Aurora no Campo - Soja Diferente

Aves

 

Tanto a região em torno de Francisco Beltrão, no Paraná, quanto de Chapecó, em Santa Catarina, são importantes regiões produtoras de aves. Afora as galinhas caipiras que ainda ciscam em cada propriedade, quase todos os frangos ou perus (e seus criadores) estão contratados por algumas poucas multinacionais. Passamos uma tarde interessante com uma dessas famílias de agricultores. Além de leite e algumas lavouras, eles possuem um enorme galpão com frangos para a Sadia. É ela que encabeça a relação dos grandes integradores. Além dela, temos: Perdigão, Seara (adquirida, em 1998, pela Bunge e revendida, em 2006, para Cargill), Frangosul (adquirida pela francesa Doux), Avipal e Diplomata. Juntas, estas seis empresas controlam 43,85% da produção e 75,89% da exportação.

 

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Perus que não sabem o que é ciscar.

 

Posso continuar citando mais alguns números que ouvi naquela tarde? A partir de 1961, o consumo de carne no mundo cresceu 271%; o de frangos, 805%. Entre 1986 e 2004, o comércio mundial de carne aumentou 241%; para aves, o aumento foi de 550%.

O custo de produção no Brasil é significativamente menor do que na Europa: 0,54 euro por quilo de ‘cortes de frango’, ao invés de 0,76 euro, na Alemanha. Acrescente-se a isso que o frango não-industrializado paga 25% de impostos na fronteira européia, enquanto o frango industrializado paga 8%. Não é difícil adivinhar as conseqüências: os cortes de frango brasileiro, geralmente temperados, fazem fila nas nossas fronteiras. Desde 1996, deparamo-nos com o fenômeno de que o consumidor europeu, bem como o norte-americano, compra principalmente peito de frango. Isto convém à indústria, pois, em 1995, entraram em vigor as novas regras da OMC – também, e principalmente, na África. Desde 1996, grandes regiões da África são inundadas por coxas e sobre-coxas de frango, não só da Europa, mas – principalmente – carne de frango congelada vinda do Brasil, novamente liderada pela campeã Sadia. O representante de Senegal pode atestar quão desastroso isto é para a renda de milhões de famílias africanas. Antigamente, cuidar das galinhas era tarefa principalmente das mulheres e indispensável nos banquetes festivos. Para estas festas, agora, são compradas coxas e sobre-coxas congeladas, enquanto as economias locais desmoronam.

 

Para culminar: somente duas multinacionais são responsáveis pelo fornecimento de 80% dos pintos de um dia e das aves-matrizes para o mundo todo: uma é norte-americana; a segunda opera a partir da Alemanha. Metade do espaço de carga da Lufthansa estaria reservada para pintos de um dia e ovos fertilizados! Do aeroporto em Zaventem (Bélgica) também são despachados milhões de pintos e ovos em direção à África.

 

Prezados amigos de EVA e Gaia (2), como e quando vamos libertar estas galinhas?

E quanto aos agricultores? E os consumidores?

 

Francisco Beltrão, 30 de março de 2007.

 

(1)   BURG, I.C.; MAYER, P.H. (Org.) Manual de alternativas ecológicas para prevenção e controle de pragas e doenças: caldas, biofertilizantes, fitoterapia animal, formicidas e defensivos naturais. 7. ed. Francisco Beltrão: Assesoar/Cooperiguaçu, 1999. 153 p. <http://www.assessoar.org.br>.

(2)   Ethisch Vegetarisch Alternatief (EVA) [Alternativa Ética Vegetariana]: <http://www.vegetarisme.be>; no Brasil: <http://www.vegetarianismo.com.br> (neste site, sob o título ‘soja’ é possível ler, ou fazer o download da íntegra do primeiro livro sobre soja em português; <http://www.svb.org.br>; <http://www.ivu.org>.

Global Action in the Interest of Animals (Gaia) [Ação Global em Defesa dos Animais]: <http://www.gaia.be>.

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