Agricultura de havaianas

Luc Vankrunkelsven

O Brasil possui alguns produtos bem típicos, pelos quais o país é conhecido mundialmente.

Acho que o primeiro lugar é ocupado pela cachaça e pela caipirinha.

Desde o século XVI, este subcontinente mantém grandes plantações de cana-de-açúcar. O Brasil é o maior produtor e exportador de açúcar para o estômago e de álcool de cana para os carros. Esta exportação é resultado, exclusivamente, do que aqui é chamado de ‘agricultura patronal’. É ela que controla 90% da produção de açúcar. A agricultura familiar é responsável por 10% do açúcar, mas este não é exportado e sim transformado em diversos produtos para consumo próprio ou em diversos doces para consumo regional.

Cachaça e caipirinha 

Com toda esta abundância de cana-de-açúcar, a aguardente também é destilada de cana. Cachaça! Existe a cachaça industrial e aquela obtida de modo artesanal. A destilação desta bebida é encontrada tanto nas cooperativas do MST quanto entre os agricultores da Fetraf. Obviamente, é tudo artesanal.

Em qualquer restaurante também é possível degustar o aperitivo nacional: a ‘caipirinha’. ‘Caipira’ significa ‘rústico’, rural. Os ingredientes da caipirinha são muito simples: cachaça, gelo, açúcar e limão. O engraçado é que, no Brasil, a bebida é muito barata e, quanto ao sabor, um néctar dos deuses, enquanto na Europa, ela custa os olhos da cara e o sabor, na verdade, não é muito bom. Pelo jeito, é necessário estar num clima (sub)tropical para apreciá-la.

Nos últimos anos, também se encontra freqüentemente a ‘caipiroska’. A mesma bebida, só que com vodka, que é feita de cascas de batata, também cultivadas aqui. Tanto a cachaça quanto a vodka são tomadas puras por muitos homens. É isto que observo aqui em Guarapuava quando – após passar um dia inteiro atrás do computador – saio para tomar uma cerveja num boteco. Para meu espanto, lá estão sempre os mesmos homens bebendo sua vodka. É que Guarapuava fica na região na qual os japoneses, na década de 1970 do século XX, iniciaram o plantio de batata.

Havaianas

E o que mais é tipicamente brasileiro e que não está relacionado com samba ou carnaval?

Bem, são as havaianas! Quem é que não conhece, os chinelos de dedo, feitas 100% com borracha? Simples, mas muito resistentes.

[foto 16]

Havaianas

 

Você vê pessoas usando havaianas na praia, em casa e no quintal, nas cidades e no campo.

No campo: é aqui que eu queria chegar. O que é que as ‘havaianas’ têm a ver agricultura?

Bem, como você sabe, aqui há dois modelos agrícolas em permanente tensão: a agricultura familiar e a agricultura patronal.

Em uma das crônicas anteriores, eu utilizei a metáfora da violência do trânsito e do elemento mais vulnerável, o pedestre, que é empurrado para fora da estrada. Outra metáfora poderia ser: a ‘agricultura de havaianas’, atropelada pela ‘agricultura de botas’.

Quando visito as famílias de agricultores, chama minha atenção quantos deles estão com este calçado leve e simples. É claro que eles possuem outros calçados, dependendo do trabalho, mas mesmo assim… Este calçado leve representa o contato com a terra. E muitos devem preferir andar descalços, principalmente dentro de casa.

Formam um contraste gritante à tradição de cowboy: o homem que, montado em seu cavalo, controla os negócios e olha de cima para baixo.

Nunca esqueço da foto de Blairo Maggi, numa entrevista no ano passado para o jornal Folha de S. Paulo. Aquela, do maior sojicultor do mundo, com seus 150 mil hectares de lavoura de soja. O homem que também é governador do Mato Grosso e fala, abertamente, de seu sonho de ser presidente do Brasil.

Na entrevista ele criticava o governo federal e a legislação, que querem impor-lhe algum limite. Uma botina de couro, ricamente enfeitada, está sobre sua mesa, como um símbolo da resistência dos empresários e fazendeiros às preocupações ambientais, sociais e outras. Ele conclamou a formação de uma ‘frente da botina’! A botina, a bota, representando a sede incontrolável de conquistas, à qual tudo e todos devem ceder. Só o que interessa são o lucro e o aumento anual da área cultivada (1).

Quando vejo esta imagem, lembro de grandes painéis publicitários, em Bruxelas [Bélgica]. Um tênis da Reebok, representado como um tanque de guerra, que chega ao planeta Terra para, em seguida, dominá-lo. ‘Planet winners [Vencedores do planeta]’, dizia o anúncio, sem ambigüidade. A ocasião me inspirou uma reflexão na TGL [Revista para a Vida Espiritual]: ‘A espiritualidade da sandália’(2).

Postura básica

Cavalgar de havaianas e bermudas não é fácil. Para isso são necessárias botas e calças compridas, de couro. Dirigir uma 4 x 4 de havaianas também não dá. É até proibido. Para isso, é necessário um calçado mais resistente. Será que os 4 x 4, em ascensão, não são os cavalos de antigamente? No trânsito, eles também não olham o povo humilde de cima para baixo?

Não, sandálias e havaianas simbolizam um outro estilo de vida. Outros valores, outras relações. Simbolizam o contato com a terra e com o próximo. Elas simbolizam uma postura cautelosa, humilde, sem excesso de altivez. Elas simbolizam uma agricultura diferente, cuidadosa, inserida no todo maior que nos envolve e que não conseguimos compreender integralmente. Será que é por isso que ‘havaianas’ é feminino? Ou será que é só porque são ‘as sandálias havaianas’?

 

Perto do burro e do boi ainda dá para usar havaianas. Será que é por isso que ambos figuram na história do Natal, contada há muitos séculos? O burro, como animal de carga do pobre e próximo dele. O boi simbolizando o contra-ponto do onipotente touro, que arrasa com tudo.

 

Guarapuava,

10 de dezembro de 2005, Dia dos Direitos Humanos e dia mundial de mobilização contra a OMC, antevéspera da grande conferência da OMC, em Hong Kong, de 13 a 18 de dezembro de 2005.

 

Postscriptum:

À noite, no bar, converso com meu companheiro de trago sobre ‘sandálias’: “Acabo de escrever uma crônica sobre suas havaianas.”

“É”, suspira ele. “Aqui você pode comprá-las por três dólares, mas elas também são exportadas para a Europa. Lá, você paga 28 dólares pelas nossas havaianas brasileiras.”

Será que levar uma vida mais cautelosa precisa custar tanto na Europa?

 

 

(1)   Como representante mais ilustre do agronegócio brasileiro, Blairo Maggi consegue, com sucesso, aparecer regularmente nos jornais. Numa entrevista marcante à Folha de S. Paulo, publicada no dia 26 de abril de 2007, ele afirma ter mudado em função do último relatório da Comissão das Nações Unidas sobre Mudança do Clima: “Maggi ‘verde’ defende floresta nos EUA”. Que tal sair do discurso e partir para a prática?

(2)    De spiritualiteit van de sandaal’ [A espiritualidade da sandália], em Tijdschrift voor Geestelijk Leven – TGL [Revista para a Vida Espiritual], jan./fev 1994-1, p. 21-31.

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