Achados ou Perdidos – Traveling Wilburys

"Porque nem todas as famílias são iguais

Achados e Perdidos

Se de repente ao abrir essa página um cheiro de naftalina se juntou a uma peculiar e nada saudável camada poeirenta ao seu redor não se assuste, começa aqui a coluna "Achados ou Perdidos" que como já deve ter ficado claro, trará a tona algumas preciosidades que deveriam ser achadas assim como ecos vergonhosos de um passado que deve ser perdido… a matéria prima aqui são trabalhos que um dia já foram o centro do universo pop/rock internacional, mas que hoje se encontram escondidos em estantes atulhadas nesse mundo que cada vez mais se assume um neófito incurável…

 

 

 

 

 

 

Revisitando antigos discos perdidos e quase jogados as traças na memorabilia nossa de cada dia, me deparei com uma sumária personificação do talento em forma de vinil, algo que nos finais dos anos 80 ficou conhecido como "Traveling Wilburys" e que por sinal não deveria ser encarado como uma velharia do fundo do baú já que sua história na linha cambaleantemente reta do rock não é assim tãaaao antiga (note a ênfase)!  

No entanto, vivemos numa época em que quem nasceu nos anos 90 hoje vive seus 17 anos, o que nos dá medo porque é um indicativo de que o tempo passa e passa rápido, assim como perceberam os membros do supergrupo mais bem sucedido da história, e por que eu dou tamanha declaração com tanto descaramento? Porque simplesmente é a verdade!

Os "Traveling Wilburys" foram originalmente criados pelo notório ex-Beatle George Harrison e pelo produtor musical e idealizador do grupo Electric Light Orchestra, Jeff Lynne. Inicialmente, sem grandes pretensões, ambos se reuniram aos mais que conhecidos Roy Orbison e Tom Petty no estúdio de Bob Dylan em Santa Mônica (CA) com o objetivo simplório (mas não menos notável) de gravar uma b-side ao single "This is Love" que seria lançado por George Harrison. Esse modesto primeiro passo culminou na sensacional "Handle with Care", faixa de rock de raiz, com Harrison assumindo os vocais e sendo ajudado por Roy Orbison nos pré-coros e o resto dos futuros Traveling Wilburys cantando em coro, em sincronia a voz de Harrison…  

Percebendo a afinidade entre os músicos-parceiros, a Warner Bros imediatamente sugeriu que eles fossem além de uma simples b-side e avançassem num projeto mais encorpado, e possivelmente mais rentável. 

Como os cinco imediatamente perceberam que seria um trabalho por demais agradável, concordaram em criar o supergrupo escrevendo e gravando algumas canções ainda despretensiosos quanto a grandiosidade do projeto. E tudo isso em menos de 10 dias já que as agendas de todos, especialmente a de Bob Dylan, não estavam tão sincronizadas quanto seu talento musical compartilhado. 

O nome "Wilburys" foi uma gíria cunhada por Harrison e Lynne durante a criação de "Cloud Nine" como referência a supostos "gremlins" que habitavam o equipamento de som durante o processo de gravação (obviamente, Harrison ainda estava sob efeito da fase mais lisérgica dos Beatles, o barato duraria até o final dos anos 80). O termo foi usado novamente quando o grupo inteiro estava gravando junto e foi aí que o ex-Beatle sugeriu o futuro nome da banda "The Trembling Wilburys" (algo como "Os Trêmulos Wilburys"), no entanto a voz da razão (provavelmente todos eles versus Harrison) sugeriu que a palavra "Traveling" (os viajantes) seria mais adequada ao espírito folk-rock da banda. 

Em clima de brincadeira, o "Traveling Wilburys vol. 1" foi lançado em outubro de 1988 sob os pseudônimos de meio-irmãos, filhos de um suposto Charles Truscott Wilbury, que viajavam juntos pelo mundo como uma espécie incomum de família Do-ré-mi com talento e para adultos. O "Traveling Wilburys Vol. 1" foi em 1989 colocado na posição número 70 no rank dos melhores 100 álbums da década pela Revista Rolling Stone. 

No entanto, antes mesmo de poder prestigiar o recém sucesso, Roy Orbison deixou a banda, os Wilburys e o mundo quando faleceu em 6 de dezembro de 1988 depois de um ataque cardíaco fatal, ainda assim, o show precisava continuar e os falsos irmãos continuaram sem o talento de um dos pioneiros do rock. 

Depois da morte de Orbison houve a especulação de que a banda continuaria na companhia de Del Shannon, também um pioneiro rock and roller que lançou seu primeiro trabalho em 1961, mas que não chegou a integrar a família musical pois em fevereiro de 1990 cometeu suicídio com seu rifle calibre .22. A parceria acabou antes de começar e o tiro não saiu pela culatra… 

Entre o lançamento do vol. 1 e do futuro vol. 3 (explicações mais a frente), os Wilburys lançaram um single chamado "Nobody´s Child", criada para chamar a atenção para crianças órfãs da Romênia, um clássico exemplo dos supergrupos usando sua influência em prol da nobreza ou pelo menos é nisso que preferimos acreditar. 

O segundo álbum oficial intitulado "Traveling Wilburys Vol. 3" foi lançado ainda em outubro de 1990, no entanto não foi tão bem sucedido quanto sua primeira versão, algo atribuído obviamente a ausência de Orbison, que… sim, fez falta em suas intervenções vocálicas tão bem colocadas no vol. 1, mas que de fato não fez do vol. 3 um álbum menor ou de menor qualidade, pelo contrário, o nível continuava alto, uma lição a ser aprendida pelas tentativas de supergrupo que tentam emplacar nos dias atuais. 

Mas por que "demônios" os Wilburys pularam do Vol. 1 para o Vol. 3? Seria alguma implicância místico-numerológica de George "O rei da citara" Harrison? Talvez… ainda assim a explicação mais próxima da realidade é de que alguns (e possivelmente o próprio grupo) consideram que o álbum solo de Tom Petty "Full Moon Fever", lançado pouco antes do Vol. 3 seja considerado o Vol. 2 (mas por que isso? Simplesmente porque o igualmente excelente "Full Moon Fever" possui participações dos meio-irmãos – Lynne, Harrison e o próprio Orbison) . Outra teoria, reforçada por um número infindável de bootlegs que surgiram na época, era de que um vol. 2 havia sido construído de forma não-oficial com a ajuda de mixagens de estúdio e versões alternativas durante a gravação do primeiro disco. Mas, para honrar a morte de Roy Orbison, os meio-irmãos decidiram por não lançar o projeto já que Orbison o havia capitaneado antes de morrer. 

Um terceiro motivo, bem menos nobre, foi dado por George Harrison que alegou durante uma entrevista que todo o material do Vol. 2 havia sido roubado antes de ser completado e… o mundo então ficaria sem o conturbado "segundo" disco. 

Os dois álbuns originais dos "Traveling Wilburys" não são exatamente materiais fáceis de se encontrar já que não foram lançados em vários países graças a conflitos de direitos autorais entre os vários membros da banda e a viúva de Roy Orbison. No entanto, Tom Petty anunciou recentemente que será lançado um DVD com as filmagens da gravação e contendo inclusive algumas bônus tracks no dia 11 de junho de 2007, o que foi confirmado em fevereiro pela Q Magazine numa entrevista com Jeff Lynne. 

Destaque final para o fato desse "super" grupo ser seguramente a única formação de cinco guitarristas que não só se reuniu como foi muito bem sucedido. E por que eu disse no começo que eles eram consideravelmente o supergrupo mais bem sucedido da história? Porque começaram sem a pretensão de sê-lo. Diga-se de passagem… em tempos de "The Good, The Bad and The Queen", uma pretensiosa tentativa de supergrupo comandada pelo multi-talentoso Damon Albarn, os "Traveling Wilburys" são realmente um achado! 


Da Esq p/ Dir: Lucky, Otis, Charlie, Nelson e Lefty (in Flickr)

por Denis Pacheco

Os "Wilburys" do Volume 1 foram:

Nelson Wilbury – George Harrison
Otis Wilbury – Jeff Lynne
Lefty Wilbury – Roy Orbison
Charlie T. Jnr. – Tom Petty
Lucky Wilbury – Bob Dylan

Os "Wilburys" do Volume 3 foram:

Spike Wilbury – George Harrison
Clayton Wilbury – Jeff Lynne
Muddy Wilbury – Tom Petty
Boo Wilbury – Bob Dylan

Mais infos: http://www.wilburys.info/

Fonte: http://www.revistaymsk.net/Secoes/Colunas/Achados_perdidos/0407achados.htm 

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