Deixando os muros da universidade

Há aqueles dias em que você é solicitado em três lugares ao mesmo tempo. Hoje é um desses dias. A cooperativa de laticínios Ascooper me convidou para sua assembléia anual, em Santa Catarina, e a CPT do estado de Rondônia, que promove um encontro de dois dias, também. Uma vez que eu não tenho o poder de estar em três locais diferentes ao mesmo tempo, vou continuar tranquilamente em Matinhos, uma cidade litorânea que conta com uma universidade, a 100 km de Curitiba. Afinal, amanhã preciso ir a Brasília e isso seria muito mais difícil a partir dos outros dois locais. 

Escolher sempre implica em perder alguma coisa, mas Matinhos é um lugar muito especial. Há três anos e meio foi inaugurado aqui um campus da Universidade Federal do Paraná, que aplica um modelo pedagógico alternativo. E aqui há, também, o “Pico dos Livros”, onde Ismael Rogeski, um sujeito maravilhoso, encontrou espaço para gerenciar uma livraria engajada. Além disso, ele faz apresentações de teatro de bonecos na rua para crianças, e isso com histórias a partir da realidade deles! Já há algum tempo, o professor Manoel Lesama anima as feiras de agricultores familiares que agora começam a se ampliar. Neste modelo pedagógico, os estudantes aprendem principalmente por meio do desenvolvimento de projetos. Por exemplo, a partir de uma abordagem integrada, identifica-se o problema: como estimular o sistema agroflorestal na agricultura familiar e como desenvolver um mercado local via feiras de produtores para superar a estacionalidade da venda de produtos somente aos veranistas?

É a terceira vez que me encontro em uma reunião prolongada com alunos e professores. Dessa vez, usamos o novo DVD sobre experiências agroflorestais na Europa. Apresentado com a necessária humildade e diálogo, pois – no que diz respeito aos sistemas agroflorestais – os europeus têm mais é que aprender com brasileiros, indonésios e muitos outros povos. No filme, um pesquisador de Montpellier (França) declara francamente que, de 1900 a 1990, não foram realizadas pesquisas sobre esse tema na Europa. Somente de alguns anos para cá é que a importância das árvores em um sistema agrícola voltou a ser reconhecida em alguns meios agrícolas e acadêmicos. 

Na primeira turnê  surgiu a ideia de transformar “Aurora no campo” em um projeto. Os estudantes iniciaram o trabalho, junto com um professor de agroecologia e a professora de artes. Eles discutiram os textos do livro e, finalmente, elaboraram uma bela capa para “Aurora no campo. Soja diferente”. Com a perspectiva do próximo livro, demos um passo além. Será novamente um projeto sobre o mesmo tema, mas como a universidade pratica a integração do ensino-pesquisa-extensão, não serão somente estudantes e professores que participarão do diálogo interdisciplinar. Não, eles irão além dos muros da universidade e iniciarão um diálogo com as comunidades pobres deste território. Estudantes, professores e comunidades não só desenvolverão o design da capa, mas também farão as ilustrações. Essas ilustrações, baseadas na leitura e na discussão dos textos, substituirão as fotos dos livros anteriores. Tanto a versão em holandês quanto a em português divulgarão a alma das comunidades do Litoral Paranaense. 

Por coincidência, Sampaio também está na universidade. Justamente hoje ele veio convidar a universidade para espiar ainda mais por sobre os muros e trabalhar a partir dos saberes da população. É o que ele faz no projeto desenvolvido com base em pesquisa-ação na zona laboratório de educação para o ecodesenvolvimento. Para ele, a atual crise é uma crise urbana, uma crise industrial e de consumismo. Se partíssemos do conhecimento tradicional dos pescadores, povos indígenas, quilombolas (comunidades de descendentes de escravos), extrativistas (pessoas que vivem da caça e da coleta de produtos florestais) e de muitos outros sistemas sociais, nós poderíamos superar muitos dos problemas globais.

Um dos projetos interessantes é a “Feira de trocas solidárias”, que se desenvolveu a partir das comunidades rurais no entorno do rio Sagrado, na cidade vizinha de Morretes. “Mercados de trocas”, um movimento que ignora a hegemonia do mercado mundial. 

Trocas de ideias. Vamos eleger essa expressão como lema desse intercâmbio. Trocar ideias de igual para igual. 

Luc Vankrunkelsven,

Matinhos, 31 de março de 2009.

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