Agricultura, água e fome

Mergulhada em controvérsias e polêmicas, na próxima semana a Organização Mundial para a Alimentação e Agricultura (FAO), da ONU, comemorará o Dia Mundial da Alimentação.

Uma das polêmicas se deve à indignação provocada algumas semanas atrás, quando a FAO terminou uma Cúpula Mundial da Alimentação, em Roma, que discutiu o problema da fome no mundo, convidando centenas de pessoas para um almoço com finas iguarias – até caviar – e requintados vinhos, que custou centenas de dólares por pessoa. Outra polêmica se deve à insistência do diretor-geral da FAO, Jacques Diouf, em convencer vários países africanos (ZimbábUe, Zâmbia, Malavi, Moçambique, Lesoto e Suazilândia) a aceitar ajuda norte-americana, desde que em alimentos transgênicos, para socorrer 14 milhões de vítimas da seca.

Na recente Cúpula Mundial para o Desenvolvimento Sustentável, na África do Sul, já houvera enorme constrangimento quando o chefe do governo da Namíbia, aos gritos, exigiu na sessão plenária que Estados Unidos e Inglaterra abandonassem essa condição – apontando o dedo em riste para o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, que, a poucos passos da tribuna, fazia de conta que não via nem ouvia essa e outra exigência: que a Grã-Bretanha não mais enviasse seu chefe de governo ao Zimbábue para "defender os colonos brancos que detêm 70% das terras, enquanto milhões de negros morrem de fome".

O mais curioso é que a insistência em forçar africanos a receber transgênicos ocorre no momento em que um relatório do próprio Departamento de Agricultura dos Estados Unidos admite que a maior parte das prometidas vantagens econômicas do cultivo de transgênicos não corresponde à realidade ou ainda deixa muitas dúvidas. Segundo o Serviço de Pesquisa Econômica daquele departamento, no estudo Adoção de Cultivos Bioengenheirados, "talvez a maior questão levantada por estes resultados seja a de explicar a rápida a doção dos cultivos de transgênicos (nos EUA) quando os impactos financeiros na agricultura parecem confusos ou mesmo negativos".

Não é só o Departamento de Agricultura. Um estudo da Universidade de Iowa, também nos EUA, diz que mais da metade dos agricultores que plantavam soja transgênica acreditava que a produtividade era maior com esse método. Mas a análise da universidade mostrou que as variedades transgênicas produziam menos. Outro estudo da mesma universidade concluiu que não há diferença de custos entre plantios transgênicos e convencionais – mas estes são mais lucrativos, porque mais produtivos.

São questões cruciais no momento em que se discute o futuro da agricultura e a dramática questão da fome no mundo.

O tema do Dia Mundial da Alimentação na próxima semana será "a água, fonte da segurança alimentar".
 
Garante a FAO que até 2030 a necessidade de alimentos no mundo aumentará 60% e que 80% desse aumento terão de vir da agricultura irrigada (que já responde por 70% do consumo total de água no mundo).

Estudo recente da mesma FAO em 93 países em desenvolvimento mostrou que em muitos deles as reservas hídricas já estão sendo consumidas mais rapidamente do que podem ser repostas (calcula-se que 40% dos alimentos no mundo já sejam produzidos nessas condições). Em dez desses países, a situação é considerada crítica, e em outros oito a escassez é acentuada.

O quadro levou a FAO a preconizar a substituição urgente de métodos de irrigação no mundo, para que sejam adotados sistemas mais eficazes que a inundação ou a aspersão, ambos desperdiçadores (no Brasil, a agricultura rejeita métodos mais econômicos, como o gotejamento, sob a alegação de que é mais caro). Em muitos países, o recomendável seria a implantação de sistemas de retenção de águas de chuvas (como as cisternas subterrâneas recomendadas para o Nordeste brasileiro pela Caritas ou as microbarragens encadeadas para refertilização de patamares, um sistema criado em Pernambuco pelo engenheiro José Arthur Padilha).

Segundo esse órgão da ONU, em 2030 poderá até haver alimentos suficientes para todos os habitantes do mundo, que deverão estar chegando aos 8 bilhões. Mas a distribuição dos alimentos continuará (como hoje) injusta, porque muitos países e centenas de milhões de pessoas não têm como comprá-los (são mais de 800 milhões de pessoas que passam fome; neste momento, só na Eritréia, mais de 1 milhão de pessoas correm risco de vida com a seca).

O aumento do consumo, dizem os estudos da FAO, seguirá à razão de 1,1% ao ano. Nas últimas décadas, foi de 1,7% ao ano, mas chegou a 3,7% ao ano nos países industrializados (que enfrentam o drama da obesidade). O consumo médio de calorias passará dos 2,8 mil por pessoa/dia de hoje para 3.050.

Nos países em desenvolvimento, o consumo médio de carne subirá de 26 quilos ao ano por pessoa para 37 quilos em 2030. O de leite e derivados, de 45 quilos anuais por pessoa para 66.

Com tudo isso, a produção de cereais (para consumo direto e em rações) precisará crescer 1 bilhão de toneladas anuais. E os países em desenvolvimento terão de importar pelo menos uns 15% de suas necessidades. Além de expandir a área de produção – o que exigirá muito mais desmatamento e comprometimento do solo. E problemas com as bacias hidrográficas, já que a irrigação terá de expandir-se em pelo menos 40 milhões de hectares.

Equação complicada, que será ainda mais agravada por possíveis conseqüências de mudanças climáticas na agricultura, assim como pelo progressivo esgotamento de estoques pesqueiros, que também afetará a alimentação no mundo.

Tudo isso deveria levar o Brasil a repensar suas estratégias, suas metodologias na agricultura e na irrigação (principalmente adotando sistemas menos desperdiçadores de água). Mas quem esteja preocupado com isso? A Aneel não acaba de alterar a Portaria 105, do antigo DNAEE, e a Resolução 456/00, para ampliar os períodos em que haverá descontos especiais nas tarifas de energia elétrica para irrigação – sem exigir nenhuma contrapartida, nenhuma mudança nos sistemas?

Washington Novaes é jornalista

 

Washington Novaes

O Popular (GO) 10/10/2002

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