Chrissie Hynde – Do lado dos bichos

A líder dos Pretenders defende os animais com unhas e dentes
 
Marcia Bindo | fotos Divulgação
Vida Simples

A norte-americana Chrissie Hynde tornou-se mundialmente conhecida como autora, vocalista, guitarrista e líder da banda de rock britânica Pretenders, uma das principais dos anos 80 e mesmo de toda a história do rock – nesse universo tem lugar pra todo mundo, até para os que merecem. Mas agora ela também é famosa por lutar em defesa dos direitos dos animais e do vegetarianismo.

 Chrissie Hynde

Com 25 anos de estrada e dez álbuns, Chrissie acredita que o rock'n'roll pode fazer muito mais do que apenas alimentar a bilionária indústria do entretenimento. Ela é militante, filiada ao Peta (Pessoas pela Ética no Tratamento de Animais), respeitada organização internacional, e não perde uma oportunidade de colocar a roqueira a serviço da outra. "Sempre dou um jeito de espalhar meus ideais nos países onde faço shows", diz ela.

Foi assim no Brasil. Chrissie esteve em São Paulo e Brasília no final de setembro, reuniu-se com membros da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), representantes do movimento Hare Krishna e até os mais comuns simpatizantes da causa. Irreverente, espontânea e, sob todos os aspectos, aparentando ter bem menos que 52 anos, Chrissie cantou mantras, mostrou faixas em favor do vegetarianismo e falou duro contra o sofrimento dos animais. "Minha missão aqui na Terra é, antes de tudo, promover o vegetarianismo como saída para a salvação da economia e da saúde." Entre uma e outra dessas conferências instantâneas, claro, fez mais uns shows para entrar na história. E conversou com a gente.

Quando você virou vegetariana?
Optei pelo vegetarianismo em 1969, quando tinha 17 anos. E quer saber de uma coisa? Foi a decisão mais sábia que já tomei em toda minha vida. Devo a essa decisão todas as coisas boas que aconteceram comigo. Sou uma pessoa mais consciente e saudável, ganhei muito mais energia. Além do mais, posso dizer que sou uma cinqüentona com o corpinho em cima.
 
Que outros motivos você citaria?
Quando nos tornamos vegetarianos, estamos mudando a forma como nos relacionamos com os outros seres. Algumas pessoas são contra a matança de animais, outras acreditam que o alimento é grosseiro, existem ainda motivos filosóficos e religiosos. Eu acredito que o espírito de Deus está em cada coisa viva – nas árvores, nos animais, na natureza. Estou sempre do lado dos bichos. Sabe por quê? O homem será sempre um cretino quando tiver dinheiro envolvido. E uma coisa é certa: se todo mundo fosse vegetariano, resolveríamos os problemas do mundo, pois mudaríamos a economia para melhor.
 
Como assim?
Pagamos um preço alto sofrendo de doenças ligadas ao consumo de produtos animais, como alergias, problemas cardiovasculares e obesidade. Rios de dinheiro e energia são gastos com isso, e poderiam ser direcionados para questões sociais. Além do mais, a natureza é destruída para que surjam pastos para o gado. Quando consumimos na escala da cadeia alimentar mais baixa – os vegetais – reduzimos muito o consumo de recursos naturais e, conseqüentemente, favorecemos uma economia mais digna.
 
Você leva isso bem a sério, não?
Sim, fiquei sócia da organização Peta há 15 anos. Começou quando um dos integrantes se infiltrou numa coletiva dos Pretenders e se passou por repórter. Quando nós estávamos a sós, ele me disse quem era e quais eram os ideais da organização. Fiquei tão comovida com a proposta, que aceitei participar. Eu disse: "Me use do jeito que você quiser. E mesmo após minha morte usem minha imagem para defender os animais". Eu coloquei isso no meu testamento, pode crer!
 
Então, como eles usam você?
Hoje, me dedico quase inteiramente à organização. Não interessa se quem maltrata os bichos são os frigoríficos, o circo ou grandes corporações: meu negócio é defender os animais. Gosto do ativismo. Acho divertido ver empresas que não são éticas terem de se ajoelhar e se desculpar perante a população, pelos crimes hediondos cometidos contra outros seres vivos. Se não pudesse me dedicar aos meus ideais, teria abandonado a música há muito tempo. Digo isso porque nunca fiquei confortável com essa história de fama.
 
Qual foi a sua maior briga?
A GAP [confecção norte-americana] comprava couro no mercado negro da Índia e da China – o comércio de couro nesses países é proibido. Na Índia, por exemplo, eles compravam a preços muito baixos, pois se tratava de um produto ilegal. Eu infernizei tanto a vida deles, que pararam com isso. Quer saber mais detalhes? Na Índia, é proibido transportar gado [são animais sagrados na tradição hindu]. Então eles transportavam durante a noite, para que nenhuma autoridade os parasse. Pela manhã, faziam o gado caminhar o dia inteiro, para que morressem de fome e de cansaço. Eis a origem do couro da GAP.
 
Você abraça outras causas?
Diamantes. Eu tenho uma briga histórica com a De Beer Diamonds, empresa alemã que tem artistas famosos como garotos-propaganda. Nenhum deles tem idéia de que a empresa explora a população e usa métodos sangrentos para obter sua matéria-prima. E quem precisa de diamantes, afinal? Não passa de uma porcaria de uma pedra!
 
Por que você não canta essas coisas em suas músicas?
É, a relação aí é meio abstrata, pois não escrevo necessariamente sobre minha militância. Mas acabo chamando atenção da mídia e do público com o que falo e penso. Na verdade, o universo musical é limitado, são algumas notas e o que você pode fazer é reorganizar de forma diferente. Então, o que conta é o entusiasmo, a criatividade para tocar.
 
O que é realmente importante?
Não dá para mudar o mundo sem filosofia e ética. O que devemos admirar nas pessoas é a compaixão, a humildade e sua aptidão em se interessar por questões humanas. O que vemos por aí é que muitas bandas de rock não mudam o mundo, são apenas entretenimento. Na maioria das vezes a apologia está nas drogas, no consumo, na transa – esses tipos medíocres de mensagem.
 
O que você acha do pessoal que pega música de graça na internet?
Veja, a indústria fonográfica às vezes investe em perfeitos idiotas, promovendo músicos ruins. Também inflaciona o mercado de CDs, que são caros. Então, dou a maior força pro pessoal que baixa música, apesar de eu também ser contra tantos apetrechos tecnológicos.
 
Por quê?
Olha minha situação: tenho 52 anos e nem sei mexer no computador! Conheci pessoas que tiveram surtos psicóticos por levar uma vida tentando acompanhar o volume de informações que temos hoje. Até cheguei a navegar na internet para procurar um namorado, e mesmo assim não foi uma ferramenta útil: não consegui nada interessante.
 
E no Brasil, só alegrias?

Estou bem feliz por visitar o Brasil de novo. Mas queria deixar um recado: não consigo entender a tal da farra do boi. Tudo bem, muitas vezes a violência contra os animais tem a ver com aspectos culturais, mas estou levantando a bola aqui, para vocês, brasileiros, refletirem sobre isso, que algumas pessoas chamam de diversão.

Para saber mais

PETA www.peta.org

Sociedade Vegetariana Brasileira www.svb.org.br

novembro de 2003
 
Fonte: Vida Simples  
 
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