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Chrissie Hynde diz que música brasileira lhe deu novo ânimo para fazer shows

20/07/2004 – 20h46

ANTONIO FARINACI
Editor de Música

"Soy paulistana", brinca Chrissie Hynde, assim mesmo, em portunhol, ao explicar seu amor por São Paulo, cidade pela qual diz ter-se apaixonado da última vez que visitou, em setembro de 2003, e onde mantém um apartamento para passar temporadas. A pouco mais de um mês de iniciar uma turnê no Brasil, acompanhada por Moreno Veloso e banda, Hynde deu uma entrevista exclusiva para a TV UOL, diretamente de Londres, em que fala sobre sua recém-descoberta paixão pela música brasileira e das apresentações que fará no país.

Aos 53 anos, uma das roqueiras mais respeitadas de sua geração (Hynde foi uma das fundadoras dos Pretenders, banda de rock seminal dos anos 80), a cantora norte-americana revelou seu fastio com a produção musical "ocidental" de hoje e disse que encontrou na música brasileira um novo ânimo para fazer shows.

 Chrissie Hynde

"As letras do rock falam sempre de uma cultura muito degradada. Estou cansada de tudo ser sempre degradado, todo mundo estar sempre detonado… Isso é muito chato!", declarou Hynde. Para ela, na música brasileira as letras são "muito mais poéticas e interessantes".

E a cantora não poupa elogios a essa sua recente descoberta: "A questão não é tanto o ritmo, mas o fato de que cada nota é levada em conta", diz. Sobre Moreno Veloso, que a acompanhará nos shows, Hynde é categórica: "Esse cara é um gênio. O disco dele (com Moreno + 2) é um de meus favoritos nos último cinco anos".

Ativista dos direitos animais e vegetariana desde os 17 anos, Hynde declarou ainda que pretende promover a causa da proteção ao gado no país e promover ações junto ao Greenpeace: "Eu sou uma hippie!"

A cantora Chrissie Hynde se apresenta no Brasil a partir do dia 28 de outubro.

A entrevista foi concedida por telefone e foi registrada por duas câmeras do UOL, simultaneamente: uma nos estúdios, em São Paulo, outra no escritório da assessoria de imprensa da cantora, no Centro de Londres.

Leia abaixo a transcrição traduzida da entrevista e assista à íntegra em vídeo:

Esta é sua quarta vinda ao Brasil. O que você fará aqui desta vez?
Da última vez que eu fui ao Brasil (em setembro de 2003), eu me apaixonei pelo país, especialmente por São Paulo. Eu andei pelo Centro da cidade, ali pela avenida São Luís, pelo Edifício Itália, e pensei: "quero estar aqui". Eu apontei um edifício e pedi pra entrar e ver um apartamento, que, por coincidência, era de uma das produtoras (Fabiana Lian) do show que eu estava fazendo. Daí, ela me alugou o apartamento dela e ainda me ofereceu uma série de shows acústicos para fazer.

O que levou você a vir fazer uma turnê no Brasil, com músicos brasileiros?
Eu adoro fazer turnês, mas eu perdi muito do meu entusiasmo. Pra ser sincera, a cena musical ocidental me deixa um pouco enfastiada. Não há nada que me deixe muito animada. Mas eu fiquei animada (com a música) no Brasil.

Como você conheceu o Moreno Veloso?
Eu assisti ao show do Caetano Veloso (no Bar Baretto), para divulgação do disco "A Foreign Sound", e havia um rapaz tocando violoncelo com ele (Moreno Veloso, filho de Caetano). Eu achei a perfomance dele fantástica e pedi para que a produtora descobrisse quem era, pois eu adoraria que os shows acústicos tivessem instrumentos de corda. Logo em seguida, eu ouvi o disco dele, do grupo Moreno + 2 ("Máquina de Escrever Música") e fiquei meio com vergonha, porque achei que o cara era um gênio, eu amo o disco deles. Esse disco e dos Kings of Leon são os meus favoritos nos últimos cinco anos.

Depois, eu encontrei (os integrantes do Moreno + 2) Domenico e o Moreno. Só não conheci o Kassin ainda… Mas, por algum motivo bizarro e inexplicável, eles concordaram em tocar comigo. Eu estou indo no mês que vem (agosto), e ensaiaremos alguns dias. Eu não sei se eu vou me sair bem, mas sei que eles vão.

Você pretende ter algum outro convidado nos shows?
Eu conheci uma moça no Rio, a Adriana Calcanhotto. Eu a vi cantar e tocar violão e achei hipnotizante. Eu fiquei muito impressionada com a música aí.

Você pretende gravar com algum dos artistas que vão tocar com você no Brasil?
Não está nada planejado, mas se alguém gravar, por mim está ótimo. Eu admiro essas pessoas e estou felicíssima de eles terem topado trabalhar comigo. Espero que dê tudo certo e que eu não os decepcione. A gente tem uns truques escondidos na manga, e também estou levando o meu guitarrista, o Adam Seymour (também dos Pretenders).

Você já tinha tido algum contato com a música brasileira, anteriormente?
Não especialmente. Sabe, eu sou essa pessoa do rock, e sinto que fui muito restringida por isso. Quer dizer, eu gosto de música clássica e jazz, mas eu não tive muito contato com a música brasileira. Mas agora, que eu ouvi o que ouvi, eu vejo que a questão não é tanto o ritmo, o samba, mas o fato de que cada nota é levada em conta. Quando leio a tradução das letras, vejo que elas são muito mais poéticas e interessantes. As letras do rock falam sempre de uma cultura muito degradada. E eu estou cansada de tudo ser sempre degradado, todo mundo estar sempre chapado, tudo é deprimente, as pessoas falam das drogas que usam… Isso é muito chato! Não é o tipo de coisa que se quer ouvir numa música.

E quando você chega no Brasil?
O mais rápido que eu puder, no mês de agosto. Eu aluguei esse apartamento maravilhoso no Centro de São Paulo e quero ficar um pouco aí.

Você vai participar de alguma demonstração pelos direitos animais?
Eu vou me encontrar com o Greenpeace novamente e tentar promover alguma movimentação por aí. Eu vou falar com eles sobre proteção ao gado. Vou tentar dar um jeitinho de promover essa causa, aí. Sabe, eu sou uma hippie! Eu quero fazer um movimento!

Em janeiro deste ano, você declarou ao tablóide inglês The Evening Standard que estava procurando um "homem amável" no Brasil. Você já o encontrou?
Não! Eu nem me lembro de ter dito isso. Eu já me dou por satisfeita de fazer um pouco de música e cuidar de coisas mais importantes. Eu já tive todos os homens de que eu precisava.

Fonte: http://musica.uol.com.br/ultnot/2004/07/20/ult89u5092.jhtm

 

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