Livros

Cabala da Comida – Nilton Bonder

CABALA DA COMIDA
JORNAL DO BRASIL – CADERNO B – COMIDA – 22/ABR/1989
DANUSIA BARBARA

Enquanto Judeu ou por acaso Judeu
 Nilton Bonder, ordenou-se Rabino, pelo Jewish Theological Seminary, N.Y, em 1987. Escreveu 14 livros vários deles best-sellers no mercado editorial brasileiro e estrangeiro. Site: (http://www.cjb.org.br

 

A toalha rendada cobrindo a mesa, os talheres cintilando, a sopeira enorme espalhando perfumes. Esta imagem de ordem e paz doméstica é a maneira que os rabinos descreviam o mundo no século 16 – e o rabino Nilton Bonder recupera para nossos dias, num dos livros mais interessantes o que têm aparecido por aí.

Cabala da Comida

Quem está acostumado com os delírios dietéticos da moda (quiabo à milanesa quando a maré subir, 10 quilos a menos por semana) vai estranhar o livro do rabino Nilton Bonder. Não há receitas milagrosas, nem promessas de perder peso. Há sim uma dieta – um método de alimentar-se – que leva em conta o meio ambiente total, de onde vem a comida e vive o homem.

O livro, gostoso de ler, tem historinhas. Como esta: Shalon é um bêbado desses que acordam com a cara na lama. Pois o homem esperou Shalon ficar sóbrio, cuidou de Shalon, prometeu a Shalon um barril de pinga, só para ouvir do bêbado decadente e miserável os conselhos mais justos e sábios do mundo. Fora da bebida, Shalon não tinha pecados.

Com jeito de moderno, o rabino Nilton Bonder conta sua visão da comida – a visão ortodoxa e antiquíssima da cultura religiosa judaica. Nilton Bonder é gaúcho, 31 anos, surfista, vegetariano, engenheiro mecânico formado pela Columbia University e, principalmente, um rabino ortodoxo, formado no Jewish Theologioal Seminary de Nova Iorque em 1986.

Como vegetariano, ele não é um radical: come peixe por exemplo. Inclusive, sente dificuldade de se manter vegetariano no Rio, onde fora de lugares como o Quadrifoglio ou o Celeiro, ele acha a comida sem carne um pavor e as saladas um pântano de maionese e presunto.

Seu livro, A dieta do rabino, possivelmente vai fascinar quem não esteja familiarizado com a cultura religiosa judaica. O livro se lê em algumas horas (Nilton pesquisou anos e o escreveu -bem- em uma semana) e está cheio de descobertas como a noção cabalística de que comer é um recebimento, e comer mal é negar-se a retribuir ao mundo o que se recebeu. É gordo quem recebe mas não se dá. Comida superior é a que se entrega por inteiro, sem resistências nem armadilhas.

De tudo que já se escreveu sobre comida recentemente – reminiscências, receitas para emagrecer, histórias ou geografias da fome – o livro de Nilton Bonder é dos mais originais. Ele fala da arte de comer em sua dimensão religiosa (uma religião bastante mágica, extremamente "oriental", inventando o novo a partir de velhíssimos escritos rabinicos, que ele desenterrou como pesquisador na biblioteca judaica de Manhattan. No século 16, quando os autores cristãos falavam do teatro do mundo, os rabinos viam o mesmo mundo como "uma mesa posta".

 

 
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