Debicagem em poedeiras comerciais

Fonte: Avicultura Industrial

Redação AI (Edição 1095/2001) – Nos últimos 30 anos, a indústria avícola nacional experimentou um modelo de produção animal intensivo e economicamente eficiente, a qual foi beneficiada pelos avanços na tecnologia e descobertas científicas ocorridas desde os anos 70. Desta forma a avicultura de postura, vem assumindo um importante papel no contexto sócio-econômico nacional: a produção de proteína animal à baixo custo, minimizando, pelo menos em parte, a carência alimentar do povo brasileiro, além de ser uma fonte nutricional saudável e equilibrada.

O incremento da produção de ovos se tornou num grande desafio para a nossa avicultura, que se encontra entre as melhores do mundo. Várias são as técnicas desenvolvidas para se alcançar maior produtividade ao menor custo possível. Dessa forma, a alimentação, nutrição, sanidade, ambiente e manejo devem estar harmonizados para poder propiciar a expressão de todo o potencial das poedeiras comerciais. Assim, dentre os diferentes fatores de produção das poedeiras, o manejo representa um importante fator a ser trabalhado, dentre os quais, a debicagem se encontra como um dos fatores que requer maiores cuidados em sua execução.

Nas explorações avícolas de todo o mundo, os índices de produtividade podem ser influenciados pela hierarquização social, que ocorre principalmente nas aves de postura, dando origem no plantel a indivíduos submissos e ao canibalismo. Durante a fase de formação das frangas, esta hierarquização pode provocar desuniformidade do lote e canibalismo que podem ser prevenidos pela debicagem (Campos, 1993).

Quando se debica uma ave, tem-se por objetivo melhorar seu desempenho produtivo, reduzir o canibalismo, diminuir a quebra de ovos e melhorar a conversão alimentar. Uma debicagem mal feita é sinônimo de prejuízos, e várias são as alternativas buscando o melhor resultado, gerando várias controvérsias pela falta de exatidão e unidade sobre como proceder esta operação.

Quando devemos debicar?

O sistema de criação e o objetivo pelo qual as aves estão sendo criadas serão usados para decidir o programa de debicagem. Em geral, as aves são debicadas precocemente e, novamente, antes de entrarem na fase de postura. Algumas alternativas são as seguintes:

     

  1. Debicar a ave no primeiro dia de idade ou dentro dos 10 primeiros dias de vida. Esta debicagem normalmente é adequada para prevenir o canibalismo no período de 8 a 10 semanas de criação. O segundo passo é debicar moderadamente as aves na transferência para o galpão de postura. Esta debicagem é feita somente para "retocar" algumas fêmeas preparando-as para o período de postura.
  2. Quando as aves crescem totalmente confinadas, proceder como na primeira fase da alternativa anterior e em seguida, debicar a segunda vez de 8 a 10 semanas de idade.
  3. Realizar uma debicagem severa no primeiro dia ou na primeira semana de vida e não debicar a ave novamente. Este método não é recomendado pois causa um estresse severo na ave e prejudica o seu desempenho.

Essas alternativas dão-nos apenas uma idéia de como as aves podem ser debicadas. Variações ou combinações nestes planos podem ser realizadas de acordo com o manejo empregado em cada granja.

Figura 1 – Demonstra a debicagem apenas do bico superior. Este método pode ser empregado antes que a ave atinja a maturidade. Na debicagem leve ocorre somente a remoção da cutícula que envolve o bico. Na média e severa, as aves devem ser debicadas e o bico cauterizado. Se a ave estiver passando pelo processo de maturidade sexual, este método resulta muitas vezes em menor crescimento do bico superior.

Como debicar as aves?

A recomendação técnica da realização de debicagem em poedeiras comerciais, ainda não se encontra padronizada entre os profissionais que trabalham nesta área. As diferentes linhagens comerciais, cada uma, recomendam uma idade e até mesmo, formas diferentes de se realizar a debicagem, procurando o melhor desempenho das poedeiras. O melhor método será aquele que melhor se adeque as necessidades da granja.

Figura 2 – Neste método remove-se um terço do bico superior e apenas a extremidade distal do bico inferior.

Figura 3 – Neste método remove-se um terço dos bicos superior e inferior da ave.


Aspectos importantes no procedimento da debicagem

Durante a realização da debicagem, torna-se importante observarmos alguns aspectos:

1. O melhor horário para realizar a debicagem é no início da manhã ou ao entardecer, mantendo sempre disponível água fresca para as aves.

2. Não debicar aves doentes.

3. Não ter pressa para realizar a debicagem e usar sempre equipes bem treinadas.

4. A lâmina de debicagem deve estar na temperatura correta (em torno de 700 C) antes da debicagem. Lâmina muito quente resulta na formação de neuromas no bico que se tornam muito sensíveis e causam desconforto, reduzindo o desempenho das aves.

5. A ave deve ser contida corretamente e o dedo indicador será posicionado sobre a garganta de forma a promover a retração da língua, evitando desta forma o seu corte. A debicagem deve ser realizada lentamente, permitindo que a lâmina cauterize o bico. A borda do bico deve ser arredondada para eliminar arestas.

6. Não puxar o bico da ave antes que o bico tenha sido completamente cortado, pois pode prejudicar o desempenho da ave.

7. Confira cuidadosamente a debicagem de cada ave. Se possível, faça os retoques que forem necessários. Aves mal debicadas podem ser causa de aborrecimentos mais tarde.

Tabela 1 – Efeitos da debicagem sobre o comportamento de frangas no período de 4 a 7 semanas de idade (% do tempo)

Dentro de cada característica, médias com letras iguais não diferem entre si. (Craig & Lee, 1990) Adaptado.

Tabela 2 – Efeitos da debicagem sobre o comportamento de frangas no período de 4 a 16 semanas de idade (% do tempo)

Dentro de cada característica, médias com letras iguais não diferem entre si. (Lee & Craig, 1990) Adaptado.

Manejo pré e pós debicagem

Antes e após a debicagem, algumas práticas podem minimizar o estresse das aves. É importante prevenir mortalidade e minimizar a perda de peso e a diminuição no consumo de alimentos. Desta forma, é importante lembrarmos de:

1. Fornecer vitamina K na ração ou através da água uma semana antes da debicagem. Este procedimento minimiza futuros problemas de hemorragia.

2. Durante os primeiros 7 dias após a debicagem, manter o alimento mais acessível a ave de maneira que a mesma não entre em contato com o fundo do comedouro.

3. Estimular o consumo de alimentos fornecendo ração duas ou mais vezes ao dia.

4. No período correspondente a uma semana antes e uma semana após a debicagem, não submeter a ave ao estresse, evitando realizar vacinações e sua movimentação.

Tabela 3 – Efeito da debicagem sobre o desempenho de três linhagens de poedeiras comerciais

Dentro de cada característica, letras maiúsculas iguais na mesma coluna e minúsculas iguais na mesma linha, não diferem entre si. (Craig & Lee, 1989) Adaptado

Debicagem e o bem-estar animal

A debicagem é uma prática de manejo que tem sido grandemente empregada pela indústria avícola para reduzir os efeitos negativos causados pelo canibalismo, bicagem das penas e mortalidade. A maioria dos estudos têm se concentrado nos aspectos produtivos e econômicos desta prática, não levando em consideração as respostas comportamentais e fisiológicas das aves. O tema sobre bem-estar animal nas modernas técnicas de produção foi primeiramente abordado por Harrison (1964), que avaliou as técnicas de produção animal como atitudes desumanas, levando ao surgimento do movimento do bem estar animal na Europa. O primeiro comitê oficial que tratou do tema relacionado com o bem-estar dos animais criados sobre produção intensiva foi o de Brambell (1965), ocorrido na Inglaterra. Neste caso, a debicagem foi mencionada como uma prática que deveria ser eliminada ou apresentar modificações substanciais para a adoção de sua prática. Duas décadas depois, o mesmo tema foi abordado nos Estados Unidos no comitê de Consortium (1988) reafirmando a necessidade de avaliar-se as técnicas intensivas da produção animal.

MITOS

VERDADES

A debicagem é uma mutilação quase que completa do bico

A debicagem é realizada por profissionais experientes que realizam a operação com cuidado evitando ao máximo o sofrimento da ave

Com a debicagem as aves sofrem dores crônicas pelo resto de suas vidas

Quando a debicagem é realizada corretamente a ave não sofre de dor crônica

A debicagem dificulta a ave a beber água, alimentar e realizar outras atividades normais

Após a debicagem a ave recupera completamente o uso do bico para desenvolver suas atividades normais

Aves debicadas produzem menos ovos

Aves debicadas produzem a mesma Quantidade de ovos que aves não debicadas e, além disso, são menos susceptíveis ao ataque às outras aves


Um dos problemas oriundos da debicagem seria a dor ocasionada pelo corte do bico, o que resulta na alteração do comportamento das aves. O bico da ave é inervado por ramificações do nervo trigêmeo e contêm terminações nervosas junto com os corpúsculos de Herbest e Merkel. Desta forma ocorre uma perda da inervação sensorial no bico da ave após a debicagem. Contudo, de acordo com Gentle (1986), 10 dias após a debicagem há sinais de regeneração do nervo trigêmeo e 20 a 30 dias após, é possível ver fibras regeneradas na região debicada. Além disso, ocorre a presença de mecanoreceptores e termoreceptores no bico da ave, mas são os nocireceptores que são mais importantes em relação a debicagem, os quais são sensíveis a estímulos nocívos, como a esta prática. Seu limiar térmico se encontra na faixa de 40 a 48C e uma descarga persistente de temperatura estimula sua ação. Estudos no comportamento das aves após a debicagem revelam mudanças no hábito alimentar, tremores na cabeça denotando a presença de dor no bico das aves submetidas ao procedimento. Cunningham (1992), observou que a prática de debicagem pode causar dor à ave, sendo assim motivo de resistência quanto a seu uso. Porém, evidências mostram que a dor associada à debicagem, depende do critério o qual foi utilizado, e além disso, a sua prática traz benefícios à criação. Segundo Glatz et al. (1999) ocorrem mitos e verdades a respeito da realização da debicagem (Quadro 1).

Tabela 04 – Desempenho de frangas comerciais, na fase de cria, submetidas a diferentes níveis de debicagem aos 9 dias de idade

* Médias seguidas de letras iguais não diferem estatisticamente pelo Teste de Tukey (p> 0,05)
* Determinada através do número de aves bicadas dentro de cada tratamento Araújo et al., (2000)


Os dois comitês foram unânimes em reconhecer que há duas alternativas para resolver a questão do bem-estar animal: o manejo e a genética.

Vários trabalhos têm procurado demonstrar que as linhagens de poedeiras comerciais diferem na resposta ao estresse provocado pela sistema de produção, podendo desta forma, adotar um manejo diferente para cada linhagem estudada. Algumas linhagens necessitam de maior espaço do que outras, enquanto outras linhagens, por serem mais calmas, não necessitam de serem debicadas (Muir & Graig, 1998). Estas informações podem servir de base para modificar as práticas de manejo existentes ou desenvolver programas de seleção genética para melhorar o comportamento das aves.

Procurando demonstrar o comportamento de aves, debicadas ou não, Craig & Lee (1990) e Lee & Craig (1990) observaram diferenças no comportamento das aves e no período de 4 a 7 e 4 a 16 semanas, respectivamente (Tabelas 1 e 2).

Tabela 05 – Desempenho de frangas comerciais submetidas a duas debicagens, no período de 8 a 17 semanas

Médias seguidas de letras iguais, maiúscula na mesma linha e minúscula na mesma coluna não diferem estatisticamente pelo Teste de Tukey (P> 0,05) Araújo et al. (2000). Adaptado.

Efeito da debicagem sobre o desempenho

Vários trabalhos avaliam os efeitos da debicagem sobre o desempenho e produção de ovos, em que ocorre um aumento na taxa de postura quando as aves foram debicadas, o que pode ser resultado de uma menor mortalidade e menor índice de ovos bicados, frutos de um comportamento menos agressivo das aves. Além disso, a ave debicada desperdiça menos ração melhorando a conversão alimentar. A debicagem é necessária pois, com o bico inteiro, a galinha escolhe determinados ingredientes da ração e joga muito alimento para fora do comedouro. Debicada a ave não seleciona o alimento, diminuindo o consumo.

Craig & Lee (1989) avaliaram o desempenho de três linhagens de poedeiras comercias e observaram diferenças entre as mesmas, quando foram ou não debicadas (Tabela 3). Neste mesmo trabalho os autores observaram que as aves das linhagens A, B e C, quando não foram debicadas, apresentaram uma taxa de mortalidade proveniente do canibalismo na ordem de 18.00, 1.00 e 35.00% (P<0,05), respectivamente, e quando foram debicadas, a taxa de mortalidade foi de 1.00, 2.00 e 0.00%., demonstrando diferentes respostas das linhagens estudas quanto a prática da debicagem.

Os processos de beber e comer não diferem entre as aves debicadas e não debicadas

Mais importante do que a economia de ração, é a redução do canibalismo. Araújo et al. (1999, 2000) avaliaram o efeito da debicagem sobre o desempenho de poedeiras comerciais. O trabalho foi dividido em três períodos: cria (1 a 7 semanas), recria (8 a 17 semanas) e postura (18 a 34 semanas). Foram realizas duas debicagens, sendo a primeira ao 9 dia, e a segunda, no 89 dia. Na fase de cria (Tabela 4) foram mantidos três grupos de aves: um grupo não debicado, outro com debicagem leve (3mm da narina) e o terceiro grupo debicado de forma severa (2mm da narina). Os resultados demonstraram uma menor incidência de canibalismo em aves que foram debicadas e que no período total, não houve diferença de consumo, uniformidade e peso médio das aves. Na fase de recria (Tabela 5), as aves foram debicadas pela segunda vez e divididas em 9 tratamentos numa combinação dos níveis da primeira debicagem com os níveis da segunda: aves não debicadas, debicagem leve (7 mm da narina) e debicagem severa (5mm da narina). Ao final deste período, os resultados demonstraram que as aves não debicadas apresentaram maior consumo de ração e maior peso corporal. As mesmas aves foram utilizadas na fase de postura (Tabela 6), onde o peso corporal e a conversão alimentar não foram afetados pelas debicagens realizadas. As aves que, na segunda debicagem, foram debicadas de forma severa apresentaram menor consumo de ração, e menor produção de ovos, sendo que o melhor desempenho foi alcançado com as aves debicadas de forma leve.

Conclusões

A debicagem deve ser feita durante os primeiros dias das aves, ainda pintinhos

A prática da debicagem continua sendo um tema de difícil solução para a indústria avícola na perspectiva do bem-estar animal, já que algumas pesquisas demonstram a influência desta prática sobre o comportamento e desempenho das aves. Faz-se necessário realizar uma avaliação global da atividade pois, são claros os benefícios oriundos da realização desta prática com a diminuição do canibalismo, ocorrendo menor mortalidade, menor número de ovos bicados e menor desperdício de ração. Até que métodos alternativos de controle do canibalismo sejam desenvolvidos, a debicagem deve ser vista pela indústria avícola como um procedimento necessário para a proteção dos lotes de postura dos efeitos adversos causados por este comportamento.

Tabela 6 – Desempenho de poedeiras comerciais, submetidas a duas debicagens, no período de 18 a 34 semanas

* Médias seguidas de letras iguais, maiúsculas na mesma linha e minúsculas na mesma coluna, não diferem estatisticamente pelo Teste de Tukey (p> 0,05) Araújo et al. (1999). Adaptado.


1 Médico Veterinário, Doutor em Zootecnia

2 Docente do Departamento de Zootecnia da FCAV/UNESP Jaboticabal SP

3 Aluna do Curso de Pós-Graduação da FCAV/UNESP Jaboticabal SP
e-mail: lfaraujo@fcav.unesp.br

Bibliografia

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ARAUJO, L. F., CAFÉ, M. B., JUNQUEIRA, O . M., ARAUJO, C. S. S., et. al., 2000. Diferentes níveis de debicagem para frangas comerciais. Ars Veterinária. 16:46-51.
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fonte: Lúcio Francelino Araújo (1), Otto Mack Junqueira (2), Cristiane Soares da Silva Araújo (3)

 

 

 

 

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