Dentro e fora

Farida Akther, de Bangladesh, toma a palavra. Com boas imagens, ela esboça com perfeição os dois mundos neste congresso: “Nós estamos aqui, no calor de uma barraca. É duro, mas podemos sentir a vida real, com suas alegrias e dores. Eu estive lá dentro, mas lá é frio e insensível. O ar condicionado faz com que os presentes não participem da vida real. Os sentimentos são anestesiados. Aqui fora nós sentimos as dificuldades pelas quais passam os campesinos do mundo todo. Qual a luta que precisam enfrentar dia-a-dia.”

Nem bem ela terminou de falar e ficamos sabendo que os donos dos restaurantes ‘lá dentro’ estão protestando contra a comida excepcionalmente boa ‘aqui fora’. Alimentos saudáveis e baratos, direto da mão do agricultor. Muitas das pessoas enregeladas ‘lá de dentro’ vêm buscar o calor e o sabor da alimentação ‘aqui de fora’.

 

[Foto 31]

Mística com milho crioulo. Manifestação contra o gene terminator

 

As barracas de alimentação das ONGs e dos agricultores são fechadas. “Bem-vindo ao mundo real.” Também numa conferência da ONU sobre biodiversidade, a diversidade de alimentos saudáveis é considerada uma ameaça para o sistema.

Os debates e manifestações não diminuem em razão disso. Ao contrário. À tarde, os agricultores oferecem, gratuitamente, ‘milho crioulo’ cozido. Ou seja, uma saborosa diversidade de milho. Também os ‘indígenas’, em sua aldeia, distribuem gratuitamente os alimentos que trouxeram.

À noite, os agricultores agroecológicos do Paraná celebram uma mística envolvente. Eles não vão permitir que lhes tomem suas sementes e seus alimentos básicos. E querem distância de Wal-Mart, Monsanto e terminator.

Mesmo assim… será que um outro mundo é uma das possibilidades?

 

Curitiba, 17 de março de 2006.

 

 

(1)   Há dez anos surgiu em Buenos Aires o Fórum Indígena Internacional sobre Biodiversidade (FIIB). Ele representa 150 povos tradicionais de 120 países, tanto de países como Noruega, Finlândia, Suécia e Rússia quanto parte dos povos tradicionais da Ásia, África e América do Sul.

(2)   Leia mais sobre a empresa Vale do Rio Doce em ‘Soja e alumínio’, no livro ‘Navios que se cruzam na calada da noite. Soja sobre o oceano.’ Curitiba: Editora Gráfica Popular/Cefuria, 2006.

(3)   <http://www.banterminator.org>, do francês, ‘terminer’: terminar (a vida). A semente é manipulada geneticamente de tal maneira que perde seu poder de germinação na colheita. Ou seja, o(a) agricultor(a) é obrigado(a) a, todo ano, voltar ao produtor de sementes. Em agosto de 2006, Monsanto adquiriu seu maior concorrente em sementes de algodão, a Delta & Pine Land (D&PL), por 1,5 bilhão de dólares. D&PL é conhecida por sua patente sobre o ‘gene terminator’. Em 1998, Monsanto já quis comprar D&PL, naquela época por 1,8 bilhão de dólares (note a diferença no preço). Por causa do protesto internacional (entre outros, de Wervel) contra o gene terminator, Monsanto retirou sua oferta em 1999. Há anos Monsanto promete que ‘não vai utilizar o gene terminator’ na produção de alimentos: <http://www.monsanto.com/monsanto/content/media/pubs/2005/focus_impacts.pdf>. Devido a esta posição ambígua e esta compra, Monsanto pode utilizar o ‘terminator’ – sim – em um dos ramos mais lucrativos do agronegócio: algodão. Enquanto gigante da indústria química, não só as sementes são interessantes; o cultivo de algodão responde, mundialmente, por 26% dos agrotóxicos utilizados no planeta. Juntas, Monsanto e D&PL controlam atualmente 57% do mercado norte-americano de sementes de algodão e, com D&PL, mercados importantes em 13 países, como China, Índia, Brasil, México, Turquia e Paquistão. No Brasil, elas detêm 1/3 das sementes de algodão. Com esta aquisição, Monsanto quer estabelecer definitivamente sua hegemonia na terra do algodão. Os olhos estão especialmente voltados para a África porque, em virtude das negociações na OMC, no longo prazo não será possível continuar dando tantos subsídios aos produtores de algodão norte-americanos. Uma boa parte da produção de algodão será deslocada, portanto, para a África e Ásia. Agora Monsanto poderá impor suas sementes transgênicas a milhões de pequenos agricultores da África, que precisam delas para sobreviver. Apesar da crescente resistência na África Ocidental, em 2004, D&PL já realizava experimentos com algodão transgênico em Burkina Faso, Mali e Egito.


Bracatinga versus pinus e eucalipto

 

Durante o encontro de 14 dias sobre ‘biodiversidade’, fico na Associação para Desenvolvimento da Agroecologia (Aopa) e pernoito com a família Marfil, em Bocaiúva do Sul (PR).

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