Aspectos nocivos da pecuária moderna

Adaptado de artigo de José A. Lutzenberger

No caso da criação intensiva de animais para carne, leite e ovos, muito mais alimento para humanos é destruído do que produzido. As galinhas em seus campos de concentração ou fábricas de ovos, eufemisticamente chamadas de "granjas" são alimentadas com rações "cientificamente equilibradas", consistindo de grãos de cereais, soja, torta de óleo de palma ou de mandioca, muitas vezes com farinha de peixe.

Há casos no Brasil onde sua ração contém leite em pó, proveniente da Europa. Isto as coloca então numa posição de competição com os humanos porque nós as alimentamos com nossas lavouras. Isso é um absurdo já que o objetivo é contribuir para resolver o problema da fome humana.

Na agricultura tradicional as galinhas comiam insetos, minhocas, esterco, ervas, capim e restos de cozinha e de colheita, desta maneira aumentando a capacidade de sustento das terras dos agricultores para humanos. Agora elas diminuem essa capacidade.

Nestes esquemas, a proporção da ração empregada e o resultado em alimento humano é próxima de vinte para um. Metade do peso dos animais vivos – penas, ossos, intestinos – não é consumida por nós e também as rações são desidratadas e concentradas com um alto consumo de energia até a concentração máxima de 12% de água, enquanto a carne contém até 80% de água.

Nos currais de engorda, as operações mais eficientes usam em torno de 2,2Kg de ração para obter 1Kg de peso vivo, sendo que apenas metade disso é aproveitado como alimento humano.

Conforme os dados um cálculo pode ser feito da seguinte forma: 2,2 Kg de ração resultam em 1 Kg de carne da qual se aproveita apenas 0,5 Kg. Assim, 4,4 Kg de ração resultam em 1 Kg de carne consumida por humanos.

Levando em conta a concentração de água: 4,4 Kg vezes 88% (12% de água na ração) resulta em 3,87 Kg de sólidos que formam a ração. 1 Kg vezes 20% (80% de água na carne) resulta em 0,2 Kg de sólidos que formam a carne.

Calculando a proporção de sólidos da ração com os sólidos da carne: 3,87 sobre 0,2 resulta em 19,36.

Isto é, a quantidade de matéria seca da carne consumida por humanos é 19,36 vezes menor do que a quantidade de de matéria seca da ração fornecida aos animais.

E quando se trata de gado bovino confinado, como nos "galpões de engorda" de Chicago, a relação é de cerca de cinco vezes maior. O desperdício ainda é pior.

Mais recentemente, algumas das granjas brasileiras "aperfeiçoaram" um pouco esta razão incluindo na ração rejeitos de galinhas abatidas antes, desta maneira forçando-as ao canibalismo.

Outro aspecto absurdo disto tudo: as rações "cientificamente equilibradas" não contém nada verde, o mesmo acontece com os porcos. Galinhas e porcos são naturais consumidores de ervas, gramíneas, frutos, nozes e raízes.

Além disso, nos campos de concentração de galinhas e fábricas de ovos, assim como nos modernos calabouços de porcos, as pobres criaturas vivem sob condições de estresse que levam à doenças. Para evitar o prejuízo com a morte das aves se usa antibióticos.

No caso de operações industriais envolvendo galinhas é fácil ver como tais métodos destrutivos se desenvolveram. Basta observar que no sul do Brasil – um grande exportador de carne de galinha, principalmente para o Oriente Médio e Japão –  os pequenos empresários individuais confinavam galinhas num galpão e as alimentavam com milho.

Depois, o sistema cresceu até um ponto onde atualmente existem em torno de meia dúzia de companhias muito grandes e umas poucas pequenas. Os grandes abatedouros matam e processam até centenas de milhares de galinhas por dia.

As companhias impõem regras aos produtores, chamadas por elas de sistema de integração vertical. O "produtor" assina um contrato onde aceita comprar todos os seus insumos, pintinhos, rações e drogas da companhia.

Mesmo que ele seja um agricultor e tenha uma grande produção de grãos, não é permitido alimentar suas galinhas com os grãos próprios. Os agricultores são obrigados a comprar a ração pronta, mas podem vender o seu milho para a fábrica de ração que pertence à mesma companhia proprietária do abatedouro e da incubadeira que produz os pintos.

Estas companhias operam um tipo diferente de campo de concentração de galinhas onde os prisioneiros são galos e poedeiras, um galo para cada dez galinhas. As galinhas não estão em pequenas gaiolas como nas fábricas de ovos, elas podem se mover livremente dentro do galpão e pular para dentro de amplos ninhos para pôr os ovos.

Nas operações de esteiras rolantes das fábricas de ovos, chamadas baterias, as pobres poedeiras estão confinadas, três em cada gaiola, sobre uma grade de arame e os ovos rolam para fora. Os pintos produzidos nestas incubadeiras não são mais de raças tradicionais de galinhas, eles são de marcas registradas e são híbridos. Assim como o milho híbrido, não podem ser reproduzidos para criar uma próxima geração com as mesmas características
raciais uniformes.

Após comprar todos os seus insumos da companhia com a qual assinou contrato, ele poderá vender somente para a mesma companhia. O produtor não é autorizado a vender a empresas concorrentes, e estas não comprariam.

Desta maneira deixam todos os riscos com o produtor:  perda por doenças ou custos adicionais com drogas e antibióticos, choque de calor, um desastre comum durante os dias quentes de verão, quando centenas ou milhares de galinhas morrem nos abarrotados e mal ventilados galpões, e perdas durante o transporte. As galinhas que morrem nos caminhões da companhia no trajeto ao abatedouro são também descontadas.

A margem do produtor acaba tão apertada que, mesmo se tudo for bem, mas se for preciso alimentar os animais mais alguns dias, o lucro pode evaporar ou mesmo se transformar em perda.

Esta é uma ocorrência comum. O abatedouro agenda suas viagens de coletas de galinhas prontas de acordo com sua própria conveniência. Mas se a companhia obtém lucros excepcionais no mercado de exportação, nada vai para o produtor.

Assim, os campos de concentração de galinhas nada têm a ver com maior produtividade para ajudar a salvar a Humanidade da inanição – de fato, esses métodos pioram o problema – mas eles concentram capital e poder pela criação de dependência.

Estes métodos não foram inventados pelos agricultores. É impensável que um agricultor em uma cultura camponesa sadia tivesse a idéia de alimentar suas galinhas com quantidades maciças de grãos, a menos que fossem grãos impróprios para o consumo humano, e isolá-las de sua fonte natural de alimentos, desperdiçando parte da capacidade de sustentação do solo para humanos e destruindo ao mesmo tempo parte de sua colheita.

Estes métodos também não são resultado coordenado de uma conspiração pela tecnocracia. Tais esquemas crescem naturalmente a partir de uma idéia inicial que pode ter tido uma intenção completamente diferente. Neste caso, como foi na agroquímica também, era o esforço de guerra.

Durante a última Guerra Mundial, o governo norte-americano iniciou o sistema de subsídios para a produção de grãos, o qual conduziu a enormes excedentes. Assim, as autoridades da agricultura procuraram um "consumo não humano" para os grãos.

A integração vertical é somente um estágio momentâneo no processo de concentração de poder nas mãos das companhias. Elas já tentaram, sem sucesso, banir a criação de galinhas soltas (caipiras) por agricultores independentes. Mas, por dispositivos legais especiais, conseguiram tornar mais difícil para os pequenos agricultores a venda de ovos no mercado
aberto.

 

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Aspectos nocivos da pecuária moderna

Adaptado de artigo de José A. Lutzenberger

No caso da criação intensiva de animais para carne, leite e ovos, muito mais alimento para humanos é destruído do que produzido. As galinhas em seus campos de concentração ou fábricas de ovos, eufemisticamente chamadas de "granjas" são alimentadas com rações "cientificamente equilibradas", consistindo de grãos de cereais, soja, torta de óleo de palma ou de mandioca, muitas vezes com farinha de peixe.

Há casos no Brasil onde sua ração contém leite em pó, proveniente da Europa. Isto as coloca então numa posição de competição com os humanos porque nós as alimentamos com nossas lavouras. Isso é um absurdo já que o objetivo é contribuir para resolver o problema da fome humana.

Na agricultura tradicional as galinhas comiam insetos, minhocas, esterco, ervas, capim e restos de cozinha e de colheita, desta maneira aumentando a capacidade de sustento das terras dos agricultores para humanos. Agora elas diminuem essa capacidade.

Nestes esquemas, a proporção da ração empregada e o resultado em alimento humano é próxima de vinte para um. Metade do peso dos animais vivos – penas, ossos, intestinos – não é consumida por nós e também as rações são desidratadas e concentradas com um alto consumo de energia até a concentração máxima de 12% de água, enquanto a carne contém até 80% de água.

Nos currais de engorda, as operações mais eficientes usam em torno de 2,2Kg de ração para obter 1Kg de peso vivo, sendo que apenas metade disso é aproveitado como alimento humano.

Conforme os dados um cálculo pode ser feito da seguinte forma: 2,2 Kg de ração resultam em 1 Kg de carne da qual se aproveita apenas 0,5 Kg. Assim, 4,4 Kg de ração resultam em 1 Kg de carne consumida por humanos.

Levando em conta a concentração de água: 4,4 Kg vezes 88% (12% de água na ração) resulta em 3,87 Kg de sólidos que formam a ração. 1 Kg vezes 20% (80% de água na carne) resulta em 0,2 Kg de sólidos que formam a carne.

Calculando a proporção de sólidos da ração com os sólidos da carne: 3,87 sobre 0,2 resulta em 19,36.

Isto é, a quantidade de matéria seca da carne consumida por humanos é 19,36 vezes menor do que a quantidade de de matéria seca da ração fornecida aos animais.

E quando se trata de gado bovino confinado, como nos "galpões de engorda" de Chicago, a relação é de cerca de cinco vezes maior. O desperdício ainda é pior.

Mais recentemente, algumas das granjas brasileiras "aperfeiçoaram" um pouco esta razão incluindo na ração rejeitos de galinhas abatidas antes, desta maneira forçando-as ao canibalismo.

Outro aspecto absurdo disto tudo: as rações "cientificamente equilibradas" não contém nada verde, o mesmo acontece com os porcos. Galinhas e porcos são naturais consumidores de ervas, gramíneas, frutos, nozes e raízes.

Além disso, nos campos de concentração de galinhas e fábricas de ovos, assim como nos modernos calabouços de porcos, as pobres criaturas vivem sob condições de estresse que levam a doenças. Para evitar o prejuízo com a morte das aves se usa antibióticos.

No caso de operações industriais envolvendo galinhas é fácil ver como tais métodos destrutivos se desenvolveram. Basta observar que no sul do Brasil – um grande exportador de carne de galinha, principalmente para o Oriente Médio e Japão –  os pequenos empresários individuais confinavam galinhas num galpão e as alimentavam com milho.

Depois, o sistema cresceu até um ponto onde atualmente existem em torno de meia dúzia de companhias muito grandes e umas poucas pequenas. Os grandes abatedouros matam e processam até centenas de milhares de galinhas por dia.

As companhias impõem regras aos produtores, chamadas por elas de sistema de integração vertical. O "produtor" assina um contrato onde aceita comprar todos os seus insumos, pintinhos, rações e drogas da companhia.

Mesmo que ele seja um agricultor e tenha uma grande produção de grãos, não é permitido alimentar suas galinhas com os grãos próprios. Os agricultores são obrigados a comprar a ração pronta, mas podem vender o seu milho para a fábrica de ração que pertence à mesma companhia proprietária do abatedouro e da incubadeira que produz os pintos.

Estas companhias operam um tipo diferente de campo de concentração de galinhas onde os prisioneiros são galos e poedeiras, um galo para cada dez galinhas. As galinhas não estão em pequenas gaiolas como nas fábricas de ovos, elas podem se mover livremente dentro do galpão e pular para dentro de amplos ninhos para pôr os ovos.

Nas operações de esteiras rolantes das fábricas de ovos, chamadas baterias, as pobres poedeiras estão confinadas, três em cada gaiola, sobre uma grade de arame e os ovos rolam para fora. Os pintos produzidos nestas incubadeiras não são mais de raças tradicionais de galinhas, eles são de marcas registradas e são híbridos. Assim como o milho híbrido, não podem ser reproduzidos para criar uma próxima geração com as mesmas características
raciais uniformes.

Após comprar todos os seus insumos da companhia com a qual assinou contrato, ele poderá vender somente para a mesma companhia. O produtor não é autorizado a vender a empresas concorrentes, e estas não comprariam.

Desta maneira deixam todos os riscos com o produtor:  perda por doenças ou custos adicionais com drogas e antibióticos, choque de calor, um desastre comum durante os dias quentes de verão, quando centenas ou milhares de galinhas morrem nos abarrotados e mal ventilados galpões, e perdas durante o transporte. As galinhas que morrem nos caminhões da companhia no trajeto ao abatedouro são também descontadas.

A margem do produtor acaba tão apertada que, mesmo se tudo for bem, mas se for preciso alimentar os animais mais alguns dias, o lucro pode evaporar ou mesmo se transformar em perda.

Esta é uma ocorrência comum. O abatedouro agenda suas viagens de coletas de galinhas prontas de acordo com sua própria conveniência. Mas se a companhia obtém lucros excepcionais no mercado de exportação, nada vai para o produtor.

Assim, os campos de concentração de galinhas nada têm a ver com maior produtividade para ajudar a salvar a Humanidade da inanição – de fato, esses métodos pioram o problema – mas eles concentram capital e poder pela criação de dependência.

Estes métodos não foram inventados pelos agricultores. É impensável que um agricultor em uma cultura camponesa sadia tivesse a idéia de alimentar suas galinhas com quantidades maciças de grãos, a menos que fossem grãos impróprios para o consumo humano, e isolá-las de sua fonte natural de alimentos, desperdiçando parte da capacidade de sustentação do solo para humanos e destruindo ao mesmo tempo parte de sua colheita.

Estes métodos também não são resultado coordenado de uma conspiração pela tecnocracia. Tais esquemas crescem naturalmente a partir de uma idéia inicial que pode ter tido uma intenção completamente diferente. Neste caso, como foi na agroquímica também, era o esforço de guerra.

Durante a última Guerra Mundial, o governo norte-americano iniciou o sistema de subsídios para a produção de grãos, o qual conduziu a enormes excedentes. Assim, as autoridades da agricultura procuraram um "consumo não humano" para os grãos.

A integração vertical é somente um estágio momentâneo no processo de concentração de poder nas mãos das companhias. Elas já tentaram, sem sucesso, banir a criação de galinhas soltas (caipiras) por agricultores independentes. Mas, por dispositivos legais especiais, conseguiram tornar mais difícil para os pequenos agricultores a venda de ovos no mercado
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