Arroz com feijão

Luc Vankrunkelsven

Nas crônicas anteriores e no livro sobre soja, já escrevemos bastante sobre o desenrolar do drama social e ecológico no Brasil. E também sobre como o milagroso grão de soja está relacionado com isso.

Agora, chegou a hora de examinar com atenção as alternativas. Aqui no Brasil, elas existem em abundância:

Poucos países possuem uma biodiversidade tão grande.

Poucos países possuem uma agrobiodiversidade tão grande.

Poucos países abrigam um povo tão diverso, criativo e cheio de vitalidade!

 

E se combinássemos estes três fatores para ver tudo o que pode surgir daí?

Primeiro, vamos examinar o povo. Qual é, desde antigamente, a base da alimentação da população? Arroz com feijão. Vamos admitir, a base da alimentação não inclui uma grande diversidade de verduras e frutas, mas é extremamente nutritiva. Nestes tempos de ansiosa expectativa para saber o que vai acontecer com o setor de carnes (em alerta devido à constatação de febre aftosa, no Brasil, e do temor mundial de uma pandemia de gripe aviária), faz sentido pararmos para analisar estes alimentos básicos.

Costumes/rituais (1) ao levantar

No Sul do Brasil, um dos primeiros atos depois de acordar e levantar da cama é colocar água para esquentar e preparar a erva-mate para o chimarrão. No interior, muitas famílias ainda contam com o fogão a lenha. Neste caso, obviamente, é o fogão que recebe a primeira atenção.

Em seguida, como num ritual de comunhão, a cuia passa de mão em mão. Uma saudação silenciosa ao dia, a você mesmo e ao próximo. É uma rica herança dos guarani, um dos povos nativos deste continente.

Em muitas famílias, o segundo ato ainda é lavar o feijão preto, tipicamente brasileiro. Os brasileiros fazem duas refeições quentes por dia: o almoço e o jantar. Nem se cogita levar sanduíches para o trabalho, como é feito em Flandres [Bélgica]. Nos bem freqüentados restaurantes é possível fazer refeições a um preço baixo. Nesses sempre se encontra carne, verduras e frutas em abundância, mas também – e sempre – os alimentos básicos: ‘arroz com feijão’. Quem faz as refeições em casa, costuma fazer uma refeição quente no almoço e, à noite, requenta o que sobrou. Portanto, é necessário preparar uma boa quantidade de feijão pela manhã. Quando o feijão faz parte de várias refeições ao logo do dia (2), há sempre uma panela com feijão no fogão à lenha.

 

Muitos dos pratos atuais preparados com feijão têm sua origem no período da escravidão. Afinal, um escravo era um investimento e precisava ser bem tratado, assim como um cavalo é bem tratado para render no trabalho. Obviamente, o ‘bom tratamento’ era composto de restos das mesas dos senhores: vísceras, ossos e nervos. Esses ingredientes deram origem a pratos como feijoada, sarapatel e vatapá, entre outros.

 

“Mas os grãos de soja também são ‘feijões’! Por que eles não os comem?” Bem, durante os anos de glória da Revolução Verde, o Banco Mundial patrocinou aqui, no Sul do Brasil, muitos projetos para convencer os brasileiros a comerem soja. Mas não foram bem-sucedidos. Afinal, ao contrário da semente da soja, não é tão simples introduzir no Brasil a cultura milenar chinesa de consumo de tofu (‘queijo’ de soja). Somente nos últimos anos é que pratos com soja passaram a ter alguma aceitação, principalmente na classe média e por razões de saúde. O fato de a extraordinária diversidade brasileira incluir muitos japoneses e chineses provavelmente também tem influência nisso.

Agricultura familiar

Na agricultura familiar, o feijão é uma espécie importante na rotação de culturas. Assim como sua recentemente introduzida irmã chinesa – a soja –, o feijão é uma leguminosa. Por isso, em simbiose com bactérias nas raízes, as plantas extraem – gratuitamente – nitrogênio do ar. Nacionalmente, os quatro milhões de agricultores familiares respondem por 67% da produção de feijão; no Sul do Brasil esta participação chega a 80%. São responsáveis também por 31% da produção nacional de arroz. A partir da década de 1930, os sucessivos governos organizaram um sistema de compra destes produtos básicos, com garantia de um preço de referência para o(a) agricultor(a). Porém, o sistema não foi consolidado politicamente e, principalmente, a partir da década de 1990 – com sua forte onda de liberalização – a maioria dos armazéns da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento; <www.conab.gov.br>) ficaram vazios. O governo atual, do presidente Lula, criou – nos primeiros 18 meses de sua gestão – 50 novos armazéns. Em julho de 2003, o Congresso votou uma lei que permite a aquisição de produtos para o Programa Fome Zero diretamente dos agricultores, limitado ao valor de R$ 2 mil por propriedade.

 

[foto 8bis]

Arroz com feijão no congresso

 

Este novo sistema é composto principalmente de:

          Compra direta dos agricultores familiares pelo preço de mercado. Desta maneira, em julho de 2004, já haviam sido adquiridas 3 mil toneladas de feijão. O governo federal garante, portanto, o preço de mercado, maior do que o preço mínimo.

          Também está em fase implantação um sistema de compra antecipada da safra (futura). Nesse caso não há necessidade de crédito via bancos. Em 2003, havia cerca de 50 mil famílias envolvidas neste tipo de compra.

Para o governo, estes são dois instrumentos fundamentais para garantir renda para os agricultores. Resta a questão de como estas belas leis e teorias continuarão a ser colocadas em prática. As últimas notícias que tivemos dão conta de que os produtos da Agricultura Familiar não estão sendo diretamente destinados ao ‘Fome Zero’, o carro-chefe do governo. Por exemplo, a delegação de Wervel visitou, em abril de 2005, a cidade de Constantina. Lá estava iniciando um projeto-piloto que visa utilizar os produtos da agricultura familiar no programa ‘Fome Zero’. Agora, foi constatado que – enquanto governo – é muito mais fácil e ‘barato’ comprar os produtos do agronegócio. Certamente esta questão vai exigir muito trabalho de pressão política da Fetraf.

Arroz e feijão em queda

Em função da ‘Semana Nacional da Alimentação’, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentou, recentemente, uma pesquisa mostrando que os brasileiros estão abandonando seu bom hábito alimentar. Nos últimos cinco anos, o consumo de feijão reduziu em 30% e o de arroz em 23%. A propaganda transmitida pela ‘deusa TV’ certamente deve ter parte da culpa, já que os alimentos básicos são, sistematicamente, substituídos por alimentos com menor valor nutritivo, como bolachas e refrigerantes. Coca-Cola e Pepsi-Cola são onipresentes por aqui (3).

 

Curitiba quer fazer algo a este respeito. Constatou-se que “atualmente, metade dos curitibanos está acima do peso ideal. Da população, 30% apresenta sobrepeso e 20% são obesos”, suspira a nutricionista Ana Maria Malucelli. “Entretanto, ‘arroz e feijão’ formam uma dupla perfeita. Arroz contém um aminoácido que, em contato com um aminoácido que só existe no feijão, resulta numa proteína de excelente qualidade. A proteína é equivalente à proteína que se encontra na carne”, conclui Ana.

Para reforçar esta mensagem, a administração municipal possui 19 ‘Armazéns da Família’ e cinco ônibus que circulam pela cidade e que vendem alimentos a preços populares em 80 pontos de venda no município. Enquanto um pacote de cinco quilos de arroz custa R$ 5,01 no supermercado, no ‘Armazém da Família’ o preço é de somente R$ 4,21. Um quilo de feijão preto custa, normalmente, R$ 2,07 no supermercado e R$ 1,69 nos pontos de venda da prefeitura. Pessoas que recebem até três salários mínimos (em 2005, R$ 900) podem adquirir produtos nestes armazéns.

Na verdade, é um programa que foi criado ainda em 1985, por Jorge Samek. O atual governador, Roberto Requião, era então prefeito de Curitiba. Ao longo dos anos, vários prefeitos adotaram o programa. Esta ação ganha, atualmente, uma nova cor agora que o ‘arroz e feijão’ estão em queda. Estou curioso para saber o resultado desta iniciativa.

O ‘arroz com feijão’ merece mais

Boas notícias da ‘frente’ agrícola? Devido à estiagem do ano passado, frustração da safra de soja, queda nos preços internacionais e taxa de câmbio desfavorável ao dólar, parece que a produção do presente ano agrícola privilegiará um pouco mais o consumo interno. E é justamente o feijão que está em ascensão. O preço está se recuperando e o IBGE estima que a safra de feijão será 23,59% maior do que no ano passado. Eles esperam uma colheita igual ou superior a 1,8 milhões de toneladas de feijão. Para o arroz, as estimativas são mais baixas porque ainda há muito produto em estoque.

O ‘arroz com feijão’ merece ser mais valorizado, sim. A combinação é uma resposta às constantes ‘crises da carne’. Além disso, a ‘pegada ecológica’ desta dupla perfeita é bem menor do que no trio gado, aves e suínos. Fetraf espera do governo que este coloque mais recursos à disposição da CONAB para a armazenagem de produtos da cesta básica, produzidos principalmente pela Agricultura Familiar. Assim, pode-se garantir um preço de referência para a Agricultura Familiar, por exemplo, no Programa Fome Zero.

Será que o Brasil não faria melhor exportando este conhecimento tradicional – arroz com feijão – ao invés de querer, a todo custo, dominar o mercado mundial de carne?!

 

Guarapuava, 3 de novembro de 2005.

 

(1)   Nesta crônica, não vou me aprofundar na discussão teológica/filosófica se estes atos caracterizam um costume, um ritual ou um sacramento.

(2)   Antigamente as pessoas (‘caboclos’: descendentes dos povos nativos com colonizadores portugueses) comiam feijão em, praticamente, todas as refeições. Eles levantavam cedo e, às 5 horas, faziam o café-da-manhã, geralmente composto de café e ‘virado de feijão’, ou seja, feijão com farinha de milho, mandioca e/ou carne, freqüentemente acompanhado de ovo. Em torno das 10 horas: almoço. Às 15horas, o ‘café’, novamente com feijão. Às 18 horas: jantar. Ou seja, o feijão era consumido em todas as refeições ao longo do dia, acompanhado ou não de arroz. No fogão à lenha, durante o dia inteiro, lá estava ela: a panela de feijão. Cada região tem seus costumes. Em Minas Gerais são outros produtos; na Bahia a história é outra, embora o feijão esteja sempre envolvido. Os bóias-frias na lavoura consomem a comida fria. O costume de consumir pão, introduzido na culinária a partir da Europa, é estranho para eles. Graças a este alimento tradicional, a obesidade junto à população mais humilde era praticamente desconhecida.

[foto 9]

Coca-Cola, Fast Food e TV

 

(3)   No momento em que escrevo esta crônica, recebo de Jan Reyskens, colaborador de Wervel, a seguinte circular eletrônica:

 

Vale a pena ler. Pessoas sensatas com certeza lerão este e-mail:

“Água ou Coca”: a escolha é sua…

 

Água

Uma pesquisa da Universidade de Washington demonstrou que um copo de água é capaz de reduzir a sensação de fome durante a noite para praticamente 100% das pessoas que seguem uma dieta. A falta de água é a principal causa de cansaço ao longo do dia. Diversas pesquisas demonstram que, para 80% das pessoas com dores nas costas e nas articulações, a dor diminui consideravelmente pela ingestão de oito a dez copos de água por dia. Uma redução mínima de 2% de água no organismo pode ser a causa de incoerência da memória curta recente, problemas na realização de cálculos e redução de concentração no trabalho em computador ou na leitura de um texto. A ingestão de cinco copos de água por dia diminui o risco de câncer no intestino em 45% e pode reduzir o risco de câncer de mama em 79%.

Você ingere diariamente a quantidade de água que seu corpo necessita?

Coca-Cola

Em diversos estados nos Estados Unidos da América, os patrulheiros rodoviários levam um estoque de Coca-Cola para lavar o sangue do asfalto após um acidente.

Se você colocar um osso num copo de Coca-Cola, ele se dissolve quase completamente em apenas dois dias. Para limpar o vaso sanitário: despeje uma lata de Coca no vaso, deixe descansar por um tempo e puxe a descarga. Todas as manchas desaparecerão… O ácido da Coca-Cola também é perfeito para remover manchas em pratos, bolsas, … Para remover manchas de ferrugem em áreas cromadas (por exemplo, o pára-choque de seu carro), esfregue o local com um pedaço de papel-alumínio mergulhado em Coca-Cola. Manchas de corrosão de vazamentos de baterias de carros podem ser solucionadas despejando-se uma lata de Coca-Cola sobre as mesmas. Para eliminar manchas de gordura das roupas, é suficiente derramar uma lata de Coca-Cola na máquina ao lavá-las. Em seguida, lavar normalmente. O ácido da Coca-Cola ajuda a dissolver a gordura. Coca-Cola serve até para limpar o pára-brisa do carro!

Para sua informação: a substância ativa responsável por tudo isso é o ácido fosfórico. Ela tem um pH de 2,8 e pode dissolver um pedaço de unha em cerca de quatro horas. Além disso, o ácido fosfórico retira cálcio dos nossos ossos e é uma das principais causas do aumento de casos de osteoporose. Há alguns anos foi realizada uma pesquisa, na Alemanha, para descobrir as causas de osteoporose em crianças de dez anos (que são raros). Resultado: consumo excessivo de Coca-Cola, por falta de controle pelos pais. Todos os caminhões que transportam Coca-Cola exibem o aviso: ‘substância perigosa’. Distribuidores de Coca-Cola já utilizam a Coca, há cerca de 20 anos, para limpar o motor de seus caminhões. Mais um pequeno detalhe: Coca-Cola Light é considerada, por médicos e pesquisadores, uma ‘bomba-relógio’ ainda mais perigosa por misturar Coca-Cola com aspartame (adoçante artificial) e é suspeita de ser a causa de Lupus e degeneração do sistema nervoso. E, para encerrar, mais uma dica: nunca escove seus dentes após tomar Coca-Cola. Você removerá todo o esmalte de seus dentes, para sempre!

E o que o senhor deseja… Coca-Cola ou água??? Não esqueça de enviar esta mensagem a todos os seus amigos. Eles ficarão gratos, bem como seus filhos, no futuro!

 

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