Descascar o abacaxi

Ontem eu aprendi o dito popular brasileiro “descascar o abacaxi” e hoje chego, sem perceber, a Itaberaba: a ”terra do abacaxi”. Estamos a 280 quilômetros de Salvador (Bahia). Será um encontro interessante com o pessoal da CPT e sua obra libertadora no âmbito da Igreja. 

Parece que uma lei municipal de 20 anos atrás tem consequências de longo alcance por aqui. Os pobres a chamam de “a lei do pé alto”1. Eles costumavam criar as cabras soltas. A cabra é considerada “a vaca dos pobres”. Elas se alimentam da vegetação nativa, sem destruí-la. E o que determinava essa lei? Proibiu a criação de animais soltos. Todos deveriam providenciar cercas. Mas, cercar caprinos! Alguém já tentou manter uma cabra dentro de um cercado? São necessárias cercas com 8 a 10 fios, mas a população não tinha dinheiro para isso. Por outro lado, para animais de grande porte, como o gado, cercas com 3 a 4 fios são suficientes. Ou seja, é uma lei para fazendeiros com “pés largos”, “espaçosos”, que se aproveitaram dela para inviabilizar a criação de caprinos e ocupar terras que não lhes pertenciam.

Resultado: o que as cabras nunca conseguiram foi realizado pelo boi nos últimos 20 anos. Desmatamento massivo, tendo como resultado que Itaberaba agora é conhecida como ponto de partida da desertificação.

Acrescente-se a isso que, há dez anos, toda a área foi coberta com plantações de monocultura de abacaxi. Tudo está sendo sistematicamente desmatado. O abacaxi recebe muitos “remédios”. Sim, o meu guia utiliza esse termo em vez de veneno. Interessante, o sistema está realmente com uma doença terminal e, por enquanto, é mantido vivo à base de “medicamentos”. Um desses produtos tem a função de acelerar o crescimento do fruto. Uma planta pode produzir frutos durante três anos consecutivos. No ano seguinte, gramíneas são semeadas e, na sequência, o ciclo se repete. Mas quanto tempo isso ainda pode continuar? O novo prefeito é do Partido Verde. Será que ele terá a vontade e o poder para reverter essa situação em uma diversidade maior? Buscando mais independência dos caprichos de um único produto no mercado? Segundo o Ministério do Meio Ambiente, existem no Brasil 775 produtos vegetais que poderiam ser imediatamente comercializados. Nenhum país do mundo possui riqueza de oportunidades semelhante. O que é que ainda estão esperando? 

Enquanto isso, as poucas árvores nativas (por exemplo, umbu-cajá) continuam produzindo muitos frutos. Eles caem ao chão e não são comercializados… Ainda assim, a diversidade de produtos está ao alcance das mãos. Não, eles querem abacaxi e nada mais.

Não sei se eu ainda vou comer muito abacaxi. 

Luc Vankrunkelsven,

Itaberaba, 16 de abril de 2009. 

Postscriptum: 

A diocese local de Ruy Barbosa (BA) trilha o lento caminho da mudança, a partir da sabedoria popular. Após a imersão no abacaxi, tenho a oportunidade de me refrescar – não com suco de abacaxi, mas com a fé viva de uma comunidade de base, integrante da rede de CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). Logo em seguida, ocorre um interessante encontro com os agricultores e agricultoras familiares de “Olho Vivo”, das comunidades rurais e seu engajamento social. Nessa região, eles estão especialmente empenhados em conseguir cisternas para armazenamento de água, em obter energia elétrica para todos na área rural, na investigação da prática atual de novas formas de escravidão etc. Nessa ocasião, alguém veio propor um mercado para as trabalhadoras rurais e seu artesanato. No contexto da economia solidária, seria organizada uma feira em Salvador. Estou curioso para saber se, em longo prazo, também incluirão alimentos da região… além do abacaxi.

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