De pregadores no deserto a movimento de massa?

Naquele período, surgiu um livro impressionante: Our stolen future [Nosso futuro roubado], de Theo Colborn, Dianne Dumanoski e John Peterson Myers. Na edição brasileira, de 1997, José A. Lutzenberger escreveu um prefácio tocante. No Brasil, Lutzenberger foi um pioneiro inspirador, um ponto de referência para o movimento ambiental que se iniciava. Ele foi funcionário da gigante química Bayer. Mais tarde, ele deixou a empresa e fez duras críticas à indústria química. De 1990 a 1992, foi secretário especial do Meio Ambiente, durante o governo do presidente Fernando Collor de Mello. A seguir, apresento várias citações dele para, na sua pessoa, homenagear os muitos pregadores no deserto, muito antes da onda do ‘aquecimento global’.

 

José A. Lutzenberger:

“Mas, em termos econômicos globais, o que é o agricultor moderno, aquele que constitui menos de dois por cento da população? Ele é uma peça minúscula numa imensa estrutura tecno-burocrático-financeiro-administrativa e legislativa que começa nos campos de petróleo e refinarias, atravessa a indústria química, indústria de máquinas, bancos, manipulação industrial de alimentos até os supermercados e centros comerciais, universidades, pesquisa, extensão agrícola e uma gigantesca movimentação de transportes, social e ecologicamente absurda, mais uma desenfreada indústria de embalagens que a cada dia torna mais intratável o problema do lixo e para cuja solução, além dos imensos lixões, já estão sendo construídos gigantescos incineradores. []

 

A conta completa nos mostra que não houve aumento de produtividade em termos de trabalho humano; houve, isso sim, remanejamento de tarefas. Nos raros casos em que houve real aumento de produtividade por hectare, medido apenas em quilos por unidade de superfície, não estão sendo contabilizados os custos sociais – marginalização de centenas de milhões de camponeses no mundo – e não são contabilizados os custos ecológicos: devastação de ecossistemas, perda de biodiversidade natural, perda de diversidade em nossos cultivares, desperdício maciço de recursos minerais não-renováveis. Ou seja, perda de sustentabilidade.

 

Alem disso, poucos se dão conta do destrutivo que são os modernos esquemas de produção de animais em confinamento. Ali se destrói muito mais alimento do que se produz, pois alimentamos gado, porcos, galinhas e outros com alimento subtraído ao consumo humano. Se apenas a China com seu 1,2 bilhão de habitantes conseguir passar a alimentar-se da maneira que hoje o fazem americanos, alemães ou japoneses, estaria logo programado o colapso da alimentação humana em termos globais. (2)

Em essência, o que aconteceu nestas últimas décadas e que passou a chamar-se de modernização da agricultura é que indústrias e comércio conseguiram açambarcar para si toda aquela parte da produção, manipulação e distribuição de alimentos que lhe garante negócio certo, deixando ao agricultor os riscos de más colheitas por questões climáticas e o risco de perdas financeiras pelo aumento crescente dos custos dos insumos e baixa constante nos preços que consegue cobrar por seus produtos.

 

Portanto, não é com apenas retoques no sistema existente que vamos garantir futuro para nossos filhos, netos e descendentes remotos. Temos que repensar o sistema todo e reformá-lo, passo a passo, para que volte a ser sustentável. Isto não significa retorno aos métodos primitivos, de trabalho manual, duro, do camponês de cem anos atrás. Nossos atuais conhecimentos científicos e novos avanços técnicos nos permitem fazer muito melhor e a vida no campo pode hoje ser muito mais sadia e confortável que a vida nas modernas megalópoles. []

 

Em 2007, graças inclusive ao painel sobre mudanças climáticas das Nações Unidas, os alertas de Lutzenberger e outros profetas são de conhecimento geral. Até mesmo o maior sojicultor do mundo, Blairo Maggi, parece ter sido tocado e começa a mostrar um discurso ‘verde’. Vamos aguardar para ver se a prática nos seus 150 mil hectares de monocultura de soja também vai mudar, bem como a política no Mato Grosso, estado do qual Maggi é governador.

 

Recampesinização

 

De origem espanhola, a palavra ‘campesino’ possui muitos significados. Qual seria a melhor tradução? Agricultor? Trabalhador rural? Lavrador? Agricultor familiar na polarização com a agricultura industrial? Sempre há uma carga ideológica por trás do uso da palavra e, às vezes, esta gera intensos debates. Por exemplo, ‘agricultura familiar’, no Brasil, deu a centenas de milhares de agricultores uma identidade bem diferente do que ‘pequeno agricultor’, campesino. Nos últimos dez anos, o Brasil tem refletido muito sobre a identidade e a força da agricultura familiar na sociedade. Assim surgiu em 2006, por exemplo, o livro A diversidade da agricultura familiar, coordenado por Sergio Schneider (3). São 14 contribuições – todas elas muito interessantes – que reproduzem a rica gama de variedades de agricultura familiar. Treze brasileiros e um holandês, o catedrático Jan-Douwe Van der Ploeg. Por si só, a realização deste colóquio e desta obra conjunta já é interessante. O Brasil pode ser um espelho para a Europa e a Europa para o Brasil. Em sua contribuição, Van der Ploeg defende uma renovação da realidade agrícola e lança mão do termo campesino. Ele fala de recampesinização, e não somente no assim chamado ‘Terceiro Mundo’, mas também – e principalmente – na Europa. E isto quando muitos acreditavam que já havia chegado a última hora dos campesinos, dos agricultores familiares. Com a sua recampesinização ele não quer retornar para a velha dicotomia leninista entre agricultores e capitalistas. Para ele – e para nós – trata-se da reconstrução de fundamentos naturais e sociais para a produção de alimentos nas sociedades modernas.

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