psicóloga e monja iogue. Autora do livro Stress a Seu Favor, ela coordena ecovila Parque Ecológico Visão Futuro.
www.visaofuturo.com.br
susan@edglobo.com.br

Fonte: Época

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Dieta para o planeta


Al Gore, além de ganhar um Oscar por seu documentário Uma Verdade Inconveniente, sobre mudanças climáticas, anunciou uma série de concertos pelo mundo (incluindo Antártida e Brasil), com um timaço de performers, de Red Hot Chili Peppers a Snoop Dogg. Curiosamente, em meio a esse chacoalhar mundial, existe um aspecto de nosso perigo planetário que notavelmente tem recebido pouca atenção e é raramente discutido entre os cidadãos conscientes: uma das principais fontes dos gases que jogamos na atmosfera está ligada à comida que colocamos na boca.

De acordo com um recente relatório da FAO, a Organização de Alimentação e Agricultura das Nações Unidas, o 1,5 bilhão de cabeças de gado e búfalos, mais o 1,7 bilhão de ovinos e caprinos, com suínos e aves, são responsáveis por quase um quinto do aquecimento global. Segundo o relatório Livestock's Long Shadow (A Longa Sombra dos Animais para Abate), isso representa mais emissões que todos os meios de transporte do mundo combinados. O relatório conclui: "O setor de abate de animais emerge como um dos dois ou três principais responsáveis pelos mais sérios problemas ambientais, em qualquer escala, da local à global".

Os pesquisadores Gordon Eshel e Pamela Martin, na Universidade de Chicago, mostraram que a produção de 1 caloria de proteína animal queima dez vezes mais combustíveis fósseis e emite dez vezes mais gás carbônico que a produção de 1 caloria de proteína vegetal.

Os desmatamentos para pastagens amplificam o efeito. O Brasil ocupa o vexaminoso quarto lugar entre as nações com maior responsabilidade pelo efeito estufa por conta das queimadas, principalmente para pastagens. E os poderosos gases, como metano ou óxido nítrico, liberados pelos processos digestivos e do esterco desses animais têm, respectivamente, 23 e 296 vezes o poder de aquecimento do gás carbônico. Logo, se o gás carbônico é responsável por cerca de metade do efeito estufa, o metano e o óxido nítrico são responsáveis por outra terça parte.

Uma das principais fontes dos gases que jogamos na atmosfera está ligada à comida que colocamos na boca

Estamos comendo o planeta vivo até a morte. E isso está se intensificando. O consumo de carne aumentou cinco vezes nos últimos 50 anos. Estima-se que dobre novamente nos próximos 50. Os pesquisadores concluíram que poderíamos fazer mais para reduzir o aquecimento global comendo menos carne que comprando um carro de consumo eficiente, como o Toyota Prius.

Agora que sabemos que adotar uma dieta mais "verde" é até mais eficiente na prevenção de uma catástrofe ambiental que dirigir um carro "verde", temos então uma saída simples e eficaz. Como o cientista Eshel aconselha, você não precisa se tornar um vegetariano estrito. "Se você simplesmente passar a consumir um hambúrguer por semana em vez de dois, sua atitude já fará uma diferença substancial."

Lembro-me de uma charge do Peanuts em que Lucy aconselha Charlie Brown a trocar a ração do Snoopy. De cima de sua casinha de cachorro, Snoopy rosna: "Você pode me amaldiçoar, me xingar, me humilhar, mas não interfira na minha comida!".

Assim como Snoopy, não queremos que ninguém meta a colher em nossa dieta. Mas o inevitável é que nosso crescente consumo de carne está prejudicando não apenas nossa saúde, mas o próprio planeta. Para enfrentar o que David King, cientista-chefe do Reino Unido, chamou de "o maior desafio que a civilização já enfrentou", precisaremos mudar.Mais uma verdade inconveniente?

SUSAN ANDREWS é psicóloga e monja iogue. Autora do livro Stress a Seu Favor, ela coordena ecovila Parque Ecológico Visão Futuro.
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