Animais brutalizados – Milton Martins


06/05/2006
Não me parece que em tempo algum a morte violenta esteve tão banalizada tanto na hora do almoço, como na hora do jantar. Claro que as guerras passadas ceifaram a vida de milhões de soldados, nessa luta “sem razões”, que não fosse a busca insensata pelo poder, pela dominação de povos e conquista de territórios, aspirações de grandes líderes providos de pequenas almas.

Mas, a despeito da carnificina que se sofistica entre o homo sapiens, não posso me omitir sobre um artigo do “Estado” do último 23 de abril, assinado pela colunista Regina Schöpke que produziu excelente resenha do livro do filósofo Tom Reagan, denominado “Jaulas Vazias”. O livro que trata da crueldade que se pratica contra os animais, tem no autor um defensor daquilo que “chama de uma consciência animal, ou seja, desse despertar do homem para a sua própria condição ou parte da natureza”, qualificando-se o escritor, então, “porta-voz daqueles que não podem falar e que, em função disso, tornaram-se escravos de nossas necessidades e comodidades.”

Refere-se a articulista às freqüentes referências ao gênio Leonardo da Vinci contida no livro, porque, “afinal ele, que desde criança tornou-se vegetariano por não suportar as atrocidades que se cometiam, dizia que o homem transformou seu estômago num túmulo para todos os animais”.

Há um sentido antropofágico se se considerar a evolução da própria espécie humana , porque “Darwin estudou tais emoções (dos animais e sobre isso nos referiremos mais à frente) e, mais do que isso, ele foi o primeiro cientista a desferir um golpe profundo em nossa arrogância ao mostrar que nossa espécie evoluiu de outras inferiores e que somos apenas animais, ainda que muito inteligentes” (!?).

Recentemente me veio às mãos um vídeo que não consegui chegar ao final, que mostra a brutalidade que se comete contra os animais, os frangos prestes a serem abatidos e os bois no “corredor da morte”, antes da pancada na cabeça, que ao perceberem o que se passa, aguçando o sentido da sobrevivência, relutam em prosseguir e são empurrados por choques elétricos.

Algumas crueldades, entre outras, relatadas pela revista “Super Interessante” de 09/2003:

A vitela é a carne de um bezerro anêmico que passa os seus cinco meses de vida em um cercado minúsculo, impedido de se mover, para a carne ficar macia;
Bichos com pele valiosa não dão cria em cativeiro e são caçados, permanecendo dias com as patas dilaceradas, presas em armadilhas. A pele costuma ser retirada com o animal ainda vivo;
Galinhas poedeiras vivem espremidas sob luz quase ininterruptas para que comam e botem sem parar; os bicos são cortados para evitar o canibalismo.

Mais esta, segundo relato extraído do livro resenhado:
“Assim como amontoar cães e gatos em gaiolas, como fazem certos restaurantes da China, para que eles sejam escolhidos pelos fregueses e mortos na hora, só se explica por uma brutalização maior do homem, já que nem os animais que se tornaram nossos mais fiéis companheiros são poupados”.

Do ponto de vista do divertimento, as abomináveis e covardes touradas que colocam o touro em total desvantagem e, com facas afiadas, vai sendo enfraquecido na sua resistência ao ser seguidamente espetado no dorso. O toureiro é um covarde, jamais um herói.

De outra parte, muitos são os estudos que garantem não ser a arcada dentária e mesmo o estômago do homem apropriados para a mastigação e consumo de carne.

Mas, qual o preço da vibração cósmica que produz essa brutalidade sem fim? Valho-me, porque acredito, de trecho de um velho (os conceitos são válidos) e pequeno livro editado pela editora “O Pensamento”, de autoria de Cinira Riedel de Figueiredo, “Sabedoria Esotérica”, esquecido há muitos anos na minha estante:

“A falta de respeito aos reinos inferiores da natureza leva o homem a criar mau karma (carma, lei da causa e efeito), e este é o motivo da Humanidade estar vivendo dias cruéis, repletos de moléstias incuráveis, de guerras e desajustamentos”.

Acima me referi à emoção dos animais. Relato um caso que vivenciei: Uma coruja se prendera num arame de antena de televisão, no alto de um sobrado. Tentava se soltar pressionando a perninha no sentido do vértice da forquilha o que cada vez mais a feria. Meu filho, exímio “alpinista”, chegou até ela e a soltou no momento em que já extenuada não mais reagia. Ferida, voou com dificuldade. Tempos depois, pousou num coqueiro de meu quintal, uma coruja sem a perninha esquerda que certamente perdera pela infecção de um ferimento forte. Era sempre bem-vinda. Permanecia horas ali. Não sei se seu instinto revelara que naquele coqueiro, próximo daqueles bípedes enormes que a olhavam e a cumprimentavam, havia segurança ou se no seu pequeno cérebro, sentia algum dever de gratidão pelo seu salvamento. Um dia ela desapareceu. Talvez tenha sido ceifada pelo agravamento da infecção na região da perninha amputada.

Há dez anos, relatei neste Jornal, a emoção que senti diante do olhar manso e doce de agradecimento de uma vaca exposta, com seu bezerrinho, ao sol escaldante após lhes dar de beber. E então proclamara e novamente o faço: “definitivamente não conseguirei mais voltar a comer carne”.

Milton Martins é advogado

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