Anna Kingsford

Não sei o que me choca mais quanto à ética desta questão: a injustiça, a crueldade ou a nojeira da carne. A injustiça é para com os magarefes, a crueldade para com os animais e a nojeira diz respeito aos consumidores. Com relação a este último ponto em particular, me admira muito que pessoas refinadas – sim, até decentes – não se sintam insultadas ao se lhes oferecer, rotineiramente, porções de cadáveres como comida! Tais comidas podem talvez ser toleradas em situações de estado de sítio, ou em tempos de privação de alimentos apropriados, em circunstâncias excepcionais, mas no meio de uma civilização capaz de produzir em abundância alimentos sãos e deliciosos, deveria considerar-se uma afronta o fato de se colocar um defunto diante do hóspede!  

A carne animal pode engendrar diretamente muitas doenças dolorosas e repulsivas. A própria escrófula, esta fecunda fonte de sofrimento e morte, provavelmente deve sua origem a hábitos carnívoros. Um fato curioso é que a palavra escrófula seja derivada de scrofa, porca. Dizer que alguém tem escrófulas é dizer que sofre do mal do suíno.

Considero o movimento vegetariano o mais importante movimento de nossa época. Acredito nisso porque vejo nele o começo da verdadeira civilização. Minha opinião é que até o presente momento não sabemos o que significa civilização. Quando olhamos para os cadáveres dos animais, sejam inteiros ou cortados – que com molhos e condimentos são servidos em nossas mesas – não pensamos no horrível fato que precedeu esses pratos; e, não obstante, é algo terrível saber que a cada refeição que fazemos foi a custo de uma vida. Sustento que devemos à civilização a elevação de toda aquela classe profundamente desmoralizada e barbarizada de pessoas – açougueiros, boiadeiros e todos os outros envolvidos nesse negócio deplorável. Milhares de pessoas são degradadas pela presença de abatedouros em suas vizinhanças, o que condena classes inteiras a uma ocupação aviltante e desumana. Aguardo pelo tempo em que a consumação do movimento vegetariano tenha criado homens perfeitos, pois vejo nesse movimento o alicerce da perfeição. Quando percebo as possibilidades do vegetarianismo e as alturas a que ele pode nos elevar, me sinto convencida de que ele se provará o redentor do mundo. [Anna Kingsford – citado por Samuel H. Hart, em In Memoriam Anna Kingsford. Este livreto contém o texto completo, com adendos do autor, da palestra proferida por ele para a Sociedade Vegetariana de Leeds, em 15 de setembro de 1946, na comemoração do Centenário do nascimento de Anna Kingsford.]

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