Aurora no Campo - Soja Diferente

Cães e templos bancários

Luc Vankrunkelsven

A elasticidade acabou. O mercado de alimentos está diminuindo, mesmo que o número de famintos no mundo esteja aumentando anualmente com alguns milhões de pessoas. Infelizmente nem todos têm poder aquisitivo. Pelo jeito, alimento continua não sendo um direito básico, mas pode ser adquirido se você possui dinheiro. As multinacionais de alimentos sabem disso muito bem. E agora que a intensa concorrência da assim chamada energia ‘verde’ está chegando, todas as barreiras foram retiradas. As matérias-primas para a indústria de alimentos tornaram-se mais caras nos últimos meses, porque – após a ‘bio’indústria [termo usado para designar a criação intensiva de animais, à base de ração] – a ‘bio’energia está cobiçando os mesmos grãos. Unilever já havia prevenido para este fenômeno. Os alimentos se tornarão mais caros porque o preço das matérias-primas – com as quais eles já ganham rios de ouro há décadas – aumentou. De fato, no México, já houve uma grande manifestação contra a onda de produzir etanol a partir do milho nos Estados Unidos. Primeiramente, as fronteiras do México tiveram que ser abertas para o milho norte-americano. Muitos agricultores mexicanos faliram, porque não conseguiam concorrer com o milho barato (demais) dos EUA. Agora que eles ficaram parcialmente dependentes das importações de milho, o preço sobe. Por causa da opção pelo dinheiro, pelos motores. O preço das tortillas está subindo de maneira alarmante.

 

Já há alguns anos que a ‘ameaçada’ indústria de alimentos está se desviando para o lucrativo negócio das rações para cães e gatos. Internacionalmente elas travam uma batalha de vida ou morte para se apoderar dos melhores nacos das vasilhas para alimentar cachorros. Nem Mars, a gigante na produção de doces e chocolates, se furta a esta batalha. Quando se entra no supermercado, logo à primeira vista percebe-se do que se trata: as prateleiras com ração para cães e gatos são muito mais compridas do que as com pasta de dente, ainda que este último departamento também esteja muito bem abastecido…

Os pobres e os sem-teto, freqüentemente, têm cães. Eles não se alimentam de rações granuladas caras em vasilhas reluzentes. Os animais vasculham as ruas e praças, em busca de comida entre o lixo. Como seus donos. Será eles ganham os impressionantes nacos de carne que o brasileiro de classe média deixa para trás em sua ida diária a um restaurante? Sim, porque é grande a quantidade de carne e outros bons alimentos que vai parar no lixo!

O homem-cão

Estes pensamentos perturbadores ocupam minha mente, enquanto caminho pelo coração do comércio de São Paulo. Procuro livrarias que queiram vender o livro sobre soja. Visito alguns shoppings, até mesmo um chamado Frei Caneca. É verdade, até os freis são utilizados no Big Business. Business [negócios] são a verdadeira religião dominante, não importa quão eclesiástico-religioso este país possa parecer à primeira vista.

De repente surge à minha frente um enorme saco, carregado por um sem-teto. Todos os seus pertences estão ali dentro. Os dizeres no saco indicam: ração para cães. Será que este homem algum dia teve que comer isso? Ou será que ele simplesmente achou o saco numa lixeira de gente abastada?

 

A aparência concreta deste homem-cão não me deixa. Enquanto caminhando pela luxuosa Avenida Paulista me deparo com um canteiro gramado. É cuidadosamente mantido. Grama com palmeiras e algumas outras árvores num deserto de pedra com 18 milhões de habitantes. Há uma placa ‑ ‘Condomínio Cetenco Plaza – Torre Norte’ ‑ com um pedido: ‘Conserve esta área’. A torre ainda ostenta: ‘Tribunal Regional Federal’. Alguém colocou um grande ponto de interrogação junto à palavra ‘conserve’. Será que eu também posso colocar pontos de interrogação junto ao que absorvo nesta avenida de bancos e shopping centers?

Na grama inglesa foi colocada mais uma placa: “Favor não pisar na grama. Proibida a entrada de cães. Jardim tratado com produto tóxico.”

Exatamente neste momento passa por mim o saco carregado pelo homem. Procuro seus olhos. Ele não pode fazer aqui suas necessidades. Além da sujeira, é perigoso; produtos tóxicos fazem mal à saúde. Isto me faz lembrar da Igreja Goede Bijstand [Perpétuo Socorro], em Bruxelas. Ela fica aberta o dia inteiro. O excelente banheiro fica aberto, especialmente para os sem-teto. Com ou sem cão. Perpétuo Socorro como Perpétua Descarga. Quando não é possível recorrer a um matinho ou à estação rodoviária, você – enquanto sem-teto – não tem para onde ir. Uma igreja pode proporcionar descarga.

Templo bancário Personnalité

Não paro de me surpreender. Ainda me recuperando da grama tóxica, vejo uma mulher tirando fotos furiosamente. De um templo, um templo bancário. E ali adiante, mais uma pessoa e mais outra. Todos os celulares em ação para fotografar um templo bizarro, coberto de neve e gelo. No terraço do templo, um grupo de moças – como jovens sacerdotisas, em longas vestes – lêem sua mensagem de ano novo. Ou seria uma mensagem de natal?

Vou verificar. Faz 28oC, mas cruzo com um Papai Noel e um boneco de neve. Ao transcrever a mensagem de paz, quase tenho uma insolação:

 

“Mensagem de Natal

Me dê [sic] a sua mão e juntos vamos desejar o mundo de Paz, Harmonia e Amor.

Bote fé pro desejo [sic] se realizar na América, Europa, África, Ásia, China e Japão.

Somos iguais, direitos iguais.

Temos o mesmo coração.

Desejo de criança é como estrela lá no céu.

Brilha forte.

Na noite de natal é nosso direito ser feliz aonde [sic] for.

Toda criança merece um mundo só de Paz e Amor.”

 

[Foto 52]

Crianças vestidas de sacerdotisas cantam a mensagem de natal.

 

Um segurança vem verificar porque me demoro tanto perto das sacerdotisas.

Ele é segurança do templo ‘Itaú Personnalité’.

Pergunto: “Por que ‘Personnalité’, em francês?”

“Aqui é um banco para empresários.”

“Ah, por isso o francês.” Desde o século XIX dos imperadores Dom Pedro I e II, o francês é o idioma preferencial da elite brasileira. Paris é ícone de cidade das cidades. Ícone para Rio de Janeiro, para Pelotas, mas também para Bruxelas e para muitas outras cidades européias. Pelo jeito a concupiscência dos empresários de hoje, 2006, continua na mesma linha, mas agora acrescentaram China e Japão aos ‘continentes’. Eles fazem as crianças declamar com devoção: “Somos iguais, direitos iguais.”

Pois sim, o sem-teto e o empresário, somos iguais…

Onde foram parar as migalhas para os cães?

Lanço um último olhar para a faixa do Itaú Personnalité: “Um Natal perfeito para você. Shows diários até 5 de janeiro, entre 18 horas e 20h30, acada 20 minutos.” O boneco de neve e o segurança me cumprimentam. The show must go on. O show deve continuar.

Creio que os 20 minutos já se passaram, pois, de repente, o Papai Noel e o Boneco de Neve começam a falar e se movimentar. As crianças cantam suas canções. O templo cospe neve. Realmente, este é um ‘Natal perfeito’ para mim. Eu posso até sentir náuseas; os brasileiros se aglomeram junto com suas crianças e apreciam. Seus rostos brilham como numa transfiguração. Eles adoram. E quem sou eu para colocar pontos de interrogação nisso?! No natal é representado explicitamente o que, ao longo do ano, se assume de maneira implícita: os Sábios [Magos] e a Sabedoria vêm do exterior. Os imigrantes italianos, alemães, poloneses sentem uma profunda saudade da Europa de seus antepassados. Brasil: espelho da Europa. Brasil: espelho dos Estados Unidos da América. Papai Noel e Boneco de Neve no tórrido verão da colônia. Para onde fugiu o espírito do Índio? Onde se escondeu a alma do Negro?

 

Não vejo migalhas sob a mesa. Não há migalhas para os cães. Só há grandes presentes de natal para banqueiros e seus clientes.

Abatido, tomo o metrô para a Estação Rodoviária do Tietê. Na parada Armênia vejo a ‘Igreja Internacional da Graça de Deus’.

De fato, a religião do dinheiro é uma igreja internacional (1). Com seus templos, seus sacerdotes e sacerdotisas. Seus bonecos de neve, seus ‘papais noéis’ e seus seguranças. Sua grama-inglesa tóxica e palmeiras que balançam ao vento. Para poucos, às custas de muitos. Graças a Deus.

 

Almoço na rua atrás da rodoviária, num bairro popular.

Respiro aliviado. Há muitos cães circulando. Migalhas. Nada de sacerdotisas, nem fotos.

Uma latinha de refrigerante me concede um piscar de olhos confortante: “Viva o lado Coca-Cola da vida.”

De que lado eu estou?

 

São Paulo, 27 de novembro de 2006.

 

Postscriptum 1:

Alguns dias mais tarde, eu me deparo com belas casinhas de cachorro expostas ao longo do movimentado anel rodoviário de São Paulo. Estranho. Estão à venda. Quem as colocou ali? E quem compra? Um pouco adiante, debaixo das pontes, vejo pilhas de estrados de madeira (paletes). Os sem-teto recolhem os restos da cidade e fazem obras de arte. ‘Lixo luxo’: fazer luxo do lixo. Para sobreviver. Um cão com os cães. Será que aprenderam isso das beneditinas que atuam nas ruas? Há 25 anos, elas deram início ao projeto ‘Cor da rua’, no bairro Liberdade. Reencontrar o próprio valor na arte e na beleza. Será que, nesta massa de pedras cinzentas, isto poderia ser o caminho para a libertação?

 

Postscriptum 2:

Poucos dias antes do natal compro, em Chapecó, o ‘Diário do Iguaçu’. O jornal publica, na coluna Opinião, um texto de Paulo Vendelino Kons que começa assim: “Devemos procurar o Menino Jesus não nas belas imagens dos presépios. Devemos procurá-lo entre as crianças subnutridas que nesta noite deitaram sem ter o que comer. Entre os pequenos vendedores de jornais que dormirão envoltos em jornais nas marquises… No engraxate que talvez tenha conseguido ganhar o necessário para comprar um presente para sua mãe.”

Em meio a toda esta loucura de purpurina e comércio, para mim é um consolo que em um recanto deste imenso país esta coluna Opinião possa começar com uma citação de Oscar Romero. Romero, o arcebispo de El Salvador, ‘O Salvador’. Não, a salvação não vem dos presépios iluminados; muito menos é encontrada em templos de ‘papais noéis’ e bonecos de neve. Natal ou a festa da máxima anestesia religiosa. Oscar Romero tinha lá suas idéias sobre o assunto. Foi por isso que ele foi eliminado. Como um vira-lata.

 

(1)   Veja o trabalho de Franz Hinkelammert e de outros ‘teólogos economistas’. Eles desmascaram o capitalismo como a religião dominante. Para eles, a teologia deveria ser uma crítica a esta religião dominante.

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