Crônica do matadouro

As memórias online de um ex-trabalhador avícola sobre sua repugnante atividade eletrizaram os ativistas pelos direitos dos animais do mundo inteiro

PINE RIDGE, Arkansas, EUA. Em seu trêiler mal iluminado no pinheiral, Virgil Butler escreve sobre a morte.

Certa vez matou um homem a tiros no estacionamento de um bar. Participou da invasão norte-americana do Panamá e recorda ter matado de perto soldados inimigos. Não é esta a violência que o leva até o teclado.

Ele é perseguido pelos nove anos em que ganhou a vida chacinando galinhas.

Na escuridão gelada de uma fábrica de processamento Tyson, Butler matava 80.000 aves por turno. Prendia suas pernas em grilhões para que ficassem penduradas de cabeça para baixo. Cortava suas gargantas. A cada dois segundos, outra galinha chegava-lhe pela esteira, guinchando e batendo as asas. Então não era possível pensar muito.

Mas a Tyson despediu Butler no último outono, por razões que a empresa não revela. Agora ele tem tempo para pensar. O homem que matou no bar foi em legítima defesa. Os soldados que matou, bem, era a guerra. As aves é que perturbam seu sono. Ele senta de pernas cruzadas na cama que cede ao seu peso e coloca o teclado no colo.

– Há sangue por toda parte. É só a gente e as galinhas agonizantes. A gente fica com vergonha de dizer aos outros o que faz à noite, quando estão dormindo na cama.

Butler escreve horas por dia. Suas palavras eletrizaram os ativistas pelos direitos dos animais de todo o globo.

Publicada em http://www.cyberactivist.blogspot.com, a descrição que Butler faz da carreira no matadouro está sendo traduzida para o francês e o holandês. O jornal britânico The Guardian recomendou seu blog como “material poderoso”, que “não dá pra não ler”. Simpatizantes de Cingapura e da Rússia mandam perguntas por e-mail. Desconhecidos dos Estados Unidos enviam cartões.

Veteranos do movimento pelos direitos dos animais dizem que Butler fez mais por sua causa que o apoio de celebridades como a atriz Pamela Anderson e o ex-Beatle Paul McCartney. Lucy Kelley, cozinheira de 60 anos de Mount Juliet, Tennesee, disse que só teve uma reação ao blog: “Não como mais galinha”.

– A descrição de Virgil da horrível agressão às galinhas nos matadouros de nosso país transformou mais pessoas em vegetarianos do que tudo o que fizemos no ano passado _ disse Bruce Friedrich, diretor do programa de promoção do veganismo da People for the Ethical Treatment of Animals. Com 750.000 membros, a PETA é o maior grupo de defesa dos direitos dos animais do mundo.

– Recebemos constantemente cartas e e-mails a esse respeito _ disse Friedrich.

NÃO HÁ PLANOS DE PROCESSO

A Tyson considera Butler um ex-funcionário revoltado que só inventou estas histórias de terror depois de perder o emprego. “Algumas das coisas que diz são ultrajantes”, disse Ed Nicholson, porta-voz da empresa. A Tyson não planeja nenhuma ação na Justiça para tirar do ar o sítio em questão, acrescentou, porque um processo só daria mais publicidade a Butler.

O xerife local, enquanto isso, mostra a ficha criminal de Butler e pergunta por que alguém daria atenção a um ex-funcionário de avícola com problemas e ficha suja.

Butler, de 39 anos, às vezes também se espanta com isso.

Caipira assumido, com bigode comprido, rabo-de-cavalo fininho e um sorriso triste com muitos dentes faltando, Butler é ex-alcóolatra e ex-viciado em drogas. Costumava engolir pílulas de efedrina e fumar machonha; foi preso pelo menos duas vezes por uso de drogas. Tem o segundo grau completo e algum conhecimento de carpintaria, mas nunca esperou muita coisa da vida.

_ Só me vejo como um simples operário de fábrica de galinhas _ disse.

No alto dos Montes Ouchita, 200 km a oeste de Little Rock, Butler mora num trêiler tão pequeno que ele e a noiva, Laura Alexander, não podem ficar de pé lado a lado. O fogão está quebrado. A lâmpada nua pisca quando se liga a cafeteira. A cidadezinha mais próxima tem apenas 220 habitantes, e até essa fica a 15 quilômetros de distância.

Butler nunca teve uma causa para defender antes.

_ Nunca tive nada que quisesse tanto tentar _ disse ele.

Mas de algum modo, de seu trêiler na floresta, ele se tornou uma luz condutora na luta pelos direitos dos animais. “O creme vegan da colheita ativista”, é como Friedrich o chama.

_ É um sentimento maravilhoso _ disse Butler. _ Toda a minha vida as pessoas diziam: “são só galinhas”. Não sabia que tanta gente se preocuparia com isso.

Os grupos de defesa dos direitos dos animais usam há muito tempo dicas de pessoas de dentro para ajudá-los a planejar estratégias de protesto. Mas a maioria dos denunciantes insiste no anonimato para proteger o emprego. É por isso que os ativistas consideram o blog de Butler tão importante.

_ Ele saiu de um mundo que está completamente oculto de nossas vistas _ disse Karen Davis, que administra um abrigo para galinhas resgatadas em Machipongo, Virgínia. _ Pouquíssima gente tem esta coragem.

O blog de Butler, com mais de 200 páginas, descreve tudo, das fezes das aves que parecem flutuar no ar (“meio arenosas, como Metamucil, e meio salgadas”) ao pânico que acredita ter visto nas galinhas (“às vezes, você pega uma delas olhando pra você, olho no olho, e sabe que ela está aterrorizada”). Ele não poupa detalhes nojentos ao descrever a matança, incluindo os azares ocasionais que condenam algumas aves a ossos quebrados, choques, ferimentos e a serem fervidas vivas no tanque de escaldadura.

Esses erros “não são comuns em termos do número por mil de aves afetadas”, disse Bruce Webster, especialista em avicultura da Universidade da Geórgia, consultor de bem-estar animal da rede de lanchonetes Kentucky Fried Chicken. “Mas se a gente fica assistindo por tempo suficiente, é provável que veja acontecer”, acrescenta.

Em seu blog, Butler também afirma ter visto seus colegas na fábrica Tyson de Grannis, Arkansas, arrancar a cabeça de galinhas vivas, matá-las com os pés e explodi-las com bombas de gelo seco.

Michael Oglesby, xerife de Polk County, investigou as acusações, mas não encontrou provas.

_ Todo mundo, do gerente da fábrica para baixo, nega tudo _ disse.

O Departamento de Agricultura dos EUA também examinou as acusações mas “não conseguiu substanciá-las”, disse o porta-voz Steven Cohen.

As controvertidas acusações de Butler de sadismo na fábrica de Grannis foram muito promovidas pelos grupos de defesa dos animais. Mas seu relato menos sensacional e controvertido da rotina do matadouro parece inflamar igualmente os leitores.

_ Antes de lê-lo, nunca pensei como a carne chegava até o meu prato _ disse Josh Tetrick, aluno da Cornell University. Depois da leitura, ele adotou o tofu. _ Fiquei chocado ao saber que os animais não eram mortos instantaneamente, que às vezes os instrumentos não funcionam _ disse.

Tetrick, de 23 anos, jogador de futebol americano acostumado a engolir três peitos de frango numa refeição, vem mantendo uma dieta vegan há três meses.

_ Um relato pessoal, em primeira mão, era o que eu precisava _ disse.

LEITURA “PERTURBADORA”

O blog de Butler atrai de quatro a 400 leitores por dia. Muitos são levados a responder. “Sua página foi a coisa mais perturbadora que já li em toda a minha vida”, escreveu um simpatizante.

Outro, “ainda não vegan mas já a caminho”, pediu conselhos: “Tenho medo de explicar aos meus amigos o que há mesmo por trás de seus McNuggets.”

Butler e Laura, em seu computador decrépito às 5 da manhã, respondem a todos os e-mails.

Butler ganhou 500 dólares com seu ativismo neste outono, quando a PETA enviou-o em segredo para tentar corroborar suas acusações de crueldade contra as galinhas na fábrica de Grannis. (Ele gravou alguns operários conversando sobre os incidentes, mas o promotor do distrito recusou-se a abrir processo.)

Incapaz de conseguir emprego depois que a Tyson o demitiu, Butler não recebeu mais nada em mais de um ano.

Seu seguro-desemprego de 112 dólares por semana acabou no mês passado. Laura, de 35 anos, também está falida. Ela diz que lesões nas costas, causadas por um acidente de carro, impedem-na de trabalhar, e assim passa a maior parte do tempo ajudando Butler no blog e numa sala de bate-papo que mantêm em http://groups.yahoo.com/group/activistsagainstfactoryfarming .

Esperando conseguir ajuda dos simpatizantes, Butler colocou recentemente um botão para doações em seu sítio na internet. Recebeu uma doação de 75 dólares. Mas ainda que não possa viver de seu ativismo, planeja continuar escrevendo.

_ Quanto mais eu faço, mais certo acho que estou _ disse. _ Encontrei o meu nicho.

Tem sido uma viagem improvável.

Butler pegou o primeiro emprego na indústria avícola aos 14 anos. Juntando-se a um grupo de biscateiros, ia de fazenda em fazenda pegando galinhas e prendendo-as em caixotes de madeira para enviar aos matadouros.

Assim que terminou a escola secundária, alistou-se no Exército. Disse que seu grupo de reconhecimento de combate foi enviado ao Panamá durante a invasão norte-americana em 1989 e envolveu-se em várias escaramuças.

Quando voltou para casa, Butler aceitou o único emprego firme que conseguiu encontrar na região rural do Arkansas: matar galinhas nas fábricas Tyson em Grannis e Waldron.

O trabalho era monótono mas Tyson pagava bem mais que o salário mínimo, com benefícios. Butler nem parou para pensar muito nas aves que matava; eram apenas um “produto pré-processado”.

Depois da briga no bar, Butler passou três anos na prisão por assassinato. Quando recebeu liberdade condicional em 1997, a Tyson colocou-o de volta na linha de produção em Grannis, uma hora ao sul de Pine Ridge. Butler foi advertido várias vezes por discutir com os colegas. Também foi homenageado pelo menos duas vezes como operário do mês, aceitando com orgulho suas placas.

Mas quanto mais trabalhava no matadouro, disse Butler, mais se sentia incomodado.

Tomou drogas para esquecer. Passou a levar uma faca consigo. Agrediu verbalmente a noiva. Sentia-se um matador, disse, e agia de acordo. _ É como se a gente perdesse a humanidade.

Butler descobriu que não conseguia conversar com a noiva sobre o trabalho. Pela manhã, quando chegava em casa sem a camiseta, não conseguia explicar que ela estava tão encharcada de sangue que teve de jogá-la fora.

_ Percebi que estava honestamente envergonhado de mostrar a ela o que fazia para viver.

Butler afirma que suas queixas veementes sobre as condições de vida das aves e dos trabalhadores custaram-lhe o emprego em novembro de 2002. A Tyson diz que ninguém na fábrica se recorda dessas queixas de Butler.

Dois meses depois da demissão, Butler descreveu os crimes do matadouro numa entrevista coletiva à imprensa patrocinada pela PETA. Só um repórter compareceu. Nada foi publicado.

Mas nos meses seguintes, a PETA e outros grupos publicaram a história de Butler em seus sítios na internet. Sempre que isso acontecia, chegavam centenas de e-mails agradecendo-lhe por, como explicou um leitor, “dar voz aos animais”.

Espantado, encorajado, Butler começou a pensar em si como mais que um matador de linha de montagem. Abandonou o presunto frito e as costeletas de porco em favor de uma dieta vegan.

Quando as lembranças do matadouro tomaram seus pensamentos, falou a respeito, ao invés de tentar afastá-las.

Pela primeira vez, contou à noiva o que fizera naqueles nove anos no matadouro. E como se sentira.

 

INSPIRADO PELOS BLOGS DO IRAQUE

Ele passou meses desenrolando com relutância suas memórias. Então, em agosto, inspirado pelos blogs dos soldados no Iraque, lançou seu diário online.

No mês passado, funcionários da Tyson começaram a visitar o sítio de Butler. Semanas depois, a empresa anunciou o plano de inspecionar seus matadouros regularmente para garantir tratamento humano aos 42 milhões de galinhas processados todo ano.

Nicholson disse que as novas inpeções não têm nenhuma ligação com o blog de Butler.

_ O que ele diz é como o galo, que acha que o sol nasceu porque ele cantou.

Butler não tem tanta certeza.

_ Uma pessoa pode fazer diferença quando não cala a boca _ disse ele. _ Se a gente continua falando por tempo suficiente, as pessoas vão escutar.

Stephanie Simon, redatora do Times

Tradução: Beatriz Medina

 

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