Aurora no Campo - Soja Diferente

Bracatinga versus pinus e eucalipto

Luc Vankrunkelsven

Durante o encontro de 14 dias sobre ‘biodiversidade’, fico na Associação para Desenvolvimento da Agroecologia (Aopa) e pernoito com a família Marfil, em Bocaiúva do Sul (PR).

De bosques a tábuas

Saímos de carro em direção a Curitiba logo cedo, mas passamos primeiro no centro de Bocaiúva para dar carona a mais alguns colaboradores de base de Aopa. Passamos em alta velocidade pela bela região. Marfil percebe meu olhar um tanto triste para uma montanha ‘pelada’.

“Sim”, diz ele. “Eles estão plantando pinus ali.” Solto um suspiro: “Afinal, o pinus é economicamente mais interessante, ‘né’, do que a vegetação original.” “Não é verdade!”, ele rebate. “O Brasil possui uma enorme biodiversidade de espécies arbóreas úteis. Bracatinga, por exemplo, já pode ser colhida a partir dos seis anos. Ou seja, muito mais rápido do que o pinus.”

Lanço um olhar de pena para o motorista: “É realmente uma espécie interessante. Uma mimosaceae (ex-leguminosa) pioneira que faz fixação de nitrogênio, mas não fornece madeira para serrar tábuas, não é?

Marfil: “Isso depende. Existe aqui a tradição de colher a bracatinga a cada seis anos no bosque. Neste caso, as árvores ficam muito próximas umas das outras e, realmente, só produzem lenha para cozinhar e aquecer as casas. Mas se você fizer um desbaste no sexto ano, ao final de 12 anos você tem árvores com troncos firmes. Madeira ideal para fazer móveis. O pinus somente pode ser colhido depois de 15 e até 22 anos!”

Em Flandres [Bélgica], durante séculos, também havia bosques para exploração de lenha, principalmente, de carvalhos e bétulas. Na verdade, o sistema era o mesmo, mas nas últimas décadas caiu em desuso. Atualmente, as casas possuem sistema de aquecimento central e usam gás ou energia elétrica para cozinhar.

“Pois aqui ainda se usa bastante lenha. Veja, ali há uma faixa de mudas rebrotando, com um ano. E ali adiante, uma encosta com bracatinga de 3 anos. Você pode ver como ela cresce rápido. Em Bocaiúva, foi iniciado agora um projeto para produção de móveis com madeira de bracatinga.”

Que maravilha. E por que é que não se ouve falar disso? E por que isto ocorre tão raramente?

“A Revolução Verde nos impôs a monocultura nas lavouras e também nas florestas. Há várias décadas, toda a pesquisa está concentrada exclusivamente em espécies como eucalipto e pinus. É inacreditável, mas até o financiamento pelo Pronaf Florestal (1) ainda é concedido dentro desta visão estreita. O Pronaf somente dá crédito à agricultura familiar, via Banco do Brasil, para o plantio de eucalipto, pinus e acácia-negra. Portanto, um projeto como este é, realmente, remar contra a correnteza, mas representa uma alternativa concreta aos reflorestamentos de pinus – que tornam o solo mais ácido. Não há vida nestes reflorestamentos, enquanto os bosques de bracatinga são cheios de vida.”

 

[Foto 32]

Sistema agroflorestal em Flandres [Bélgica]

 

Em Flandres, com Wervel, estamos tentando mostrar para os agricultores que a inclusão de espécies arbóreas nos sistemas de produção só traz vantagens. A jornada é longa, o interesse está aumentando. É claro que o agricultor e a agricultora que querem trabalhar no sistema agroflorestal precisam fazer uma escolha: eles devem dar um destino imediato à lenha resultante das podas, como combustível (para as granjas, galpões ou sua própria casa), ou então devem picar esta lenha e incorporá-la ao solo para aumentar o teor de matéria orgânica do solo. Historicamente, este teor é muito baixo e favorece a poluição com nitratos.

Finalmente pesquisas para a biodiversidade?

Seguimos nosso caminho meditando. Ao longo dessa mesma estrada, localiza-se o centro de pesquisa ‘Embrapa Florestal’, em Colombo (PR). A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) foi criada na década de 1970, em meio à euforia do avanço de Revolução Verde. E o que capta nosso olhar? Exatamente! Os primeiros e modestos campos experimentais com variedades de bracatinga.

“Veja, aquela é uma outra espécie, utilizada como um tipo de adubo verde. Tem um desenvolvimento muito rápido e fixa o nitrogênio no solo. Ela é cortada logo e os galhos, a biomassa, são deixados sobre o solo. Ideal para a adubação agroecológica da lavoura e para preservar a estrutura do solo.”

Meu semblante apreensivo desanuvia um pouco, apesar de já estarmos um longo trecho atrás de pesados caminhões carregados de toras de pinus. Consigo sorrir novamente, mesmo preocupado com a disseminação de pinus ao longo das estradas. Do mesmo modo que até 20% da carga é perdida no transporte de soja, as sementes escondidas nas cascas dos pinus se espalham durante o transporte. Ao longo de toda a estrada são vistas mudas de pinus. As maiores já começam a ocupar o espaço da vegetação natural. Afinal, o pinus invade todos os espaços, como o próprio capitalismo. Além disso, esta espécie arbórea ‘patenteada’ é ‘homogenizadora’: se não houver nenhuma intervenção, dentro de 30 anos não haverá outras árvores por aqui. Pelo menos, este é meu prognóstico.

 

Mesmo assim, há aqueles que persistem na conversão. Devagar e com firmeza.

Até a Embrapa possui, agora, seus campos experimentais com bracatinga. Pesquisas mostram, também, que o cerrado poderia gerar muito mais renda, e que a comunidade se beneficiaria muito mais se fossem cultivadas e exploradas espécies nativas, entre as quais uma grande diversidade de frutíferas.

A ‘biodiversidade’ é, nestes dias, o tema principal nos salões refrigerados da Expo Trade virtual.

A preservação da biodiversidade é uma batalha diária no calor dos morros reais, em torno de Curitiba.

Ingênuo? Bem-aventurados os ingênuos, pois eles mostrarão o caminho do futuro.

 

Bocaiúva do Sul, 20 de março de 2006.

 

(1)   Pronaf: ‘Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar’. ‘Pronaf Florestal’: programa de financiamento que objetiva apoiar agricultores familiares na implementação de sistemas agro-florestais.

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