Belíndia[1]

Logo adiante paro, estupefato. Ao lado de um painel, no meio do tumulto de dezenas de milhares de pessoas, uma senhora pobre está destruindo um arbusto. Pelo menos, é o que parece à primeira vista. Mas, em seguida, fiquei comovido. Trata-se de uma mulher que, na ‘ecológica’ cidade de Curitiba, é marginalizada e segregada para a periferia. Para as favelas, onde o porcentual de afrodescendentes é elevado. Escondida, pois esta é uma cidade branca. Na periferia não há espaço para biodiversidade, muito menos para arbustos em floreiras. Não há dinheiro para flores. E o que faz esta senhora anônima, no anonimato da massa? Ela tenta retirar dois ramos da floreira. Dois ramos com duas flores maravilhosas. Ela segue seu caminho mancando, pois é deficiente e marcada pela vida dura. Sigo-a com um nó na garganta. Vejo ela olhar, regularmente, com orgulho e satisfação para sua conquista. Pela janela da universidade ouço uma cantora de ópera. Ela exercita sua voz para alegrar as pessoas que podem pagar. Produto cultural para a elite. Duas mulheres, em dois mundos distintos. Na mesma cidade. Em Belíndia. Às vezes, a literatura chama o Brasil de ‘Belíndia’: Bélgica e Índia num mesmo país. ‘Bélgica’ representa a parte rica, ‘Índia’ a grande maioria dos excluídos. A Bélgica que, em 1865, forneceu as pontes para a arrojada ferrovia pela Serra do Mar do Imperador? Para o trem que – hoje – não pára de transportar soja pela serra, de Curitiba rumo ao Porto de Paranaguá. E, de lá em direção a Roterdã. Em direção às aves, suínos, gado e peixes na Bélgica e na Holanda.

 

[Foto 27bis]

Os trens cruzam a serra, a serviço de Bunge e sua soja.


[1] Belíndia – Em 1974, Edmar Bacha cunhou essa expressão para definir o que seria a distribuição de renda no Brasil. Fonte: <http://www.economiabr.net/colunas/henriques/belindia.html>.

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