Carne diferente?

Este livro não advoga que nós todos passemos a consumir somente soja. Mas queremos, sim, chamar a atenção para o problema de que a população mundial dobrou nos últimos 50 anos, enquanto o consumo de carne e peixe quintuplicou. A produção de ração animal e a conseqüente ocupação de terra, consumo de água, poluição do ar e o aquecimento global aumentaram assustadoramente. Se quisermos enfrentar uma série de problemas em nossa comunidade mundial, vamos chegar no nosso consumo elevado de proteínas de origem animal: carne, laticínios, ovos e peixes. Reduzir o consumo de carne é um largo caminho aberto diante de cada cidadão mundial. O caminho estreito do vegetarianismo, por enquanto, é um caminho trilhado por uma pequena minoria, que merece nossa atenção e respeito. O movimento cresce fortemente, tanto no Brasil quanto na Europa. Na busca por alternativas para o consumo de carne, a soja pode ser um elemento importante. Não é obrigatório, mas é possível. Vamos deixar que haja diversidade nas opções também. Não precisamos nos tornar todos chineses ou indonésios, mas podemos ouvir o que eles têm a ensinar. Pessoas como Noemi Weiss, de Foz do Iguaçu, também podem nos inspirar. Enquanto nutricionista, ela é responsável pelas refeições de 40 mil crianças das escolas e creches da cidade. Considerando-se que é na Região Sul do Brasil, ela percorre um caminho muito incomum de ‘redução de carne’. Já que a região está cercada de plantações de soja, ela e sua equipe trilham o caminho de produtos substitutivos com base em soja (iogurte, espaguete, leite, pão), destacando-se que não é utilizada a soja Roundup Ready, pois essa soja contém cem vezes mais resíduo de Roundup do que na soja convencional (4).

 

Se dermos um lugar diferente à soja em nossa alimentação, ela também pode ocupar um lugar diferente nas lavouras, beneficiando uma agricultura que é justa em relação aos agricultores e agricultoras que a cultivam e exportam, e em relação aos criadores de animais na Europa, que a substituem por fontes de proteínas da própria região. E beneficiando uma agricultura que é responsável em relação ao meio ambiente e o clima.

 

Paz no campo. Paz em ambos os lados do oceano.

É por isso que este livro é publicado, simultaneamente, em holandês e em português. Ele pretende ser uma modesta contribuição para o movimento internacional em prol da tão necessária recampesinização.

 

Luc Vankrunkelsven,

Belém, 22 de maio de 2007.

Dia Internacional da Biodiversidade.

 

(1)      Henri Mendras, La fin des Paysans [O fim dos camponeses], Actes Sud, Aix en Provence, 1967. Paris: Ed. Babel, 1992.

(2)      Esta profecia está, agora, se cumprindo. Lutzenberger escreveu seu texto em 1997. Em 2001, a China ingressou na Organização Mundial do Comércio (OMC) e começou a aumentar o fluxo de soja do Brasil e outros países em direção aos cochos dos animais. Nos últimos 20 anos, o consumo de carne aumentou de 15 quilos de carne/pessoa.ano para 38 quilos/pessoa.ano naquele país. Realmente um colapso.

(3)      Sergio Schneider (Org.). A Diversidade da Agricultura Familiar. Porto Alegre: UFRGS-Editora, 2006.

(4)      Sebastião Pinheiro escreve sobre o perigo do leite de soja para crianças, quando se trata de soja transgênica. Em seu livro ele disseca com precisão o poder de Monsanto, Cargill, Bunge, Nestlé e companhia: ‘A Máfia dos alimentos no Brasil’, Porto Alegre, 2005.

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