Criativo e em pequena escala

Quando, timidamente, faço estas perguntas, será que estou totalmente do lado da ‘imprensa burguesa’ que durante vários dias comenta detalhadamente este ‘ato de violência’? A imprensa que, com todos os meios, ataca o MST e está do lado do agronegócio. A imprensa que está, ela própria, nas mãos do Grande Capital? Será que com estas perguntas sou imediatamente classificado como ‘direita’ neste sistema às vezes simplista de ‘esquerda-direita’?

Sempre tive muito respeito (e ainda tenho) pelo MST e me sinto apoiado pelas correntes amplas da Via Campesina, mas quando vejo esta espiral de destruição se ampliando fico triste por dentro. O MST ameaça tornar-se cada vez mais sectário e isolado (6). Além disso, o cidadão brasileiro médio considera tudo farinha do mesmo saco. Pelo noticiário ele não consegue entender do que se trata na verdade. Ele também não faz distinção entre MST, Via Campesina, PT, outras organizações rurais que defendem a agroecologia ou reforma agrária, sindicatos e outros movimentos sociais. Uma manifestação violenta como esta atinge – sem pedir licença e sem aviso prévio – o trabalho de outras organizações.

Será que não é possível imaginar outros caminhos para as mudanças? Mais no estilo do ‘Plowshares Eight’ [As oito relhas do arado][1], por exemplo. Em meio à época da Guerra Fria, oito pessoas invadiram a General Electric. Simbolicamente, eles bateram com um martelo em ogivas nucleares e as aspergiram com seu sangue. Os oito possuíam inspiração cristã, assim como muitos militantes do MST têm suas raízes no cristianismo. O jesuíta e pacifista Daniel Berrigan era um deles. A ‘máquina de destruição’ não foi destruída materialmente, mas o coração do capitalismo foi, sim, profundamente atingido. O fato gerou um processo judicial que durou anos, fazendo com que houvesse um debate contínuo sobre armas nucleares. Naturalmente as armas nucleares ainda não deixaram de existir. Mas será que, graças a estas ações destrutivas, os desertos de eucaliptos serão banidos mais rapidamente de nosso planeta?

Na verdade, a maioria das ações do MST consegue, sim, me entusiasmar. Recentemente, o MST invadiu uma propriedade da multinacional química e de sementes Syngenta. O centro de pesquisas visado realizava, dentro da faixa de 10 km em torno do Parque Nacional de Foz do Iguaçu, experimentos com transgênicos. Isso é 100% contra a legislação brasileira de biossegurança. Não foi empregada violência, mas a ação foi extremamente eficaz. Agora, o governo do Paraná quer transformar a propriedade num centro de pesquisas de sementes crioulas. Será que sou frouxo demais quando aplaudo uma ação como essa e balanço negativamente a cabeça com pesar no outro caso?


[1] Um grupo que realizava protesto antinucleares não-violentos. Em inglês: <http://en.wikipedia.org/wiki/Plowshares_Movement>.

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