Brasil - Europa em fragmentos?

Combate às mudanças climáticas a partir da base

Há dois dias sou hóspede da Rureco. A primeira noite é uma festa que ainda vai ficar muito tempo na memória: um público de cem jovens da universidade de Guarapuava para dialogar sobre ”soja e alternativas”. É a primeira de uma série de apresentações do livro em universidades brasileiras: Guarapuava, Cuiabá, Matinhos, Curitiba, São Paulo, Goiás, Brasília, Rio Pomba, Rio de Janeiro, Porto Alegre.

É notável como um tema brasileiro – soja e alternativas –, apresentado por um estrangeiro, consegue despertar tanto interesse. Enquanto isso, recebo um artigo sobre um agricultor holandês que realiza experimentos com duckweed (espécie vegetal do gênero Spirodela) como alimento para suas vacas. O teor protéico é tão elevado quanto o da soja. É barato e facilmente encontrado em toda a Holanda. Estou curioso para saber qual será o resultado final desse projeto, realizado por agricultores junto com a universidade de Wageningen! 

Recuperação por meio de sistemas agroflorestais 

É óbvio que não visitamos apenas universidades. Com Fetraf e outros movimentos de agricultores, também realizamos muitos lançamentos, debates ou visitas de trabalho.

Hoje, o tema central é o clima e os experimentos interessantes que os agricultores da região de Guarapuava (região central do Paraná) estão realizando, com acompanhamento da Rureco e apoio financeiro da Kerk-in-actie [Igreja em ação], da Holanda. Um projeto de cinco anos, financiado pela organização Trias (da Bélgica), está terminando em 2008. Nesse projeto, o tema central é ”inclusão”, em resposta à exclusão social presente em todas as regiões. 

Nosso primeiro encontro é num sítio de 35 hectares. Três famílias vivem de sua exploração. Augustinho Pereira é nosso anfitrião. Em dez hectares eles cultivam mandioca. Eles processam 2500 quilos por mês para o mercado. Cerca de 20% desse total é proveniente do próprio sítio.

Durante três anos, a família Pereira cultiva adubo verde em suas terras para, em seguida, cultivá-las com culturas comerciais durante dois anos. Em todo canto da propriedade encontram-se experimentos. Há, por exemplo, diversos tipos de adubação verde; a mais impressionante delas é a crotalária. A planta cresce até cerca de dois metros e, à primeira vista, lembra o tremoço. É um ”adubo” interessante porque a mandioca não tolera veneno. Além do nitrogênio grátis, a espécie favorece o desenvolvimento de fungos úteis (veja o Wervelkrant, de março de 2008: “Pleidooi voor meer schimmels [”Em defesa do aumento de fungos”], no âmbito do projeto de sistemas agroflorestais, com a Boerenbond [Federação de Agricultores Belgas] na equipe de coordenação). 

Febre do CO2 

A Rureco instalou diversos experimentos na mata existente no sítio, para medir quanta biomassa pode ser produzida em uma propriedade agrícola familiar. Estão sendo investigadas as possibilidades de aumento na fixação de CO2 por meio de sistemas agroflorestais. O problema é que todo o Protocolo de Kyoto foi ”desenhado” para grandes empresas: estados e grandes empresas do Hemisfério Norte que desejam comprar “ar puro” no Hemisfério Sul. Geralmente, trata-se de grandes extensões de florestas nas quais são contemplados até programas de reflorestamento. Reflorestamento – ou melhor, plantios homogêneos de árvores de eucaliptos ou de pínus. Não se trata de um ecossistema com aumento na interação entre pessoas, árvores, plantas, insetos, répteis e mamíferos. Nenhuma gramínea, nenhum camundongo consegue sobreviver nesses ”desertos verdes de produção de biomassa”.

O problema é que esses desertos só vão aumentar, agora que está chegando o promissor agrocombustível de segunda geração: etanol a partir de eucaliptos geneticamente modificados. As árvores são manipuladas para produzir menos lignina e mais celulose. Provavelmente não é por acaso que, justamente hoje, eu leio n‘O Estado de S. Paulo um artigo sobre aquecimento global. E escrito por ninguém menos do que Carlos Aguiar, diretor-presidente da tão falada multinacional Aracruz Celulose. Ele faz uma defesa ”acalorada” da liberação de ainda mais reflorestamentos de eucalipto no Brasil. Atualmente, existem ”somente” 5,5 milhões de hectares de reflorestamento no Brasil. Eles consomem mais CO2 do que as florestas centenárias. Além disso, os veículos exigem etanol ”limpo”. Ou seja, precisamos reflorestar maciçamente.

Veja até que ponto é possível chegar quando focamos exclusivamente o fetiche do CO2. Ninguém fala da destruição dos ecossistemas, dos agricultores e indígenas expulsos, da seca, da fome. Eu escrevo sobre isso já há oito anos. É só abrir o livro ”Aurora no campo. Soja diferente”. Carlos Aguiar só quer falar de celulose e CO2. É claro que isto é muito mais simples do que tentar entender os frágeis ecossistemas. Imagine se ele, enquanto diretor-presidente, ainda tivesse que se preocupar com as consequências sociais destes milhões de hectares de monocultura. 

Torne-se padrinho de árvores junto com um(a) agricultor(a) 

Rureco e Kerk-in-actie estão, claramente, trilhando outro caminho. Ambos buscam parceiros (empresas? governos?) que não querem somente investir em megaprojetos de sequestro de CO2, mas também apoiar sistemas agroflorestais na agricultura familiar, numa linha semelhante ao projeto ”Arapuca”, em Foz do Iguaçu. O agricultor Weidelich convida os turistas a se tornarem padrinhos de uma espécie nativa que, em seguida, é plantada por agricultores familiares em seus sítios. 

Darci Pereira nos mostra o sítio. Ele aponta as espécies de árvores medicinais, quase extintas, que ele ainda mantém. ”Casca-de-anta” é uma delas. De todos os cantos vêm pessoas buscar estacas para reintroduzir a espécie, ainda que seja uma espécie nativa da região, como muitas outras. Ele também cultiva a ”goiaba serrana”. Pergunto, com espanto: “Mas ela cresce aqui? Aqui não ocorrem geadas?“ “Sim, é justamente por isso que devemos plantá-la novamente. Esta espécie suporta as geadas, pois é nativa da região.” E assim as surpresas se sucedem. Nós estamos numa propriedade de referência na região, na qual muitos agricultores vêm buscar ideias.

O objetivo é aumentar a diversidade nos sítios, incrementar a renda com diversas espécies de frutos em cultivos mistos e contribuir no combate ao aquecimento da Terra. O considerável aumento na biomassa da propriedade é o principal meio para isso. Ainda vai demorar para termos uma propriedade de referência como essa na Bélgica. 

Lavouras mistas 

A família Pereira até cultiva um pouco de soja. Não, não é para ração animal, e sim para produzir sementes e para consumo humano. Aliás, ele produz sementes de muitas espécies. Algumas áreas experimentais do sítio foram implantadas a partir da idéia de que lavouras mistas serão o futuro do sítio sustentável. É claro que se trata de culturas diferentes daquelas que conhecemos na Europa Ocidental, mas é uma fonte de inspiração extraordinária para fazermos nosso dever de casa. É por isso que a viagem organizada por Wervel este ano não terá como destino o Brasil, mas sim a vizinha Alemanha, onde as lavouras mistas já são bastante comuns. 

Não, nosso objetivo não deve ser copiar os brasileiros, mas o caminho por eles trilhado para recuperar a diversidade também pode gerar novas ideias para nosso clima temperado.

Viagem de Wervel 2008: evoluções sensacionais na agricultura alemã!

 

De 10 a 14 de julho, Wervel viajará para o sul da Alemanha. Nós vamos procurar pioneiros na agricultura. Pioneiros que estão revolucionando nosso pensamento agrícola atual, a começar pelas culturas. 

Nossa expedição nos levará por Schwanau (entre o rio Reno e a Floresta Negra), por Dürneck e Pfaffenhofen (próximos a Munique), até Straubing, às margens do rio Danúbio. 

Na propriedade biodinâmica do agricultor Wenz (Schwanau), poderemos observar as lavouras mistas de camelina (gênero da família Brassicaceae) com trigo ou com feijões de inverno, e também o plantio direto de trigo vermelho nas lavouras de trevo ou milho, ou rabanete com feijões de inverno. E por que fazer tudo isso? É que ao trabalhar sem revolver o solo, e com as lavouras mistas e o plantio direto, são necessários somente 4 horas de trabalho e 50 litros de óleo diesel por hectare!  

Em Kramerbräu ocorre o mesmo, só que em escala maior. Cevada e linho são semeadas em lavouras mistas e separadas após a colheita. O sistema de produção é, parcialmente, orgânico. 

Josef Braun também é um ecoagricultor que trabalha "sem arado" (plantio direto) e com "‘lavouras mistas bem diversificadas". Ele é conhecido pela quantidade elevada de minhocas em suas lavouras e… em 2008 ele vai plantar árvores nas lavouras. 

A cereja do bolo será  a visita ao Centro de Tecnologia e Extensão, em Straubing, às margens do Danúbio. Neste ano estão sendo realizados experimentos com uma lavoura mista muito especial: milho – amaranto – girassol, em sucessão. Isso quer dizer que somente vamos poder observar a germinação da lavoura mista, mas a viagem de 2006 nos mostrou que isso também pode ser interessante. 

Aspectos práticos: 

Data: 10-14 de julho de 2008.

Programa e preço: a definir. 

Está  interessado? Envie um e-mail para <patrick@wervel.be> e você receberá mais informações assim que estiverem disponíveis.

 
 

Cinco hectares para oito pessoas

 

À tarde visitamos um sítio menor, porém o projeto agroflorestal já está em pleno desenvolvimento. Com o incentivo do Ministério do Meio Ambiente, foi implantada, há cinco anos, uma série de projetos junto aos agricultores. Aqui, em Nova Laranjeiras, trata-se de três sítios.

Somos hóspedes de Augustinho da Silva e Inês Nestor da Silva. O nome da propriedade é ”São Agustinho”.

É impressionante ver como essas pessoas conseguiram transformar um pedaço de terra esgotada em um sítio rico em húmus. Eles mostram as fotos do sítio há cinco anos, para evidenciar o contraste. As árvores já estão bem altas, imponentes e cheias de frutos. Nunca observei uma lavoura de arroz tão saudável e produtiva. É interessante o uso das palavras. Há cinco anos, a propriedade era considerada “limpa”. Agora, há fartura de culturas e uma produção multicolorida. Entretanto, muitos ainda têm como ideal “cortar e limpar tudo”.

 

A família possui sete vacas, mas num sistema de rotação de pastagens – sob as árvores de eucalipto, com gramíneas e mucuna – eles obtêm 50 litros de leite por dia em 2,6 hectares. Isso é fenomenal, se você pensar que a maioria dos fazendeiros no Brasil mantém uma vaca por hectare. Aqui eles mantêm sete vacas em 2,6 ha. Esse leite lhes garante uma renda mensal. Os muitos outros produtos do sítio são destinados, principalmente, para o consumo da própria família, mas muitas outras pessoas vêm comprar os produtos saudáveis no sítio.

 

E os eucaliptos? Bem, esses não estão muito próximos uns dos outros e foram plantados numa encosta. Assim esses grandes consumidores de água não são uma ameaça ao balanço hídrico e para as outras culturas. É claro que eu preferia ter visto, por exemplo, bracatingas, mas os recursos públicos destinados a subsídios ainda não chegaram lá. Quando se pensa em reflorestamento, é sempre em termos de ”eucaliptos” e “pínus”. Parece um pouco com o Canadá e nossos plantios de abetos. Mas, assim como na Bélgica os agricultores lidam de maneira criativa com essas imposições, do mesmo modo, no Brasil, eles plantam pasto sob os eucaliptos.

 

Está claro que “São Augustinho” não é um sítio à moda antiga. Pelo contrário: essas pessoas demonstram que, num país onde alguns latifundiários possuem até 600 mil hectares, é possível ter uma vida decente com cinco hectares paradisíacos. Carne, leite, arroz, mandioca, mamão, frutas diversas e lenha são a sua parte.

 

Luc Vankrunkelsven,

Guarapuava, 26 de fevereiro de 2008.

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