Aurora no Campo - Soja Diferente

Bacalhau e outros peixes

Luc Vankrunkelsven

Os agricultores da Fetraf vão fazer, hoje, uma manifestação no ‘Mercado’, levando uma vaca e seu bezerro. A vaca seria ordenhada no mercado para mostrar aos cidadãos a enorme diferença entre o preço do litro de leite recebido pelo agricultor e o preço pago pelo consumidor no supermercado.

De leite para peixe

Meu português melhora a cada dia, mas às vezes entendo as coisas de maneira errada. Principalmente, quando estou cansado, é certeza! Ontem à noite, na reunião de planejamento da manifestação ouvi a palavra ‘Mercado’. Bem, o ‘Mercado Municipal’ é próximo do meu hotel. Às 10 da manhã, caminho em direção ao mercado e ando entre as bancas. Os mil agricultores da Fetraf, a vaca, o bezerro e a agricultora encarregada da ordenha não estão à vista. Mas, tudo bem: sempre há muito para ver, vivenciar e aromas a absorver. Muitas bancas com carne, por exemplo. Os gaúchos, aqueles que têm condições, comem muita carne. Diferentes tipos de erva-mate para chimarrão. E peixe seco e também uma barraca com peixe fresco.

 

O peixe seco é o onipresente bacalhau, herança dos colonizadores portugueses. Esta herança está cobrando seu preço, pois o bacalhau está seriamente ameaçado devido à pesca excessiva; o bacalhau está custando os olhos da cara.

Embora a maior parte do bacalhau ainda seja pescada próximo à Islândia, o Brasil é o maior importador de bacalhau do mundo. Principalmente na época da Sexta-Feira Santa e Páscoa é que se prepara uma grande variedade de pratos com bacalhau. Os chineses não vivem sem as barbatanas de tubarão, os japoneses insistem em consumir baleias e o bacalhau – do norte do Oceano Atlântico – faz parte da identidade culinária brasileira.

 

Mesmo assim, há 10 milhões de famílias de pescadores em atividade ao longo dos 8 mil quilômetros da costa do país e na imensa região de águas doces chamada de Amazônia. Mas, assim como em terra há uma batalha entre dois modelos agrícolas, assim há, nos mares, uma batalha impiedosa entre a pesca industrial e a pesca artesanal (1). Guerra ‘em terra e no mar (kai kata ghein kai kata thalassan)’, como se dizia na Grécia Antiga. É por isso – e porque no congresso sobre reforma agrária não há somente campesinos, mas também povos tradicionais, nômades, pescadores… – que o tema ‘reforma agrária’ também inclui ‘reforma marítima’. “Fim da privatização e da pesca excessiva dos mares mundiais! Parem com as ‘Exclusive Economic Zones – EEZ’ [Zonas Econômicas Exclusivas], que excluem os povos tradicionais e pescadores de muitas regiões costeiras.”

Carne e peixe

Quem pode pagar, come muita carne no Brasil. Os chineses também consomem muita proteína animal, mas tradicionalmente boa parte desta é na forma de peixe. No Brasil, isto também está mudando gradativamente. Atualmente, muitos agricultores já possuem tanques de peixes. A tendência mundial de uma verdadeira explosão na aqüicultura também é perceptível por aqui. O governo do presidente Lula até criou um Ministério da Pesca e Aqüicultura. José Fritsch – o primeiro ministro dessa pasta – também já foi prefeito de Chapecó e, portanto, não foi por acaso que na semana de intercâmbio entre Wervel e Fetraf, na primavera de 2005, nós visitamos um projeto de pesca e processamento de pescados em Concórdia, Santa Catarina. Santa Catarina é a região com maior presença dos ‘integradores’ Sadia, Perdigão e Aurora. Eles possuem milhões de suínos, aves e perus sob contrato junto aos agricultores. Suínos, aves e perus para conquistar o mercado mundial. Enquanto os pequenos avicultores da Europa estão preocupados com a gripe aviária, há muito tempo os grandes já se transferiram para o Brasil.

E assim, em Santa Catarina, as atividades são combinadas. As grandes granjas de criação de suínos, aves e perus geram um sério problema ambiental. Ora, nos tanques de piscicultura, os peixes recebem – somente nos primeiros dias – farelo de soja e/ou milho. Depois disso, os dejetos dos suínos são canalizados em direção aos tanques. E nós degustamos um churrasco de peixes enormes, 90% deles criados com esterco de porco.

Supermercado Carrefour 

Estas imagens voltam à minha mente, mas continuo sem ver a vaca e o bezerro muito menos os mil agricultores. Ainda tomo calmamente um cappuccino enquanto continuo a observar o movimento no mercado. Um ônibus circular me leva de volta ao congresso sobre reforma agrária. Fico sabendo do sucesso da manifestação no ‘Supermercado Carrefour’, próximo da universidade. Todos estão entusiasmados. Deve ter sido um momento tocante: a agricultora que ordenha sua vaca, protegida pelo cerco de mil agricultores. E os olhares de espanto dos consumidores que, também no Brasil, mal sabem de onde vem o leite UHT (2). Além disso, a imprensa compareceu em massa.

E assim fica demonstrado como o entendimento incorreto de compromissos pode levar uma pessoa das vacas leiteiras ao bacalhau. Para longe da multinacional francesa no Brasil.

 

Porto Alegre, 7 de março de 2006.

 

  1. Um ano mais tarde, a Sexta-Feira Santa e a Páscoa coincidem com o início de abril. Os camarões estão muito mais baratos que o bacalhau. Em Florianópolis, para cada 500 kg de peixe vendidos, duas toneladas de camarão trocam de mãos. Os vendedores atraem os consumidores com apelos como: “Vamos comer camarão, ‘tá mais barato que arroz!” ‘Arroz com feijão’, a base da alimentação do brasileiro. Tudo é possível! Camarões como exemplo concreto da batalha entre dois modelos de pesca. Desta vez, até a pesca artesanal de camarão dos Estados Unidos da América é derrotada pela criação em grande escala, industrial, de camarões no Nordeste do Brasil. Principalmente no Rio Grande do Norte é possível ver do avião os enormes tanques, geralmente nas mãos de asiáticos. Os norte-americanos apresentaram uma reclamação contra o Brasil na OMC. Isto é o contrário do que acontece habitualmente, pois o Brasil é campeão na apresentação de reclamações na Organização Mundial do Comércio. Enquanto isso, agricultura familiar ‘se aproveita’ do fato de os oceanos serem, gradativamente, despojados de seus peixes. Principalmente no interior de Santa Catarina muitos agricultores estão se dedicando à criação de peixes. Nos dias que antecedem a Páscoa, lá estão eles – com tanques d’água – nas praças e nas feiras coloniais para vender seu peixe vivo. Estima-se que, este ano, as vendas foram 33% superiores às do ano passado. Além das carpas e tilápias, são principalmente o pacu (espécie originária da região amazônica) e o bagre que, nestes dias, substituem o excesso ‘normal’ de carne.
  2. UHT: submetido a altas temperaturas, mais conhecido como ‘leite longa-vida’.

    [Foto 24]

    Pacu – escultura num restaurante de beira de estrada, Pantanal 2007.

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