Canibalismo resiste ao passar de séculos e culturas

BBC Brasil 30 de janeiro, 2004

 
Ilustração de canibalismo
Canibalismo serviu de argumento para macular religiões e culturas
 

O canibal alemão Armin Meiwes, condenado a oito anos e meio de prisão nesta sexta-feira, dificilmente será o último a experimentar o sabor da carne humana.

A existência do canibalismo gerou discussões no mundo da antropologia durante anos. Hoje, acredita-se que a prática tenha resistido ao passar dos séculos e culturas, apesar de não se saber ao certo até que ponto o canibalismo seja praticado.

O caso de Armin Meiwes gerou um estado de desconforto e repugnância generalizada. O alemão confessou ter matado e comido a carne de um homem que conheceu por meio de um anúncio na internet em que dizia querer conhecer alguém para ser assassinado e comido.

Na sociedade contemporânea, casos chamados de "canibalismo de sobrevivência" – quando comer a carne de outras pessoas torna-se absoluta necessidade nutricional – são vistos com complacência. No entanto, o desconforto ainda é grande em relação ao consumo ritualístico da carne humana, mesmo se o ato ocorrer de forma consensual.

Registros históricos

O termo canibalismo vem do nome de uma tribo caribenha, inicialmente descoberta por Cristóvão Colombo. Acredita-se que os integrantes da tribo comiam a carne uns dos outros.

Os primeiros registros de canibalismo feitos por colonizadores europeus foram encarados com suspeita, já que muitos pensavam que isso poderia ser uma forma de exemplificar a necessidade de civilizar os povos das terras distantes.

O canibalismo foi utilizado inúmeras vezes como argumento para macular outras religiões ou culturas: nos tempos medievais, os cristãos normalmente representavam os judeus como um povo que bebia o sangue de crianças cristãs.

Armin Meiwes
Meiwes diz que sua vítima concordou com ato de canibalismo
 

Na América pré-Colombo, acredita-se que os Astecas praticavam o canibalismo em grande escala, como parte de sacrifícios religiosos. Eles comiam os prisioneiros de guerra e outras vítimas, numa prática conhecida como exocanibalismo ou exofagia – ou seja, canibalismo praticado em indivíduos de tribos estranhas.

No começo deste ano, as Nações Unidas acusaram rebeldes da República Democrática do Congo de comer a carne dos inimigos, além de forçar as famílias das vítimas a comer os órgãos dos parentes.

Já na Austrália, a crença é de que os aborígenes pratiquem uma forma mais amena do canibalismo – o endocanibalismo, ou seja, o consumo da carne de amigos e parentes depois que eles morrem.

Neste caso, o corpo do morto é comido pelos parentes, como parte de um ritual, através do qual acredita-se que o espírito do ente querido continuará a viver.

Fome

A história também é generosa em exemplos de canibalismo durante períodos de fome ou de racionamentos severos.

O canibalismo de sobrevivência foi abordado no filme Vivos (1992), baseado na história verídica da queda de um avião na Cordilheira dos Andes, quando os integrantes de uma equipe de rugby uruguaia comeram os corpos dos companheiros mortos para permanecer vivos até um possível resgate.

No meio do caminho entre o ritual e a sobrevivência está o caso da tribo Fore, em Papua Nova Guiné, ao norte da Austrália. Lá, o canibalismo foi praticado desde finais do século 19 até a década de 1950.

Os homens da tribo Fore incluíam carne de pequenos animais abatidos em suas dietas de feijão e batata-doce, enquanto as mulheres e crianças tinham uma grande deficiência de proteína.

Para compensar a deficiência, as mulheres passaram a realizar um ritual onde comiam o cérebro de outros membros da tribo que tinha falecido.

Contexto sexual

Em muitos países, o consumo de carne humana não é considerado um crime.

Os acusados são normalmente julgados por outras contravenções que tenham acompanhado o ato: o alemão Armin Meiwes, por exemplo, não foi acusado de canibalismo, mas sim de assassinato por "satisfação sexual".

No passado, muitos casos famosos de canibalismo também foram ligados a um contexto sexual.

Nos Estados Unidos, na década de 20, Albert Fish estuprou, matou e devorou várias crianças, afirmando ter um grande prazer sexual resultante de seus atos. Fish ficou conhecido na época como o "Bicho Papão da América".

O russo Andrei Chikatilo, que matou pelo menos 53 pessoas entre 1978 e 1990, também era praticante do canibalismo com conotações sexuais.

Mas o que diferencia Armin Meiwes dos outros é a natureza consensual do caso. Meiwes conheceu o homem que assassinou e comeu – Bernd-Jurgen Brandes, de 43 anos – em 2001, depois de ter colocado um anúncio em sites da internet procurando "jovens corpulentos, entre 18 e 30 anos, para serem abatidos".

Meiwes contou à polícia que Brandes concordou que partes de seu corpo fossem cortadas e cozidas. Depois de terem comido juntos, Brandes concordou em ser morto.

No entanto, nem mesmo a aparente natureza consensual do ato consegue acalmar os ânimos da sociedade alemã, já que o consumo de carne humana continua a ser um tabu na sociedade contemporânea.

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