Deveríamos todos ser vegetarianos? Nós teríamos mais saúde? Seria melhor para o planeta?

Deveríamos todos ser vegetarianos? Nós teríamos mais saúde? Seria melhor para o planeta? Os riscos e benefícios de uma vida livre de carne
Richard Corliss
Revista Time Americana – Julho de 2002
Cinco motivos para comer carne:
1) É gostoso
2) Faz você se sentir bem
3) É uma grande tradição americana
4) Apóia os fazendeiros do país
5) Era o que seus pais faziam

Oh, me desculpe… estes são os cinco motivos para fumar cigarros. A carne é mais complicada. É um alimento que a maioria dos americanos come virtualmente todo dia: no restaurante; na lanchonete; nos churrascos; com mostarda nas praças esportivas; ou, um bilhão de vezes por ano, com alface, queijo, molho especial, cebola e picles num pão com gergelim. A carne bovina, dizem os comerciais de TV, é o "alimento americano"- servida levemente mal passada- e está tão entranhada na noção do país de sua herança robusta da fronteira como, bem, o Homem de Marlboro.

Mas ultimamente os caubóis americanos parecem um pouco pequenos na sela. Aquele gado que eles tocam se tornou politicamente incorreto: para muitos, a carne faz parte de uma culinária obscena. Não se trata apenas das doenças e dos aditivos ligados ao consumo da carne, apesar da grande quantidade de hormônios, bactéria E. coli ou o espectro assustador da doença da vaca louca serem bastante eficazes para ajudar a tirar o apetite. É que cada vez mais americanos, particularmente os jovens, estão adotando uma prática que antes chocava seus pais. Eles estão comendo seus legumes e verduras. E também os grãos e a couve. Atualmente cerca de 10 milhões de americanos se consideram vegetarianos praticantes, segundo uma pesquisa da Time que entrevistou 10 mil adultos; outros 20 milhões já flertaram com o vegetarianismo alguma vez no passado.

Para ter uma amostra do antigo orgulho dos caubóis, e de sua atual posição defensiva, basta clicar no site do pecuarista Jody Brown, de Dakota do Sul, www.ranchers.net, e ler os novos mantras da carne: "Os vegetarianos não vivem mais tempo, apenas aparentam ser mais velhos"; e "se os animais não fossem para ser comidos, então por que são feitos de carne?" (Alguém poderia perguntar o mesmo em relação aos humanos). Para Brown e sua geração de resolutos comedores de carne, jantar é algo que seus pais põem na mesa e os filhos colocam para dentro de seus corpos. Quanto aos seus próprios filhos, ele diz, "nós esperamos que eles comam um pouco de tudo". Assim a carne é servida praticamente toda noite no lar dos Browns, sem nenhuma reclamação de Jeff, 17 anos, Luke, 13, e Hannah, 11. Mas Jody admite pelo menos uma cortesia liberal. "Se um vegetariano tiver um pneu furado na minha comunidade, eu o ajudaria", disse ele.

Para um fazendeiro que ganha a vida com a carne ou para o vegetariano cuja dieta poderia algum dia levar todos os matadouros à falência, nada mais é simples. Já se foi a época da inocência americana, ou ingenuidade, quando coisas como corte de cabelo e apertos de mão, sobrenomes e uniformes escolares, fazendas e zoológicos, caubóis e fazendeiros, não tinham significado político. Agora tudo é motivo de debate rancoroso. E nenhum aspecto de nossa vida diária -ou da vida como consumidores de alimentos- enfrenta um debate tão acalorado quanto a carne.

Para milhões de vegetarianos, carne significa morte; vitela invoca visões de infanticídio. Muitas crianças, que cresceram assistindo sucessos como "Babe -O Porquinho Atrapalhado" e "Fuga das Galinhas", evitam comer seus heróis cinematográficos e adotam o que os detratores da carne chamam de "dieta não-violenta". O vegetarianismo resolve uma guerra interior da pessoa consciente, fornecendo um complexo comestível de boa ação: ser vegetariano é ser mais humano. Abra mão da carne, e salve vidas!

É claro, uma das vidas que você pode salvar e prolongar é a sua própria. Pois o vegetarianismo envolve muito mais do que apenas não comer; ele também é uma forma inteligente de comer. A Associação Dietética Americana, um grupo centrista, proclamou que "dietas vegetarianas apropriadamente planejadas são saudáveis, nutricionalmente adequadas e fornecem benefícios de saúde na prevenção e tratamento de certas doenças".

E então? Será que todos nós deveríamos nos tornar vegetarianos? Não apenas os adolescentes, mas também as crianças pequenas, os velhos, os atletas -todos? Isto nos ajudará a ter vidas mais longas, mais saudáveis? Será que tal dieta funciona para pessoas de todas as idades e tipos de atividade? Será que podemos encontrar a dieta vegetariana adequada e nos atermos a ela? E se pudermos, será que o faremos?

Há tantos motivos para experimentar o vegetarianismo quanto há vacas de olhar doce e crianças de bom coração. Para mentes jovens impressionáveis, o vegetarianismo pode soar sensível, ético e -como disseram cerca de 25% dos adolescentes pesquisados pela Teenage Research Unlimited -"legal". Os estudantes universitários pensam o mesmo. Um estudo conduzido pelos professores de Psicologia, Richard Stein e Carol Nemeroff, da Universidade Estadual do Arizona, descobriu que, sem saber o assunto em questão, os comedores de salada são considerados mais morais, virtuosos e apresentam mais consideração do que os comedores de carne. "Há um século, uma dieta rica em carne era considerada favorável à saúde", disse Paul Rozin, da Universidade da Pensilvânia. "As crianças de hoje são a primeira geração a viver em uma cultura onde o vegetarianismo é comum, onde ele é promovido publicamente em termos de saúde e ecologia". E as crianças, como qualquer pai pode dizer, promovem a economia de consumo; isto explica em parte as vendas cada vez maiores de hambúrgueres vegetarianos (soja, grãos torrados de trigo, arroz, cogumelos, cebolas e condimentos ao estilo Big Mac) nos supermercados e redes de fast-food.

As crianças, que estão adotando o vegetarianismo mais rapidamente do que os adultos, podem estar educando seus pais. As vendas de alimentos vegetarianos estão desfrutando de um crescimento na casa de dois dígitos. Importantes restaurantes acrescentaram mais pratos sem carne aos seus cardápios. Restaurantes naturais estão ganhando mais espaço, como o Roxanne's em Larkspur, Califórnia, onde não são servidos pratos com carne vermelha, peixe, aves ou laticínios, e nada é preparado em temperaturas acima de 48o C. "Freqüentar meu restaurante é como ir a um novo país legal que você nunca experimentou antes", disse Roxanne Klein.

Mas assim como qualquer país, o vegetarianismo tem suas complexidades ocultas. Os vegetarianos surgem em mais de meia dúzia de sabores, dos macrobióticos aos vegetarianos pesco-pollo (veja quadro). Os mais notórios são os vegetarianos vegans (estritos). O Partido Verde do movimento, os vegans se recusam a consumir, usar ou vestir qualquer produto derivado de animais. Eles também evitam o mel, já que sua produção exige a opressão das abelhas operárias. A vegetariana favorita da TV, a personagem de desenho animado de 8 anos, Lisa Simpson, já se apaixonou por um sujeito que se considerava um "vegan Nível Cinco -eu não como nada que lance uma sombra". Entre as celebridades vegan: o astro do rock, Moby, e o congressista de Ohio, Dennis Kucinich, que eliminou carne do seu café da manhã e insiste que se sente muito melhor iniciando o dia com sopa miso, arroz integral e aveia em flocos. Para os crentes -que se abstêm da carne como um membro do AA evita o álcool e cospem se lhes disserem que vai gelatina na receita- um semivegetariano não é vegetariano. Uma frase como vegetariano pesco-pollo, para eles, é um oxímoro, como "católico não praticante" ou "semivirgem". O Vegetarian Times, a bíblia desta congregação em particular, expõe o dogma: "Para muitas pessoas que estão trabalhando para se tornar vegetarianas, frango e peixe podem ser alimentos de transição, mas não são alimentos vegetarianos... a palavra 'vegetariano' significa alguém que não come carne, peixe ou frango".

Ficou claro? Não para muitos americanos. Em uma pesquisa envolvendo 11 mil indivíduos, 37% dos que responderam, "Sim, sou vegetariano", também responderam que nas 24 horas anteriores tinham comido carne vermelha; 60% tinham comido carne vermelha, ave ou frutos do mar. Talvez estes pesquisados achem que um vegetariano é alguém que, de vez em quando, come vegetais como acompanhamento -digamos, ao lado de uma suculenta costela. Se mais de um terço das pessoas de uma grande amostra não sabem definir o que é um vegetariano, pode-se perguntar como é possível confiar a elas algo muito mais difícil: o cuidado em tempo integral e a alimentação exigente de seus corpos, independente de qual seja a dieta de sua preferência.

Nós sabemos que frutas, verduras, grãos, legumes e frutas secas são saudáveis. Há um grande número de estudos que mostram que um maior consumo destes alimentos de origem vegetal reduz o risco de uma longa lista de males crônicos (incluindo doença da artéria coronária, obesidade, diabete e muitos cânceres) e que é um fator provável na maior longevidade no mundo industrializado. Nós sabemos que em média nós comemos poucas frutas e verduras, e gordura saturada demais, as quais a carne e os laticínios são os principais contribuidores. Nós também sabemos que no mundo real, as dietas reais -vegetarianas ou não-vegetarianas- como são consumidas pelas pessoas reais, variam de um virtuosismo impecável até uma voracidade insaciável. Há comedores de carne que comem mais e melhores verduras do que muitos vegetarianos, e vegetarianos que comem mais gorduras entupidoras de veias do que muitos comedores de carne.

O Congresso Internacional de Nutrição Vegetariana, uma importante conferência sobre o assunto, foi realizada nesta primavera na Universidade de Loma Linda, na Califórnia. Os estudos apresentados lá incluíam alguns resultados encorajadores apesar de ainda não serem finais: de que uma dieta predominantemente vegetariana pode ter efeitos benéficos para a função renal e nervosa nos diabéticos, assim como para a perda de peso; que comer mais frutas e verduras pode reduzir, e talvez reverter, declínios nas funções cerebrais, assim como na performance cognitiva e motora, relacionados à idade -e pelo menos nos ratos, os idosos vegetarianos apresentaram uma taxa menor de mortalidade e usaram menos medicamentos do que os idosos comedores de carne- que os vegetarianos apresentaram um consumo total mais saudável de gorduras e colesterol, mas um consumo menos saudável de ácidos graxos (como os ácidos graxos omega-3, protetores do coração, encontrados em óleos de peixes).

Mas um estudo sugeriu que dietas pobres em proteínas (associadas ao vegetarianismo) reduzem a absorção de cálcio e podem ter um impacto negativo sobre a saúde do esqueleto. E apesar de vários estudos dos Adventistas do Sétimo Dia (vegetarianos típicos) indicarem que eles possuem uma expectativa de vida acima da média, outros estudos mostraram que as taxas de câncer de próstata são maiores entre os adventistas, e um estudo mostrou que os adventistas apresentavam uma maior probabilidade de sofrerem fraturas no quadril.

Será que o vegetarianismo é ruim para sua saúde? Esta é uma questão complexa. Há um grande e belo reino vegetal lá fora; é possível ser capaz de se alimentar ricamente desta abundância botânica. Com o conhecimento perfeito, é possível realmente comer feito um rei no mundo vegetal. Mas pessoas comuns não são profissionais de nutrição. Apesar de alguns vegetarianos saberem observar sua riboflavina e as vitaminas D e B12, a grande maioria não tem a menor idéia. Este é um motivo para os vegetarianos, em um estudo da nutrição em geral, apresentarem uma performance abaixo da dos não-vegetarianos no Índice de Alimentação Saudável do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, que compara a dieta das pessoas com as diretrizes do departamento.

Outro motivo é o fato dos vegans não se enquadrarem nas estatísticas, pois o fato de evitarem estritamente carnes, ovos e laticínios pode levar a deficiências de ferro, cálcio e vitamina B12. "Estes nutrientes são o problema", disse Johanna Dwyer, uma professora de Nutrição e Medicina da Universidade Tufts. "Pelo menos entre os vegans que também se opõem filosoficamente à alimentos enriquecidos e/ou suplementos de vitaminas e minerais".

O debate em torno da eficácia do vegetarianismo nos acompanha do berço até a cadeira de rodas. Em 1998, o especialista em pediatria, o dr. Benjamin Spock, que se tornou vegetariano no final da vida, provocou alvoroço ao recomendar que crianças acima de 2 anos deveriam ser criadas como vegans, rejeitando até mesmo leite e ovos. A Associação Dietética Americana disse que é possível criar as crianças como vegans, mas alertou que cuidados especiais deveriam ser tomados com as crianças de peito (que não se desenvolvem adequadamente sem os nutrientes do leite materno ou fórmulas enriquecidas). Outros pesquisadores alertam que os bebês alimentados no peito por mães vegans possuem quantidades menores de vitamina B12 e DHA (um ácido graxo omega-3), importantes para a visão e para o crescimento.

Muitas crianças decidem se tornar vegetarianas por conta própria e estão declarando sua preferência cada vez com idades mais precoces; é cada vez mais o primeiro ato de rebelião doméstica. Mas o jovem está em desvantagem ao insistir em uma culinária rigorosa antes que ele ou ela possam preparar seus próprios alimentos -ou até mesmo antes de ser capaz de comprá-la ou até mesmo de ler- enquanto aqueles cujo cardápio é contestado são os pais: os chefs executivos, os disciplinadores e fornecedores do sustento. Alicia Hurtado de Oak Park, Illinois, tem sido vegetariana há metade de sua vida -ela agora tem 8 anos- e sua mãe, Cheryle, de forma geral aceita a dieta da filha. Ainda assim, a mãe ocasionalmente coloca um caldo de galinha nos pratos de Alicia. "Quando ela passar a ler os rótulos", disse Cheryle, "minha sorte vai acabar".

Na adolescência as crianças já são capazes de ler os rótulos, mas freqüentemente ignoram os ingredientes. Pesquisas mostram que o consumo de cálcio geralmente é insuficiente entre os adolescentes americanos. Por outro lado, adolescentes que consomem leite e ovo têm um consumo abundante de cálcio. Mas para os vegans, o consumo adequado das quantidades necessárias de cálcio sem o uso de alimentos enriquecidos ou suplementos alimentares é difícil sem uma dieta cuidadosamente planejada. Entre os jovens vegans que não tomam suplementos, há motivo de preocupação em relação ao ferro, cálcio, vitaminas D e B12, e talvez também o selênio e o iodo.

Por quatro anos, Christina Economos tem realizado um estudo longitudinal de saúde entre os jovens adultos, uma pesquisa abrangente dos hábitos e estilo de vida entre os estudantes universitários. Em geral, ela descobriu que "os garotos que foram mais influenciados pela dieta da família e valores de saúde estão realizando dietas vegetarianas saudáveis ou com pouca carne. Mas há um grupo grande de estudantes que decidiram se tornar vegetarianos e o fazem de forma inadequada. Os que o fazem de forma inadequada não sabem como navegar pelo mundo vegetariano. Eles comem mais pão, queijo e massas, e reforçam as saladas. O consumo de gordura saturada deles não é menor do que o dos comedores de carne, e são os que apresentam a maior probabilidade de um consumo inadequado de vitamina B12 e proteína. Eles podem achar que são mais saudáveis porque são vegetarianos e por não comerem carne vermelha, mas na verdade eles podem ser menos saudáveis".

Jenny Woodson, de 20 anos, atualmente uma caloura na Universidade de Duke, é vegetariana há muito tempo. Já aos 6 anos, ao ir ao McDonald's, ela pedia salada. Quando Jenny vivia no dormitório do colégio, ela aprendeu rapidamente que adolescentes não podem viver somente de batata frita e brócolis. "Nós terminamos fazendo sanduíches vegetarianos com bagels e ingredientes do bufê de saladas, fritas com queijo e batatas recheadas com queijo". Jenny e seus amigos tinham cuidado para evitar alimentos ricos em calorias e gorduras no bufê de saladas, mas para aqueles que não exercitavam a moderação, os itens no bufê de saladas podem se tornar a junk food vegetariana.

Maggie Ellinger-Locke, 19 anos, de Saint Louis, Missouri, um subúrbio da University City, é vegetariana há oito anos e se tornou vegan aos 15 anos. De lá para cá ela não se veste com produtos de couro ou lã, e dorme sob um acolchoado. Ela não usa pratos ou utensílios que tocaram em carne. "Parecia que estávamos nos mantendo kosher", disse Linda, a mãe de Maggie, que não é judia. No colégio, Maggie era ridicularizada, até mesmo derrubada ao chão, por adolescentes que aparentemente consideravam seus hábitos alimentares ameaçadores. Ela encontrou uma espécie de final feliz ao se matricular na Faculdade Antioch, onde estuda ecofeminismo. "Aqui, as pessoas na defensiva são aquelas que comem carne", disse ela.

Mas Maggie caiu em alguns buracos na estrada para a perfeição. Até recentemente, ela fumava até dois maços de cigarro por dia (afinal, cigarros são plantas enriquecidas com nicotina), parando apenas porque não queria apoiar a indústria do tabaco. E ela admite abertamente uma desordem alimentar: no ano passado ela desenvolveu bulimia, farreando e vomitando às vezes uma vez por dia para lidar com o estresse. Mas ela insiste que segue fielmente suas crenças: mesmo quando farreava, ela permanecia uma vegan dedicada.

A Associação Dietética Americana descobriu que as dietas vegetarianas são ligeiramente mais comuns entre os adolescentes com desordens alimentares, mas que "dados recentes sugerem que a adoção do vegetarianismo não leva à desordens alimentares". Pode ser argumentado que os adolescentes americanos já têm uma desordem alimentar -fast-food, refrigerantes e doces são o mapa para a obesidade e problemas cardíacos. Por que deveria se esperar que os adolescentes fossem purgar seus maus hábitos só porque se tornaram vegetarianos? Ainda assim, Simon Chaitowitz, do grupo pró-vegetarianismo e de direitos dos animais Comitê dos Médicos pela Medicina Responsável, alega que "é melhor as crianças serem vegetarianas consumidoras de junk food do que comedoras de carne e de junk food".

Talvez. Segundo a dra. Joan Sabate, presidente da conferência de nutrição em Loma Linda, ainda há preocupação em torno das dietas vegetarianas para as crianças em crescimento e para as mulheres que estão amamentando. Quando você está no que ela chama de "estado de alta exigência metabólica", qualquer dieta que exclua alimentos dificulta a obtenção dos nutrientes necessários. Mas ela acrescenta que "para o adulto médio sedentário que vive em uma sociedade ocidental, uma dieta vegetariana atende às necessidades dietéticas e previne doenças crônicas melhor do que uma dieta onívora".

Assim como as crianças e mães em fase de amamentação, os atletas precisam se alimentar inteligentemente. O sucesso deles depende de explosões de energia, força sustentada e massa muscular, fatores que exigem nutrientes encontrados mais facilmente na carne. Por este motivo, relativamente poucos atletas são vegetarianos. Além disso, diz a nutricionista esportiva Suzanne Girard Eberle, autora de "Endurance Sports Nutrition" afirma que "muitos atletas não têm idéia de como seus corpos funcionam. Este é o motivo de dietas da moda e suplementos serem tão atrativos para eles".

Eberle nota que dietas vegetarianas seguidas corretamente são ricas em fibras e pobres em gordura. "Mas onde estão as calorias?" ela pergunta. "Atletas de resistência de nível internacional precisam de 5 mil a 6 mil calorias por dia. Uma competição consome facilmente 10 mil calorias. Você precisaria comer muitos alimentos baseados em plantas para obter estas calorias. Ser um atleta vegetariano é difícil, uma dieta realmente difícil de seguir corretamente".

Mas também não é fácil para o restante dos americanos. Adultos idosos de classe média também podem desenvolver deficiências em uma dieta vegetariana (como também podem, é claro, em uma dieta pobre que inclua carne). Deficiências de vitaminas D, B12 e iodo, que pode provocar bócio, são comuns. Os idosos tendem a compensar tomando suplementos, mas tal abordagem contém riscos. Os pesquisadores descobriram casos em que idosos vegetarianos, que são suscetíveis a carência de iodo, apresentavam níveis altos e perigosamente tóxicos de iodo em seus corpos, porque exageram nos suplementos.

Os produtores de carne reconhecem que as dietas vegetarianas podem ser saudáveis. Eles também responderam ao pedido para alimentos mais magros; a National Pork Board (conselho nacional de carne de porco) disse que, em comparação a 20 anos atrás, a carne de porco está em média 31% mais magra em gordura e apresenta 29% a menos de gordura saturada, e tem 14% menos calorias e 10% menos colesterol. Mas os defensores da carne e dos derivados de leite também estão na ofensiva. Eles mencionam a necessidade de vitamina B12. E também exploram o fator medo. Kurt Graetzer, executivo-chefe do Programa de Educação de Processamento de Leite, avalia a queda no consumo de leite (não apenas por vegans, mas também por crianças que preferem sucos e refrigerantes) e declara: "Nós virtualmente estamos desenvolvendo uma geração de crianças com osteoporose".

A dra. Michelle Warren, professora de Medicina do Centro Médico Presbiteriano de Nova York -e membro do Conselho para Soluções de Nutrição para as Mulheres, que é patrocinado pela Associação Nacional dos Criadores de Gado- expressa preocupação quanto a deficiência de cálcio ligada à dieta vegan: "As conseqüências mais sérias são baixa massa óssea e osteoporose. Esta é uma condição permanente". Warren disse que na sua prática, ela tem visto jovens vegetarianas com menstruação irregular e perda de cabelo. "E há uma cor peculiar, um tom amarelo na pele", que ocorre em pessoas que comem muitos vegetais ricos em betacaroteno em combinação com uma dieta de baixa caloria. "Eu acho muito pouco atraente". Ela também fica incomodada com os motivos que os jovens vegetarianos dão para sua opção de dieta. Uma paciente, disse Warren, não comia carne porque lhe disseram que foi o motivo do pai dela ter tido um ataque cardíaco.

Michael Jacobson, diretor executivo do Centro de Ciência no Interesse Público, em Washington, considera grande parte dos argumentos dos lobistas a favor da carne e dos laticínios como histórias de terror falsas e desesperadas. "Elas desmascaram os interesses próprios da indústria", disse ele, "quando expressam preocupação com a vitamina B12 ao mesmo tempo em que centenas de milhares de pessoas estão morrendo prematuramente devido ao excesso de gordura saturada oriunda da carne e dos laticínios". De fato, segundo David Pimentel, um ecologista de Cornell, o americano médio consome 112 gramas de proteína por dia, duas vezes a quantidade recomendada pela Academia Nacional de Ciências. "Isto implica em riscos de câncer e estresse no sistema urinário", disse Pimentel. "E com esta proteína vem muita gordura. Cerca de 40% de nossas calorias -de altos riscos cardiovasculares- vêm da gordura".

Pimentel argumenta que o vegetarianismo é muito mais amigável ao meio ambiente do que as dietas que giram em torno da carne. "Em termos de conteúdo calórico, os grãos consumidos pelo animais de criação americanos poderiam alimentar 800 milhões de pessoas -e, se exportado, elevaria a balança comercial americana para US$ 80 bilhões ao ano". Os animais de criação alimentados por grãos consomem 100 mil litros de água para cada quilograma de alimento que produzem, em comparação com 2 mil litros para a soja. A proteína animal também exige tremendo gasto em energia de combustíveis fósseis -oito vezes a quantidade equivalente em proteína vegetal. Colocando de outra forma, disse Pimentel, a dieta onívora média queima o equivalente a 3,8 litros de combustível por dia -o dobro do empregado em uma dieta vegan. E os animais de criação americanos -gado, galinhas, perus, cordeiros, porcos e os demais- consomem cinco vezes mais grãos do que a população humana americana. Além disso, há 7 bilhões de animais; o número deles nos supera em 25 para 1.

No espírito de "fair play" do caubói Jody Brown e de sua raça ameaçada, vamos apresentar dois argumentos a favor dos comedores de carne. A primeira é que isto nos tornou humanos. "Nós nunca teríamos evoluído em hominídeos grandes e socialmente ativos se não tivéssemos nos voltado para a carne", disse Katharine Milton, uma antropóloga da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Os primatas vegetarianos (os orangotangos e gorilas) são menos sociais do que os chimpanzés mais onívoros, possivelmente porque a coleta e o consumo de tanto alimento exige tempo demais. Os primeiros hominídeos deram um passo ousado: há 2,5 milhões de anos, eles estavam quebrando os ossos dos animais para comer a medula. Eles comiam o tecido muscular rico em proteína, disse Milton, "mas também o restante do animal -fígado, medula, miolos- com suas altas concentrações de outros nutrientes. Os humanos em evolução comiam de tudo".

Igualmente importante, eles sabiam a razão de estarem comendo aquilo. Na frase elegante de Milton, "resolver os problemas dietéticos com sua cabeça é a trajetória da ordem primata". Os hominídeos se tornaram grandes devido à carne, e inteligentes devido ao alimento para o cérebro, a glicose, que obtinham a partir das frutas, raízes e tubérculos. Esta dieta de carne e glicose deu aos primeiros homens energia para queimar -ou melhor, energia para formar a casa, cantar e socializar, desenvolver cultura, arte, guerra. E finalmente, cerca de 10 mil anos atrás, para dominar a agricultura e o comércio -que forneceram o sistema sofisticado que os humanos modernos podem usar para se tornarem vegetarianos.

O outro motivo para comer carne é, se segure, ético -uma questão de direitos dos animais. O argumento familiar para o vegetarianismo, articulado por Tom Regan, um fundador filosófico do atual movimento de direitos dos animais, é que ele salvaria o porquinho Babe e Ginger, de "Fuga das Galinhas", de serem executados. "Mas e quanto ao Pernalonga e ao Mickey?" pergunta Steven Davis, professor de Ciência Animal da Universidade Estadual do Oregon, apontando para o número de animais do campo mortos inadvertidamente durante a plantação e a colheita. Um estudo mostrou que o simples corte de um campo de alfafa provocou uma redução de 50% na população de rato-calunga de rabo cinzento. O índice de mortalidade aumenta a cada passagem do trator para arar. Coelhos, ratos e faisões, ele diz, são "danos colaterais" indiscriminados das plantações e da indústria de grãos.

Por outro lado, ruminantes que pastam (e não são alimentados por grãos) como o gado produzem alimento e exigem menos intervenções no campo com tratores e outros equipamentos. Aplicando a teoria do dano menor de Regan, Davis propõe um modelo de produção de alimentos baseado na pastagem de ruminantes, que substituiria a produção de carnes de aves e porcos por carne bovina, de cordeiro e laticínios. Segundo seus cálculos, tal modelo resultaria em 300 milhões de animais deixando de serem mortos ao ano (contando tanto animais do campo quanto os de criação) do que um modelo completamente vegan. Quando perguntado sobre os argumentos de Davis, Regan ainda assim viu uma distinção: "A verdadeira questão é se devemos apoiar sistemas de produção cuja própria razão da existência é matar animais. Comedores de carne o fazem. Vegetarianos éticos não".

A moral: não há almoço gratuito, nem mesmo para os vegetarianos. Por hora, o homem está no topo da cadeia alimentar e deve viver com sua escolha de se alimentar de coisas vivas. Mas até mesmo comparar uma segadora com Hiroshima significa mostrar o quão longe chegamos em considerar o tratamento humano daquilo que não é humano. E ainda temos muito o que avançar. "Pode demorar algum tempo", disse a atriz e vegetariana Mary Tyler Moore, "mas provavelmente chegará o dia em que olharemos para trás e diremos, 'Meu Deus, você acredita que no século 20 e em parte do século 21 as pessoas ainda comiam animais?'".

Pode demorar muito tempo. Para a maioria das pessoas, o sabor da carne ainda é bom. Será que algum dia o "alimento americano" será o tofu?

Com reportagem de Melissa August e Matthew Cooper/Washington, David Bjerklie e Lisa McLaughlin/Nova York, Wendy Cole/Chicago e Jeffrey Ressner/ Los Angeles

Vegans, Crudivoristas e Piscitarianos
O vegetarianismo vem em muitas formas e aspectos filosóficos, do estrito ao extremamente solto. Um guia para os vários sabores:

1. Macrobiótica
Uma dieta composta principalmente de arroz integral, leguminosos, verduras e legumes com pequenas quantidades de alimentos fermentados, nozes, sementes e frutas. E nenhum alimento de origem animal.

2. Frugivorismo
Nada além de frutas. Mas não entre em pânico: isto inclui muito suco assim como grãos, frutas secas, sementes, legumes e até tomates e berinjelas -resumindo, qualquer parte que a planta pode repor facilmente.

3. Crudivorismo
Exclui qualquer coisa preparada com temperatura acima de 48o C, o ponto a partir do qual as enzimas começam a ser destruídas. Alguns praticantes acreditam que Jesus comia basicamente alimentos crus.

4. Veganismo
Não come carne, laticínios, ovos ou outros produtos animais -nem mesmo mel. Muitos vegans também evitam vestir couro.

5. Ovo-vegetarianismo
Pode chamar este grupo de "Geração Ovos". Eles comem verduras e legumes mais ovos, seguindo a teoria de que a galinha os botaria mesmo que não os comêssemos.

6. Lacto-vegetarianismo
Verduras e legumes e laticínios, mas não ovos. Você pode comer manteiga, queijo, creme batido, milk shakes, sorvete. Qual é o sacrifício?

7. Ovo-lacto-vegetarianismo
O regime vegetariano mais praticado. Você come verduras e legumes, ovos e laticínios. Se satisfaz sem matar. Na Igreja dos Vegetarianos, estes são os Unitaristas. Os pesco-vegetarianos (piscitarianos) comem peixe (porque peixes não possuem um sistema nervoso sofisticado).

Aqui estão algumas das coisas para as quais se deve ter atenção:

aos bebês?
Recém-nascidos não se desenvolvem adequadamente sem os nutrientes fornecidos pelo leite materno ou por fórmula. Os bebês necessitam de proteínas e vitaminas que podem exigir alimentos vegetarianos enriquecidos. a

aos adolescentes?
É bom se transformar em vegetariano, mas evite a junk food. Os jovens precisam de proteína, vitamina B12 e D e ácidos graxos, essenciais para alimentar seus corpos em desenvolvimento. Seletividade excessiva pode mascarar desordens alimentares.

às mulheres grávidas?
O que a mãe come é o que o bebê recebe, assim mães vegetarianas poderão precisar de suplementos em suas dietas com vitaminas B12 e D.

aos atletas?
Para uma alta performance, os atletas necessitam de proteínas, calorias e nutrientes como ferro e zinco. Não come carne? Então é melhor aprender a gostar de tofu e lentilhas.

aos idosos?
Idosos necessitam de cálcio e vitamina D para manterem os ossos fortes, mas eles não sintetizam vitamina D de forma tão eficiente quanto os mais jovens. Alimentos enriquecidos e suplementos ajudam.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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