Curitiba: um mito ecológico?

“Você está indo para o Brasil? Já ouviu falar de Curitiba?”

“Sim, vou para lá na próxima semana.”

“Eu li que é uma cidade-modelo na área de ecologia e alternativas. Um sistema de moeda alternativa, por exemplo. É verdade?” 

Arquitetura para turistas? 

Trata-se de uma conversa na ONG Netwerk Vlaanderen1, no dia anterior à minha partida. Netwerk Vlaanderen atua principalmente em torno do papel do setor bancário e mantém uma “cooperativa de crédito informal” – sem cobrança de juros – para projetos sociais e ambientais e desenvolvendo ideias em torno de moedas alternativas.

Sempre é interessante buscar inspiração em exemplos do exterior, mas o que pensar de Curitiba? Durante a conversa, recebi uma cópia de um artigo de 1990: “Curitiba: the brazilian city which left the Third World” [Curitiba: a cidade brasileira que deixou o Terceiro Mundo].

De fato, à primeira vista Curitiba impressiona. Há muitos parques, o transporte público é razoavelmente eficiente. Há belíssimas obras arquitetônicas que nos deixam sem palavras, principalmente os turistas. 

Direita verde? 

Jaime Lerner é arquiteto. Em 1971, na época da ditadura militar, ele foi nomeado prefeito de Curitiba. Mais tarde, foi eleito governador do Paraná. Foi nessa época que o conheci. Em 2000, passei dois meses no Paraná. Lá, visitei vários acampamentos e assentamentos do MST. O que chamou minha atenção é que naquela época, nos meios do MST, a “ecologia” era tratada como um tema da “direita”. Eu não entendia e me sentia magoado. O movimento ambiental é o berço de meu trajeto de militância social. A mim, não me parecia que isso fosse “ser de direita”.

Mas acabei envolvido após o duro confronto com a polícia militar, sob comando do governador-arquiteto Lerner. Num curto espaço de tempo, o Paraná tornou-se o estado com a mais forte repressão contra os sem-terra. Ocorreram inclusive mortes.

Foi o mesmo Lerner que fez construir o Jardim Botânico em Curitiba? O Lerner, o pioneiro na coleta seletiva de lixo doméstico no Brasil? O Lerner que projetou o sistema de transporte público que inspirou cidades como Nova Iorque? O Jaime Lerner que implantou um sistema para limitar a dez o número de andares dos prédios? 

Arquitetura fascista? 

O ano de 2000 foi também o ano em que a Bélgica ainda lambia suas feridas após o fechamento da Renault-Vilvoorde. Alguns meses depois, foi inaugurada a Renault-Curitiba. A fábrica requer muita água no processo de produção (1). Sem problemas. Sabem qual foi a solução? O “ambientalista” Lerner mudou a destinação de uma área de preservação natural. A construção da fábrica da Renault foi planejada naquela área ambientalmente frágil. “Quanta corrupção esteve envolvida nesses fatos?”, me sussurraram ainda hoje.

Nos anos seguintes, mais fatos chamaram minha atenção. No Fórum Social Mundial de 2002, participei de um workshop de “arquitetos críticos”. Fiquei chocado: sem rodeios, eles chamaram a maravilha de Curitiba de “arquitetura fascista”. Será que ouvi bem?

“Alô?! Arquitetura fascista? Será que vocês não estão exagerando?”

Eles destacaram, entre outros, que o planejamento urbano foi feito de modo que os pobres não precisassem ir até o centro da cidade com frequência. Segundo o IBGE, a cidade possui também um percentual considerável de afrodescendentes, mas eles se tornaram “invisíveis”. Eles moram nos bairros mais afastados e, apesar 20% dos habitantes serem afrodescendentes, ao caminhar pela Rua XV de Novembro quase não se encontram negros. O centro da cidade “excluiu” os miseráveis que, frequentemente, também são negros. Somente quando as lojas fecham suas portas é que muitos são vistos, puxando seus carrinhos para recolher papelão e outros materiais recicláveis (2). 

Mesmo assim, o artigo afirma que planejadores urbanos de todo o mundo ficaram impressionados com o que viram em Curitiba. Urbanistas de Buenos Aires, Santiago, Montreal, Paris, Praga, Cidade do México, Lagos, entre outros, visitaram a cidade buscando inspiração.

Há mais de 30 anos são escritos textos elogiosos sobre Curitiba, principalmente no exterior. Os adeptos da deep ecology2 nos EUA citam Curitiba como exemplo. Há muitos anos que o “paraíso brasileiro” não é desconhecido dos círculos ambientalistas da Europa.

Em Bruxelas, uma vez ouvi um arquiteto utilizar o mesmo termo. Ele achava que os edifícios do Banco KBC em Bruxelas e em Leuven também eram “arquitetura fascista”. Será que é um termo empregado levianamente? Ou será que retrata algo sobre de uma cultura de exclusão (de muitos) em favor do capital (de uma minoria)? 

Propaganda3 internacional? 

Durante esses dias, testo ainda mais a imagem de “cidade ecológica” de Curitiba junto a diversos integrantes de movimentos de base da região. Aparentemente, eles consideram tudo uma propaganda incrivelmente astuciosa. Um mito que é mantido. Fico sabendo que Curitiba já está atrasada em relação a muitas realizações ecológicas de outras cidades brasileiras. Como a auréola de “capital ecológica” está se desfazendo, a propaganda agora se volta para divulgar Curitiba como “capital social”. 

Quem sou eu, um estrangeiro, para me manifestar tão criticamente sobre essa “cidade ecológica”? Estou apenas tentando registrar o que me contam os curitibanos da base, perplexos com a propaganda no exterior.

E o que eu mesmo vivenciei nesses dias? Durante dois dias fiquei hospedado em Campo Largo, a 30 km da região central de Curitiba. O sistema de transporte coletivo rápido e barato realmente me levou até Curitiba, mas há muito empurra-empurra. É um contraste gritante com a disciplina no metrô de São Paulo. Lá, todos ficam ordeiramente em fila. Em Curitiba, é sempre uma confusão para sair e entrar no ônibus. Mas isso é compreensível: em São Paulo, a frequência das composições do metrô é muito maior. E é claro que cabem mais passageiros numa composição do que num ônibus.

Outra experiência. O artigo ainda diz: “Estimula-se o uso do transporte público em vez do automóvel”. É evidente que o texto foi escrito há quase dez anos. Nesse meio tempo, as fábricas de veículos da Renault e da Audi-Volkswagen se juntaram à da Volvo, inaugurada em 1980. Essas indústrias não fornecem veículos só para a América Latina, mas também vendem muitas unidades na própria Curitiba. Um motorista da Comissão Pastoral da Terra (CPT) se dispôs a me levar de Curitiba à cidade da Lapa. À noite, termos um encontro na “Escola Latino-Americana de Agroecologia”. Levou mais de uma hora só para sairmos da cidade. Um congestionamento… Nunca me aconteceu isso em Bruxelas! Chegamos com atraso de uma hora para a palestra e os debates, e isso porque utilizamos a “Linha Verde”, uma faixa de grama que cruza a cidade de prédios altos. No documento eu li que quem deseja construir prédios com mais de dez andares deve compensar o excedente com área verde. Bem, a julgar pela altura dos prédios, será necessária uma floresta para a compensação.

A propaganda internacional continua a afirmar: “Estimula-se o transporte público e não o uso individual de automóveis”. “Curitiba é um exemplo de organização ecológica”. Ou seria apenas um outdoor?  

Em 1992, Curitiba foi eleita pela Organização das Nações Unidas como modelo de uma cidade ecológica para o mundo. Felizmente, desde a conferência Rio 92, ocorreram avanços em muitas cidades desse mesmo mundo. Será que Curitiba se acomodou no seu pioneirismo e ficou ultrapassada? 

Luc Vankrunkelsven,

Bocaiúva do Sul, 14 de março de 2009. 

  1. Para fabricar um automóvel, são necessários até 400 mil litros de água. Além disso, o total de energia gasto na fabricação de um automóvel é superior a toda a energia fornecida pelo combustível necessário para fazê-lo andar ao longo de sua vida útil.
  2. Veja também: “Esta noite dormi com uma mulher. Flores na favela”, em ”Aurora no Campo. Soja diferente” (Curitiba: Editora Gráfica Popular/Cefuria, 2008).
  3. Um texto publicado na Gazeta do Povo confirma essa realidade. Cito um trecho do artigo da socióloga Marcilene “Lena” Garcia de Souza (“Curitiba que poucos querem ver. Singularidades do racismo na ‘capital Europeia’ e ‘mais preta’ do Sul do Brasil”):

    “De acordo com [dados do] Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2005, em Curitiba e Região Metropolitana, os negros (pretos e pardos) somam 19,7%. Os indicadores mostram que em relação à educação, quando comparamos os anos de escolaridade de negros e brancos, vemos que os brancos têm 9,3 anos de estudo para 7,4 anos de estudo dos pretos e pardos; em termos salariais, os brancos recebem em média 4,7 salários mínimos para 2,6 salários mínimos dos pretos e pardos. Para o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (IPARDES) de 2006, os negros em Curitiba e Região Metropolitana, em média, recebem 60,5% do salário dos brancos. A maior diferença salarial está nas áreas de educação, saúde, serviços sociais e administração pública (47% do rendimento dos brancos).”

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