Aurora no Campo - Soja Diferente

De leite para peixe

 

Meu português melhora a cada dia, mas às vezes entendo as coisas de maneira errada. Principalmente, quando estou cansado, é certeza! Ontem à noite, na reunião de planejamento da manifestação ouvi a palavra ‘Mercado’. Bem, o ‘Mercado Municipal’ é próximo do meu hotel. Às 10 da manhã, caminho em direção ao mercado e ando entre as bancas. Os mil agricultores da Fetraf, a vaca, o bezerro e a agricultora encarregada da ordenha não estão à vista. Mas, tudo bem: sempre há muito para ver, vivenciar e aromas a absorver. Muitas bancas com carne, por exemplo. Os gaúchos, aqueles que têm condições, comem muita carne. Diferentes tipos de erva-mate para chimarrão. E peixe seco e também uma barraca com peixe fresco.

 

O peixe seco é o onipresente bacalhau, herança dos colonizadores portugueses. Esta herança está cobrando seu preço, pois o bacalhau está seriamente ameaçado devido à pesca excessiva; o bacalhau está custando os olhos da cara.

Embora a maior parte do bacalhau ainda seja pescada próximo à Islândia, o Brasil é o maior importador de bacalhau do mundo. Principalmente na época da Sexta-Feira Santa e Páscoa é que se prepara uma grande variedade de pratos com bacalhau. Os chineses não vivem sem as barbatanas de tubarão, os japoneses insistem em consumir baleias e o bacalhau – do norte do Oceano Atlântico – faz parte da identidade culinária brasileira.

 

Mesmo assim, há 10 milhões de famílias de pescadores em atividade ao longo dos 8 mil quilômetros da costa do país e na imensa região de águas doces chamada de Amazônia. Mas, assim como em terra há uma batalha entre dois modelos agrícolas, assim há, nos mares, uma batalha impiedosa entre a pesca industrial e a pesca artesanal (1). Guerra ‘em terra e no mar (kai kata ghein kai kata thalassan)’, como se dizia na Grécia Antiga. É por isso – e porque no congresso sobre reforma agrária não há somente campesinos, mas também povos tradicionais, nômades, pescadores… – que o tema ‘reforma agrária’ também inclui ‘reforma marítima’. “Fim da privatização e da pesca excessiva dos mares mundiais! Parem com as ‘Exclusive Economic Zones – EEZ’ [Zonas Econômicas Exclusivas], que excluem os povos tradicionais e pescadores de muitas regiões costeiras.”

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