Bradley R. Marshall – Washington – DC

Dez anos atrás, em minha primeira viagem pela Tunísia, parei em um café à beira da estrada para almoçar. A refeição consistia de cucus com harissa (um molho apimentado o bastante para provocar visões) e carne de ovelha. Percebi que os viajantes mais tarimbados não se serviam de pedaços de carne de uma cor esquisita e meio cartilaginosa, preferindo pedaços mais suculentos. Meu companheiro de viagem, Bob, um ex-caubói do Texas, voltou do banheiro que ficava lá fora, ao lado de um abrigo para animais. "Não vá lá de jeito nenhum", ele disse, com um sorriso, sabendo que eu faria exatamente o oposto do que ele estava aconselhando. Foi o que fiz e isso mudou minha vida: pela primeira vez na vida vi os restos de um animal que recém havia comido. 

Depois de uma vida inteira comendo carne, meus olhos ficaram esbugalhados e me tornei consciente da ligação entre o que comemos e de onde vem o que comemos. A carne, ao meu ver, nunca mais poderia ser aqueles pacotes congelados de aparência anti-séptica, nas prateleiras do supermercado ou um suculento prato do jantar. 

Levei um ano, depois do "despertar da Tunísia", para largar completamente a carne. A maioria dos vegetarianos que conheço diz que sua transformação também foi um processo, que exige tempo, paciência e compreensão. Procuro manter um senso de humor e equilíbrio com relação a isso. E não me culpo quando como uma barra de chocolate. 

Poderia escrever várias páginas sobre como o vegetarianismo mudou minha vida — desde a perda de peso e a redução do colesterol, menos gasto por comida de qualidade muito superior, até o fato de que me tornei mais feliz, mais calmo, mais sensível e mais respeitoso com relação a todas as coisas. As pessoas de vez em quando perguntam se sinto falta de carne. O que não percebem é que me tornei mais livre. Para mim não é a liberdade de comer de tudo que me motiva, mas o libertar-me da inquestionável ingestão de substâncias nocivas que costumavam passar por uma dieta "normal"; libertar-me do ignorar a agonia dos animais; libertar-me do liqüidificador do super-consumismo; e libertar-me para viver ao meu próprio modo. E sempre serei grato ao meu velho amigo Bob, que sem querer me deu o empurrão inicial para o caminho que escolhi.  

(Fonte: Vegetarian Times, abril de 1998) 

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