Álcool no tanque

Atualmente, a soja e todo o agronegócio estão em declínio. Estima-se que neste ano haverá uma redução de 2 milhões de hectares. Os agricultores não querem arriscar o investimento e, além disso, estão trilhando caminhos perigosos. Como as sementes certificadas são muito caras, eles freqüentemente compram sementes ‘piratas’ de soja, o que pode colocar toda a safra em perigo. As sementes ‘pirata’ são 50% mais baratas do que as sementes certificadas. Por isso, a participação destas últimas diminuiu de 90% (em 2002) para 66% (em 2004).

Os preços de todas as commodities estão sob pressão. As grandes exceções são o açúcar e o álcool. Isto está muito relacionado com a tendência internacional de fazer os veículos usarem o assim chamado ‘combustível verde’. O Brasil – que já tem experiência desde a década de 70 com o programa de álcool em larga escala – vê, agora, a oportunidade de ocupar este espaço. No noroeste do Paraná surgem novas usinas e elas usam estratégias agressivas para convencer os agricultores a cultivar cana-de-açúcar. Para pagar o arrendamento de suas terras, eles utilizam os preços garantidos nos contratos de cultivo para as usinas de açúcar e álcool. Não são somente os produtores de soja que fazem a mudança; os pastos para gado de corte também estão sendo convertidos em lavouras de cana-de-açúcar. Cenários semelhantes se desenrolam, por exemplo, em Goiás. O governo deseja que lá sejam implantadas, o mais rápido possível, 11 novas usinas. No norte do Espírito Santo, a produção de cana-de-açúcar está sendo quintuplicada. O Protocolo de Kyoto, em sua busca internacional por ar puro, faz com que a febre do álcool se espalhe por todo o Brasil sem, necessariamente, modificar o comportamento dos motoristas e impor uma redução nas indústrias de veículos. Além dos problemas ambientais da monocultura com seus ‘desertos verdes’ ainda resta a questão de se as emissões de veículos que utilizam etanol realmente são tão ‘limpas’. Marc Z. Jacobson, da universidade norte-americana de Stanford afirma: “Nos gases residuais de combustão do etanol há menos benzeno e butadieno, mas aumenta o conteúdo de formaldeído e acetaldeído. O produto E85 (85% de etanol e 15% de gasolina) produz uma quantidade significativamente maior de ozônio e apresenta maior risco de formação de smog[1] (1).” A inalação de ozônio leva ao desenvolvimento de problemas respiratórios crônicos e causa danos ao sistema imunológico. Ou seja, é necessário adaptar melhor os motores ao uso de etanol ou estaremos trocando seis por meia dúzia.. ‘Mais mortes e milhões de hectares de terra ocupados com etanol versus aquecimento global provocado pela gasolina: é como optar entre a peste e a cólera.’

 

[Foto 6]

Do ‘deserto’ de soja para o ‘deserto’ de cana-de-açúcar?


[1] Smog palavra inglesa que combina as palavras inglesas “smoke” e “fog” (fumaça e neblina).O smog ocorre quando a poluição ocorre em combinação com gotículas de vapor de água. Fonte: <http://www.ecologica.com.br/airp0dic.htm>. Consultado em jan. 2008.

Please follow and like us: