Costumes/rituais (1) ao levantar

No Sul do Brasil, um dos primeiros atos depois de acordar e levantar da cama é colocar água para esquentar e preparar a erva-mate para o chimarrão. No interior, muitas famílias ainda contam com o fogão a lenha. Neste caso, obviamente, é o fogão que recebe a primeira atenção.

Em seguida, como num ritual de comunhão, a cuia passa de mão em mão. Uma saudação silenciosa ao dia, a você mesmo e ao próximo. É uma rica herança dos guarani, um dos povos nativos deste continente.

Em muitas famílias, o segundo ato ainda é lavar o feijão preto, tipicamente brasileiro. Os brasileiros fazem duas refeições quentes por dia: o almoço e o jantar. Nem se cogita levar sanduíches para o trabalho, como é feito em Flandres [Bélgica]. Nos bem freqüentados restaurantes é possível fazer refeições a um preço baixo. Nesses sempre se encontra carne, verduras e frutas em abundância, mas também – e sempre – os alimentos básicos: ‘arroz com feijão’. Quem faz as refeições em casa, costuma fazer uma refeição quente no almoço e, à noite, requenta o que sobrou. Portanto, é necessário preparar uma boa quantidade de feijão pela manhã. Quando o feijão faz parte de várias refeições ao logo do dia (2), há sempre uma panela com feijão no fogão à lenha.

 

Muitos dos pratos atuais preparados com feijão têm sua origem no período da escravidão. Afinal, um escravo era um investimento e precisava ser bem tratado, assim como um cavalo é bem tratado para render no trabalho. Obviamente, o ‘bom tratamento’ era composto de restos das mesas dos senhores: vísceras, ossos e nervos. Esses ingredientes deram origem a pratos como feijoada, sarapatel e vatapá, entre outros.

 

“Mas os grãos de soja também são ‘feijões’! Por que eles não os comem?” Bem, durante os anos de glória da Revolução Verde, o Banco Mundial patrocinou aqui, no Sul do Brasil, muitos projetos para convencer os brasileiros a comerem soja. Mas não foram bem-sucedidos. Afinal, ao contrário da semente da soja, não é tão simples introduzir no Brasil a cultura milenar chinesa de consumo de tofu (‘queijo’ de soja). Somente nos últimos anos é que pratos com soja passaram a ter alguma aceitação, principalmente na classe média e por razões de saúde. O fato de a extraordinária diversidade brasileira incluir muitos japoneses e chineses provavelmente também tem influência nisso.

Please follow and like us: