Carne bovina

A região amazônica foi a que apresentou maior aumento nas exportações de carne de gado. Esta imensa ‘terra de ninguém’ onde, ao que parece, é possível desmatar, assassinar e queimar anonimamente. A região onde Dorothy Stang – e, com ela, tantos outros – perderam a vida. Ainda em 1991, na Amazônia, não havia gado suficiente nem para alimentar a população local. Com a expansão da criação de gado na região, o Brasil aumentou suas exportações de carne de 500 milhões de dólares (em 1995) para 1,5 bilhões (em 2003). Cerca de 80% deste aumento tem origem na região amazônica. Sem querer ser moralista, posso afirmar com tranqüilidade que comer carne de gado brasileiro numa lanchonete de uma rede norte-americana é um ato político distinto do que, por exemplo, há 20 anos. Alguns anos depois, a soja sucede o gado e os grandes pecuaristas são ‘obrigados’ a continuar a queimada da floresta.

Em outras regiões, também ‘vale a pena’. O nível de água do Pantanal – a maior reserva de aves do mundo, com uma superfície equivalente à de Portugal – está baixando a olhos vistos por causa da expansão da cultura da soja. Além disso, nessa região, tanto a população mais pobre quanto os fazendeiros trabalham juntos num desmatamento alarmante. Os mais pobres desmatam e produzem carvão; os pecuaristas querem mais pasto, pois o preço da carne está muito interessante. Cerca de 18% da vegetação original já se foi e as previsões são de que, nos próximos anos, o ritmo será ainda mais acelerado. Estima-se que no estado do Mato Grosso do Sul existam cinco mil carvoarias que desmatam ilegalmente para produzir carvão. “No entanto, as únicas coisas que tenho são a camisa e a calça no corpo”, diz José Xavier de Andrade, 54 anos. É óbvio que os mais pobres estão sendo usados para fazer o trabalho sujo, para permitir que a carne fique à vontade. Um pobre é obrigado a atirar no outro pobre. Pistoleiros, carvoeiros (2) e agricultores sem terra lutam entre si, mas têm uma coisa em comum: eles estão desesperados e são pobres.

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