Brasil-Europa: em fragmentos?

Crônicas e fragmentos 

Desde 2003, tive a oportunidade de morar e trabalhar parte do ano no Brasil e parte na Europa. As crônicas – como chamamos esses breves relatos – iam e vinham. Elas formaram a base de dois livros, em ambos os lados do Atlântico. E ficaria nisso. Eu sou o primeiro a enfatizar as limitações desta coletânea de crônicas – fragmentos da vida. 

Mesmo assim, parece ser um modelo apreciado por muitos brasileiros, belgas e holandeses. Digamos que uma das vantagens é que você não precisa ler o livro todo! Cada crônica tem um começo e um fim. É por isso que alguns leem somente alguns trechos… Outros me escrevem que leram o livro de capa a contracapa em um só fôlego. Uma mistura de fatos com envolvimento pessoal atrai algumas pessoas, assim como faz com que seja rejeitado por outras. Dificilmente podem ser chamados de livros científicos, mas essa também nunca foi a intenção. 

Crônicas sobre a turnê 

Nos anos de 2008 e 2009 tive a sorte de fazer duas turnês pelo Brasil: passei por 20 universidades, colégios agrícolas, grupos de agricultores, movimentos ambientalistas, ONGs, associações de vegetarianos, organizações pastorais etc. Foram diálogos, debates e discursos interessantes tendo como base os dois livros sobre soja e muitas vezes, como introdução, o material audiovisual em DVD de Wervel.

Essas turnês deveriam ser o ponto alto para, depois, encerrar com “chave de ouro” o intercâmbio entre Wervel1 e Fetraf-Sul/Cut, o Wervel da Bélgica e a realidade brasileira. 

Lego engano! As pessoas olhavam surpresas quando eu comunicava que seria a última vez. Um professor em Mato Grosso me confidenciou: “Sua tarefa é semear dúvidas”. Dúvidas! Talvez. Enxergar através da propaganda diária e das evidências do modelo agrícola dominante e formular perguntas, apontar os pontos cegos, a destruição e o sofrimento de ambos os lados do Atlântico. Ou, fazendo coro com Pedro Tierra, dizer: “Se nos calarmos, as pedras gritarão” (relembrando os 30 anos da Comissão Pastoral da Terra – CPT).

Aos poucos, comecei a acreditar na minha (nova?) missão. Aliás, as crônicas continuaram sendo transmitidas sobre o oceano. Um novo livro nasceu! 

Brasil-Europa em fragmentos? 

Inevitavelmente, as crônicas são apenas fragmentos do vasto subcontinente que se chama Brasil. Será que alguém pode ter a pretensão de escrever um livro conclusivo sobre esse rico país, que ainda tem novos horizontes, pessoas, organizações a serem descobertos? Continua sendo, sem dúvida, um quebra-cabeça no qual faltam muitas peças.

O Brasil é muito rico em muitas áreas e, ao longo da história, formou-se uma forte relação de interdependência com a Europa. Algumas crônicas tratam disso, mas o traço comum em todas as crônicas é que o Brasil, a Europa, a América, enfim, nosso planeta está correndo o risco de cair aos pedaços, se fragmentar. Como vamos, juntos, enfrentar as crises que ameaçam nosso planeta: a crise climática, a energética, a da água, a crise agrária, a crise da agricultura e a alimentar…? Para citar apenas algumas. 

Desfragmentar para ter esperança 

Na Universidade de Brasília, eu conheci o professor francês Eric Sabourin. Ele publicou um interessante trabalho sobre a diversidade e a força da agricultura familiar. “Camponeses do Brasil: entre a troca mercantil e a reciprocidade” (Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2009). Gosto de fazer referência a seu trabalho, já que é o fruto de anos de investigação científica para fazer brilhar as características, a diversidade e o orgulho da agricultura familiar no Brasil. Agricultores entre a esperança e o desespero.

O trabalho de Sabourin é estruturado cientificamente, embora seja baseado em pesquisa de campo continuada. Ele consegue ordenar a diversidade e os muitos fragmentos da realidade brasileira.  

As peças deste novo livro pedem para ser desfragmentadas, como é necessário fazer de tempos em tempos com um computador. Para criar novo espaço, agrupando todos os blocos de mesma cor e, assim, descobrir a correlação. Para enxergar as árvores na floresta das muitas impressões.

Em um dos capítulos eu já fiz isso por você: “Ração animal, uma história de interdependência”. Nos 20 anos em que leio, estudo e discuto sobre o assunto, eu só encontro fragmentos, sem nenhuma conexão histórica… 

Que a contribuição deste livro seja como o levantar de um véu internacional que oculta a história da ração animal e outras histórias. 

Uma pedra no sapato.

Luc Vankrunkelsven

Please follow and like us: