Congresso da Fetraf com leite e aves

Luc Vankrunkelsven

A cada três anos a Fetraf-Sul/CUT realiza um congresso, preparado intensivamente por meio de ‘mutirões’ e que culmina na eleição de uma nova diretoria. O ‘mutirão’ é uma atividade tradicional na qual muitas pessoas trabalham juntas para alcançar um resultado. Na Fetraf-Sul, é um processo anual. Todas as famílias das comunidades são visitadas e envolvidas na discussão de um tema predeterminado. Neste ano, foi a vez dos temas políticos do congresso vindouro. As propostas que cada família (membro ou não do sindicato local) apresentou foram reunidas e, em seguida, debatidas num encontro municipal. A partir das muitas consultas, o texto final da minuta para o congresso é entregue às pessoas. É um instrumento para dar continuidade à formação e à discussão.

 

[Foto 60]

Congresso com 3000 lideranças rurais de Fetraf-Sul.

 

O modelo Fetraf representa, portanto, um sindicalismo inovador, no qual os próprios agricultores assumem o controle. Juntos, eles abrem a janela para um futuro diferente. Esta ‘inovação’ é revelada nos congressos e no preparo dos mesmos. Nestes congressos, democracia felizmente não é uma palavra vazia. Isto representa um forte contraste com os sindicatos oficiais, que seguem corporativamente a linha traçada pelo governo. Isto interessava especialmente à Ditadura Militar (1964-1985).

A vaca no 80 está com um problema

As propostas de destaque na estratégia para Fetraf são: continuar ampliando o sistema Fetraf (um sindicalismo democrático inovador, tanto no âmbito local e regional quanto no nacional); diversificação, agroecologia e ampliação das alternativas socioeconômicas; continuar fortalecendo a participação de jovens e mulheres; continuar ampliando a formação e a colaboração internacional; valorizar a importância da mística, tanto na própria vida quanto na defesa conjunta de uma realidade diferente para a agricultura.

A título de introdução aos debates do segundo dia, é apresentado o novo filme de Dirk Barrez. ‘A vaca n.o 80 está com um problema. Agricultura familiar versus agroindústria.’ Este filme é o resultado de uma relação de cooperação internacional única entre ONGs européias. Da Bélgica, participaram Vredeseilanden [Ilhas de Paz], Wervel, Oxfam-Solidariteit [Oxfam-Solidariedade] e CSA (Collectif Stratégies Alimentaires [Coletivo de Estratégias Alimentares]). Da França: RAD (Réseau de l’Agriculture Durable [Rede de Agricultura Sustentável]); da Grã-Bretanha: ACORD (Agency for Cooperation and Research in Development [Agência para Cooperação e Pesquisa em Desenvolvimento]); no âmbito europeu: CPE (Confédération Paysanne Européenne [Confederação Européia de Agricultores Familiares]). O ponto forte do filme é que ele não aborda somente o problema internacional; ao longo do mesmo, a solidariedade entre os agricultores do Brasil, Europa e África é claramente demonstrada.

Agora são distribuídos cerca de 200 DVDs em todo Brasil, para os processos de formação locais. Além disso, o filme continua sendo distribuído na Europa, em vários idiomas: inglês, neerlandês, francês, espanhol e português. Em muitas regiões do Brasil, o DVD também é acompanhado da tradução do livro sobre soja publicado por Wervel.

 

[Foto 60bis]

Projeto de gramíneas-trevo, em Francisco Beltrão (PR).

Leite

À tarde, enquanto as três mil lideranças rurais com direito a voto discutem as resoluções, a delegação internacional faz uma visita a diversas propriedades para conhecer algumas unidades produtivas típicas do Paraná: leite, soja, frangos, sistema agroflorestal. Nos intervalos, também se discute a forte ascensão do fenômeno das culturas energéticas, principalmente as oportunidades e riscos que oferecem para os agricultores brasileiros. Nesta crônica, vou discorrer somente sobre ‘leite e aves’. A história do leite se enquadra na categoria ‘alternativas’. A história das aves dificilmente poderia ser chamada de uma alternativa criativa.

Visitamos uma propriedade orgânica que processa leite. Originalmente, era um trabalho conjunto de cinco famílias. Por fim, apenas três continuaram no sistema agroecológico. As outras duas famílias optaram pelo caminho batido anterior. É que a produção de leite no Brasil chegou numa importante encruzilhada. Há 15 anos eram produzidos 14 bilhões de litros de leite. Até pouco tempo atrás havia necessidade de importar muitos dos derivados de leite, o que era feito em grande escala, entre outros, da União Européia. Atualmente, são produzidos 25 bilhões de litros de leite, dos quais seis bilhões no Sul do Brasil. Desde 2004, há tanto exportação (cerca de 2%, mas em ascensão) quanto importação. A Fetraf não tem intenção de – necessariamente – comercializar leite no mercado internacional, pois a tendência nacional é de aumento do consumo. Para muitos, é o único produto que garante uma renda fixa, já que o preço de leite – por enquanto – está bom. Constata-se que, nos últimos anos de estiagem prolongada, um número cada vez maior de agricultores passou a produzir leite. Afinal, no Brasil não há quotas[1].

Tem início um animado debate entre os agricultores presentes, representantes do governo federal e ONGs brasileiras. A questão é: será que o governo vai conseguir reduzir a grande desigualdade de renda no Brasil, de modo que mais pessoas tenham poder aquisitivo para comprar mais leite e derivados? Os programas sociais, como o ‘Fome Zero’, com aquisição direta dos agricultores familiares também podem trazer alívio. Organizar a compra e distribuição dos diversos produtos é de responsabilidade de cada município. Há quatro anos, no Brasil, o consumo médio de leite e derivados era de 130 litros por pessoa/ano. Em 2007, é de 137 litros. A Organização Mundial da Saúde afirma que cada pessoa deveria dispor de 180 litros/ano. Se lembrarmos que o Brasil possui 180 milhões de habitantes, ainda há muitas bocas a alimentar antes de nos preocuparmos com uma avalanche de leite em pó brasileiro no mercado internacional. Em geral, os produtores brasileiros se preocupam mais com o bem-estar animal e alternativas do que os produtores europeus. O tratamento do gado com homeopatia, por exemplo, está aumentando muito (1). A saúde geral dos animais é muito melhor. Eles apresentam, principalmente, pouca mastite, o leite possui um teor de células menor e as vacas são menos atacadas por parasitas. Na Europa, eu ainda não observei muito movimento nesta área de saúde animal. No Brasil, a homeopatia está em sintonia com a revalorização da medicina popular. Ela envolve tanto plantas quanto animais e pessoas. Em 2001, foi realizado um congresso internacional, no qual também estiveram presentes participantes de todas as regiões do Brasil.

 

Trabalho cooperativo

 

Nos últimos anos, a suinocultura está concentrada nas mãos de grandes empresas. Na onda de adesões às grandes empresas, foi ficando cada vez mais difícil para os pequenos agricultores familiares manter sua autonomia na criação de porcos. O mesmo ocorreu com o milho que, em parte, era destinado aos porcos. Gradativamente, a concorrência com as grandes empresas de soja e milho tornou-se loucura. Esta evolução fez com que, nos últimos anos, muitos agricultores partissem para a criação de gado de leite. As grandes empresas de pecuária de leite, com base em silagem e ração, ficaram em dificuldades por causa do dólar elevado. A agricultura familiar viu nisso a oportunidade de aumentar a produção de leite baseada em capim. Para prevenir o que ocorreu na suinocultura, muitos agricultores se organizaram em cooperativas. No Paraná, é a Sisclaf; no Rio Grande do Sul, a Coorlac; em Santa Catarina, a Ascooper. Juntas elas formam o ‘Fórum Sul do Leite’. A Ascooper, de Santa Catarina, congrega 14 cooperativas, com 2748 agricultores associados. Em 2006, eles produziram, juntos, 34 milhões de litros de leite. Por estarem organizados em cooperativas, conseguem negociar um bom preço. Em 2007, a Ascooper organiza a primeira ‘Feira de tecnologias adaptadas para a produção de leite na agricultura familiar’. Nesta feira de intercâmbio é dada, novamente, atenção à homeopatia, produção de leite com base em capim, saúde animal, tecnologias adaptadas, qualidade do leite.

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[1] Nota do tradutor: na União Européia, os países impõem sistemas de quotas de produção de leite aos agricultores, visando conter o excesso de oferta.

Aves

Tanto a região em torno de Francisco Beltrão, no Paraná, quanto de Chapecó, em Santa Catarina, são importantes regiões produtoras de aves. Afora as galinhas caipiras que ainda ciscam em cada propriedade, quase todos os frangos ou perus (e seus criadores) estão contratados por algumas poucas multinacionais. Passamos uma tarde interessante com uma dessas famílias de agricultores. Além de leite e algumas lavouras, eles possuem um enorme galpão com frangos para a Sadia. É ela que encabeça a relação dos grandes integradores. Além dela, temos: Perdigão, Seara (adquirida, em 1998, pela Bunge e revendida, em 2006, para Cargill), Frangosul (adquirida pela francesa Doux), Avipal e Diplomata. Juntas, estas seis empresas controlam 43,85% da produção e 75,89% da exportação.

 

[Foto 60tris]

Perus que não sabem o que é ciscar.

 

Posso continuar citando mais alguns números que ouvi naquela tarde? A partir de 1961, o consumo de carne no mundo cresceu 271%; o de frangos, 805%. Entre 1986 e 2004, o comércio mundial de carne aumentou 241%; para aves, o aumento foi de 550%.

O custo de produção no Brasil é significativamente menor do que na Europa: 0,54 euro por quilo de ‘cortes de frango’, ao invés de 0,76 euro, na Alemanha. Acrescente-se a isso que o frango não-industrializado paga 25% de impostos na fronteira européia, enquanto o frango industrializado paga 8%. Não é difícil adivinhar as conseqüências: os cortes de frango brasileiro, geralmente temperados, fazem fila nas nossas fronteiras. Desde 1996, deparamo-nos com o fenômeno de que o consumidor europeu, bem como o norte-americano, compra principalmente peito de frango. Isto convém à indústria, pois, em 1995, entraram em vigor as novas regras da OMC – também, e principalmente, na África. Desde 1996, grandes regiões da África são inundadas por coxas e sobre-coxas de frango, não só da Europa, mas – principalmente – carne de frango congelada vinda do Brasil, novamente liderada pela campeã Sadia. O representante de Senegal pode atestar quão desastroso isto é para a renda de milhões de famílias africanas. Antigamente, cuidar das galinhas era tarefa principalmente das mulheres e indispensável nos banquetes festivos. Para estas festas, agora, são compradas coxas e sobre-coxas congeladas, enquanto as economias locais desmoronam.

 

Para culminar: somente duas multinacionais são responsáveis pelo fornecimento de 80% dos pintos de um dia e das aves-matrizes para o mundo todo: uma é norte-americana; a segunda opera a partir da Alemanha. Metade do espaço de carga da Lufthansa estaria reservada para pintos de um dia e ovos fertilizados! Do aeroporto em Zaventem (Bélgica) também são despachados milhões de pintos e ovos em direção à África.

 

Prezados amigos de EVA e Gaia (2), como e quando vamos libertar estas galinhas?

E quanto aos agricultores? E os consumidores?

 

Francisco Beltrão, 30 de março de 2007.

 

(1)   BURG, I.C.; MAYER, P.H. (Org.) Manual de alternativas ecológicas para prevenção e controle de pragas e doenças: caldas, biofertilizantes, fitoterapia animal, formicidas e defensivos naturais. 7. ed. Francisco Beltrão: Assesoar/Cooperiguaçu, 1999. 153 p. <http://www.assessoar.org.br>.

(2)   Ethisch Vegetarisch Alternatief (EVA) [Alternativa Ética Vegetariana]: <http://www.vegetarisme.be>; no Brasil: <http://www.vegetarianismo.com.br> (neste site, sob o título ‘soja’ é possível ler, ou fazer o download da íntegra do primeiro livro sobre soja em português; <http://www.svb.org.br>; <http://www.ivu.org>.

Global Action in the Interest of Animals (Gaia) [Ação Global em Defesa dos Animais]: <http://www.gaia.be>.

 

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