Ativistas anticonsumo trocam lojas por lixo em NY

Quinta, 21 de junho de 2007, 14h24

Certa noite de sexta-feira, em maio, um dia depois da formatura da turma de 2007 na Universidade de Nova York, 15 pessoas se reuniram diante de um dos alojamentos da universidade, na esquina da Terceira Avenida com a Rua 12. Eles estavam lá para aproveitar o êxodo de alunos ao final do ano letivo, que deixa as calçadas repletas de itens abandonados pelos estudantes.

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Quadro é retirado de lixo em ruas de Nova York por integrante de movimento anticonsumo

Nova York tem muitas faculdades e universidades, evidentemente, mas, de acordo com Jane Kalish, moradora do Queens que era uma das pessoas presentes naquela noite, o corpo discente composto por pessoas endinheiradas da Universidade de Nova York faz dela o campo mais propício para os catadores de lixo. Assim, talvez não surpreenda que o grupo reunido em torno das lixeiras diante do dormitório parecesse estar envolvido em uma expedição de compras, pontuada por exclamações de alegria quando eles encontravam produtos de primeira classe jogados no lixo.

Ben Ibershoff, um homem bem apessoado, na casa dos 20 anos, usando um chapéu-coco por sobre um segundo, cavou fundo em uma lixeira e encontrou um televisor Sharp. Autumn Brewster, 29 anos, encontrou um quadro de um porto no Mediterrâneo, que ela avaliou e passou a outro membro do grupo. Darcie Elia, 17, aluna de segundo grau que raspou metade da cabeça, estava satisfeita com sua coleta do que ela definiu como "coisas aleatórias para casa": uma luminária de mesa, um escorredor de louças, espanadores. Ela espalhou o material pela calçada, atraindo olhares dos transeuntes.

Elia não era a única a apreciar as coisas mais modestas. "O mais emocionante é quando você encontra todo o conteúdo de uma mesa jogado ao lixo, e no meio da pilha há um livro de selos, por exemplo", diz Kalish, 44, postada no interior de uma lixeira, com detritos até os joelhos, enquanto examinava um apoio plástico para produtos de banheiro.

Alguns dos presentes estavam passando por ali ao acaso (entre os quais o zelador de um centro de abrigo de pessoas de rua localizado nas proximidades, que encontrou um iPod, que funcionava, e um frasco de creme cheio), mas a maioria estava presente propositadamente, em resposta a um anúncio no site http://www.freegan.info/.

O site, que oferece informações e listas direcionadas à pequena, mas crescente tribo dos freegans, o termo deriva de vegans, os adeptos da dieta vegetariana que rejeita toda espécie de produtos animais, uma tendência também popular entre os freegans. Os freegans são inimigos do consumismo, e o site é o que eles têm de mais próximo a um veículo oficial.

E para pessoas como Elia e Kash ele serve de guia para organizar uma vida, e montar uma casa, em um mundo que consideram hostil aos seus valores. Os freegans vivem dos resíduos da sociedade de consumo, em um esforço por minimizar seu apoio a grandes empresas e ao impacto que elas causam no planeta, e para se distanciar do que vêem como consumismo descontrolado.

Eles vasculham as lixeiras de supermercados e comem os vegetais ligeiramente danificados ou os enlatados com prazo vencido que são jogados fora rotineiramente, e negociam com proprietários de lojas e restaurantes simpáticos à sua causa doações de excedentes de comida. Usam roupas que outras pessoas jogaram foram, e mobiliam suas casas com itens encontrados na rua; no site www.freecycle.com, onde proprietários postam ofertas de doações de produtos indesejados; e em mercados de trocas.

Alguns alegam seguir normas rigorosas. "Se a pessoa opta por viver uma vida ética, não basta ser vegan; é preciso também se excluir do capitalismo", diz Adam Weissman, 29, o criador do www.freegan.info, quatro anos atrás, e na prática o porta-voz do movimento.

O movimento freegan surgiu na metade dos anos 90, e se inspirou nos movimentos ambientalista e de combate à globalização, bem como no grupo Food Not Bombs, uma rede de pequenas organizações que servem aos famintos refeições vegan e vegetarianas, muitas delas preparadas com ingredientes recuperados do lixo dos mercados de comida.

Os freegans também ecoam os Diggers, uma trupe de teatro de rua anarquista que atuava em Haight-Ashbury, San Francisco, nos anos 60, distribuindo comida e provendo serviços sociais gratuitos. De acordo com Bob Torres, professor de sociologia na Universidade St. Lawrence, em Canton, Nova York, que está escrevendo um livro sobre o movimento de defesa dos direitos dos animais ¿cujas posições ideológicas são muito semelhantes às dos freegans-, o movimento ganhou popularidade e visibilidade nos últimos meses, em parte como resultado da crescente frustração quanto ao ambientalismo mais convencional.

O ambientalismo, disse Torres, "está se transformando em algo como, ei, consuma o tipo certo de verduras e você é ecológico. Não importa os recursos naturais que esses produtos exijam para sua produção e distribuição". "Se você perguntar a uma pessoa comum o que alguém pode fazer para reduzir o aquecimento global, ela vai recomendar que compre um Prius", afirmou.

Existem freegans no mundo inteiro, em países tão distantes quanto Suécia, Brasil, Coréia do Sul, Estônia e Inglaterra (onde a mídia deu grande destaque, recentemente, ao que o jornal The Sun definiu como "a maluca tendência" de comer alimentos encontrados no lixo), e eles estão espalhados por todo o território norte-americano. Mas Nova York, a capital financeira do país mais rico do mundo, se tornou um centro de atividade freegan, em larga medida graças ao zelo de Weissman pela causa e ao considerável tempo livre de que ele dispõe para defendê-la (ele não trabalha e vive na casa de seu pai e avós idosos, em Teaneck, Nova Jersey).

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