Angelice Rocha


Angelice Rocha, mineira, 31 anos, advogada da prefeitura de Jacunda (1h30 de Marabá), PA

"Acho que nasci para ser vegetariana", diz. "Parei de comer carne só aos 15 anos, mas antes eu comia porque via os outros comendo. Comia praticamente só peito de frango. Mas parei porque não gosto. Meu paladar nunca aceitou muito bem. Só o cheiro me dá nojo".

Tem horror a carne. Não gosta de entrar em açougue, e nem na cozinha quando a mãe está mexendo com carne crua. "Só o cheiro me faz vomitar. Não falo nada, mas também não gosto de ver as pessoas comendo gordura, algumas carnes de churras. Não gosto do hálito. Na Bahia, eu tinha um namorado que comia carne. Eu mandava ele escovar os dentes antes de me beijar quando tinha comido carne. Ele respeitava. Muitas vezes, nem comia carne quando estava comigo. A maioria dos meus ex-namorados respeitava.".

Angelice nasceu no interior de Minas, passou a adolescência no Espírito Santo, fez faculdade em Ilhéus na Bahia e, agora, mora no Pará. Segundo ela, foi na Bahia onde encontrou maior dificuldade para encontrar opções vegetarianas. "Lá todo mundo põe carne no feijão". A melhor fase foi a que, depois de formada, morou em Belo Horizonte. Diz que lá encontrava vários restaurantes vegetarianos. Todos com muitas opções de pratos.

Atualmente mora com os pais e o irmão em Jacunda, no interior do Pará. Na cidade, não há muitas opções para vegetarianos. Só ela é vegetariana na família, mas a mãe faz pratos especiais. "Minha sorte é que minha mãe é boa para fazer pratos vegetarianos". Nos supermercados da região, segundo ela, além de encontrar uma variedade razoável de verduras, já tem outras alternativas, como carne de soja. Ela gosta muito da almôndega de soja que a mãe prepara. Mas, no geral, diz que não gosta muito de comidas que imitem carne.

No início, não tornou-se vegetariana por causa dos animais. "Mas fui criando pena, me conscientizando. Tenho pena de ver matando, mas não sou militante." Não come gelatina. Se, por um acaso, descobre que tem gelatina na composição de algum alimento, fica com nojo e pára de comer. Olha sempre os ingredientes. E há carne nos produtos mais insuspeitos. "Outro dia fui olhar os ingredientes de um molho de soja e vi que tinha caldo de peixe. Por isso que eu olho sempre."

"O que eu detesto é que as pessoas ficam insistindo para eu comer. Acontece muito. Por isso, nem gosto de comer fora de casa. Quando vou à casa de alguém, a pessoa fica toda incomodada em me fazer algo diferente. Aqui no Pará, a carne é um dos ingredientes mais baratos. Ou as pessoas te taxam de esquisita ou ficam tentando te agradar."

Já aconteceu mais de uma vez de lhe darem alguma comida que tivesse carne entre os ingredientes. "Uma vez eu vi um pastel e perguntei do que era. O sujeito disse que era de queijo. Então, eu pedi um. Veio queijo com presunto. Cuspi tudo na hora e disse que não iria pagar. As pessoas acham que você é chata, implicante."

"Para ser sincera, não tenho nenhum amigo vegetariano. No interior, é mais raro. Na capital, o pessoal acha até normal." No Orkut, Angelice fez novos amigos que têm preferências como as suas, gente que é vegetariana pelos mais diversos motivos. "Hoje parece que está mais em voga."

"Tem gente que acha bonito ser vegetariano. Coisa de intelectual. É como se você estivesse um nível acima dos outros. Acham que é estilo de vida de pessoas mais cultas, inteligentes. Já ouvi várias vezes: 'Eu gostaria tanto de ser vegetariano, mas não consigo'. Vejo gente que foi vegetariana por dois anos, depois voltou a comer carne."

"Para a saúde, não sei se é muito bom. Sempre tenho um pouquinho de anemia. Mas não tomo suplementos. Só vitamina B12. Aqui no Pará, também fica difícil ter uma orientação de nutrição e suplementação. Além disso, no supermercado, não se acha uma variação grande de frutas e verduras fresca. Adoro brócolis e couve-flor. Não é todo dia que encontro. Fruta só tem laranja, banana e maçã. Das nativas, gosto muito de açaí. Esse tem bastante. Encontro também cupuaçu. Mas não é tão fácil encontrar os produtos locais. Castanha-do-Pará, por exemplo, é super difícil. Quando encontra um hambúrguer vegetariano, está quase vencendo." Em um dos hemogramas de controle que fez, estava anêmica. "o médico queria a todo custo que eu comesse fígado de boi. Falei que ele estava louco. Não como nem carne comum."

  Fonte: Época

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