Ativistas urbanos

Longe da política tradicional, jovens lutam por novas causas e encontram formas alternativas de mobilização

Verônica Mambrini

VÁRIAS REFERÊNCIAS As bebês Stellaluna (atrás) e Violeta Luz nasceram em casa e são criadas pela comunidade que vive na Morada da Floresta

Eles são engajados, mas não querem saber de partidos políticos. Envolvem-se em causas humanitárias, sociais e ecológicas, mas acham que as organizações não governamentais (ONGs) estão fora da realidade. Rejeitam líderes e, para se organizar, usam a internet, numa rede que os liga a grupos semelhantes na mesma cidade, ou outros países. Os novos ativistas atuam à margem da estrutura política tradicional e fazem de suas convicções uma forma de viver.

Na Morada da Floresta, residência comunitária em São Paulo, isso é bem evidente. Lá, vivem duas famílias e um amigo que dão cursos, palestras e vendem produtos ligados ao ecofeminismo.

ANIMAIS LIVRES Organizando-se pela internet, o grupo Libertação Animal reúne cerca de 300 manifestantes em protestos contra rodeios e circos

"Nossa proposta está ligada ao parto natural, com parteira, em casa", explica Ana Paula Silva, 25 anos. É um retorno às origens. Eles defendem o uso de absorventes e fraldas de pano e de acessórios que aproximam os pais do bebê, como os slings – faixas que permitem transportar a criança colada ao corpo da mãe ou do pai.

Diferentemente do feminismo da década de 60, a ecologia feminina defende a harmonia com o masculino.

"A participação do pai nos cuidados com o filho desabrocha virtudes nos homens, como o companheirismo e a sensibilidade", diz Ana Paula. Todos os moradores da casa participam da educação das crianças, que devem crescer com várias referências adultas.

Eles também têm preocupações ecológicas. Cultivam horta no quintal, reciclam lixo orgânico numa composteira e coletam água da chuva.

DUPLO ATIVISMO Luísa Pereira e Diogo Camacho são veganos e usam bicicleta como meio de transporte

No novo ativismo, o meio ambiente está no centro das preocupações. "Transcende os interesses de classe social ou grupo político", diz José Guilherme Magnani, professor do Núcleo de Antropologia Urbana da Universidade de São Paulo. Esta é a base dos jardineiros de guerrilha. Carregados de "bombas" de sementes, mudas de árvores e armados de pás e enxadas, eles silenciosamente repovoam de verde espaços de terra abandonados, como praças ou terrenos. "A ideia surgiu como uma forma de fazer algo contra a ditadura do asfalto", explica Sandro Muniz do Nascimento, 27 anos.

Jardim é um nome simbólico. Pode ser o plantio de uma única flor ou a recuperação de áreas degradadas com espécies nativas. Nos blogs dedicados à jardinagem libertária (outro nome para a prática) há dicas de como fazer as "bombas" de argila, adubo e sementes e sobre qual espécie é adequada para cada lugar. A preocupação não é apenas ambiental. "É um retorno ao viver em sociedade, falar com o vizinho, cuidar juntos da planta que está na porta dos dois", diz Sandro. Portugal, Bélgica, Inglaterra e Itália são alguns países onde grupos de guerrilha de jardim também trocam informações em blogs. "A globalização é uma característica das novas formas de ativismo", diz Caroline de Mello Freitas, professora de antropologia social da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP).

Please follow and like us: