Aborto planetário

Aconteceu novamente: no momento que chego ao Brasil, a inspiração vem à tona. Em Bruxelas, sou absorvido pelas atividades diárias de Wervel, pela internet, pela cidade, pelos cuidados domésticos, pelas muitas pessoas que pedem meu auxílio. Embora as viagens ao Brasil tenham um programa intensivo, com muitos deslocamentos, encontros e palestras de todo tipo, ainda sobra tempo para escrever. Passo muito tempo sozinho e tudo o que vejo, ouço, cheiro… me leva a escrever. 

Excomunhão em defesa do mais fraco 

Tomemos a polêmica do momento, envolvendo uma menina de 9 anos, violentada pelo padrasto, grávida de gêmeos. Por recomendação médica, é realizado um aborto. O fato chega ao noticiário nacional devido ao arcebispo de Recife, sucessor do falecido Dom Hélder Câmara (1). Exatamente cem anos após o nascimento de Dom Hélder, o novo arcebispo excomungou a mãe da vítima de 9 anos e os médicos envolvidos. O violentador não é excomungado, pois a igreja considera o aborto um pecado maior do que o abuso sexual praticado durante anos contra a criança. Na verdade, o cardeal nem precisava anunciar seu veredicto, pois quem comete o pecado do aborto é automaticamente excomungado pela Igreja Católica. Quem comete um atentado contra o papa também. Já um violentador, um torturador, um fabricante de venenos à la Monsanto ou um atirador de bombas não são visados. 

A tradição judaico-cristã defende os mais fracos. É nessa tradição que a Igreja Católica diz se aninhar. A linha mestra dessa tradição é defender os mais fracos, as vítimas. Mas quem é o mais fraco aqui: os gêmeos não nascidos que ameaçam romper o corpo de uma criança de 9 anos? A criança de 9 anos que, bem como sua irmã, foi violentada durante anos?

Eu fico sem palavras e, ao mesmo tempo, furioso com tanta loucura. Também sinto um pouco de gratidão e orgulho pelo de fato de, há mais de 21 anos, vítimas de incesto – mulheres e homens, que sofreram abuso sexual quando crianças – poderem encontrar apoio na Abadia de Averbode (Bélgica), em encontros específicos realizados em fins de semana (2). Pelo jeito, a Igreja é como uma casa com muitos cômodos, com vozes a favor e contra. Aparentemente uma voz tem mais força que outra. Felizmente, a intervenção da CNBB nesse caso amenizou a aplicação automática da punição e declarou a excomunhão da mãe como inexistente. 

Bomba-mãe 

Marcelo Coelho não inicia sua coluna na Folha de S. Paulo (11 de março de 2009) comentando a constatação vulgar do bispo e, sim, a posição do Brasil em relação a bombas de fragmentação. Foi exatamente devido ao trabalho pioneiro de Pax-Christi-Flandres (do mesmo berço de tradição) que surgiu, na Organização das Nações Unidas, um movimento pela proibição mundial de bombas de fragmentação. Coelho constata que, no ano passado, o Brasil foi mero observador na convenção internacional assinada por 94 países, na Noruega (3). O Brasil é um dos países onde se fabricam bombas de fragmentação e que tem, portanto, interesse na continuidade da existência dessa bomba-mãe que abriga centenas de explosivos. De acordo com a Cruz Vermelha, cerca de 400 milhões de pessoas vivem em áreas onde – a qualquer momento – elas podem ser atingidas e mortas por fragmentos de uma bomba “dormente” que ainda pode “fazer seu trabalho”. Isso sem falar dos milhões de hectares de solo agrícola perdidos, não só por causa das bombas que ainda não explodiram, mas também por causa de milhões de minas terrestres. No sudeste da Ásia, há regiões que possuem mais minas do que habitantes. Entretanto, estas são regiões muito populosas e com muita agricultura familiar. 

Ultrapassagem dos Limites da Terra (em inglês, Earth Overshoot Day) (4) 

Podemos aprofundar a discussão. A cada ano muda o “Dia da Ultrapassagem dos Limites da Terra”. Em 1985, ocorreu no dia 31 de dezembro. Em 2008, no dia 23 de setembro. Em 2007, ainda foi no dia 1o de outubro. Em 20 anos, onde é que vamos parar? Dia da Ultrapassagem dos Limites da Terra em 1o de abril? Uma piada (de mau gosto) planetária ou um aborto planetário? Um aborto, não antes do nascimento, mas depois do nascimento de todas as formas de vida!

E quem, então, é  o mais fraco? O ecossistema, no qual os seres – humanos e não humanos – estão inseridos? O planeta Terra, onde ocorrem múltiplos e variados nascimentos? Nascer para morrer ou se extinguir? 

Na mesma Folha li mais duas colunas. Uma do ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc Baumfeld (literalmente, “campo arborizado”: será que ele é a favor do sistema agroflorestal?), sobre a luta do governo para, finalmente, estancar a destruição da Floresta Amazônica. Note bem: estamos tratando do mesmo governo que não consegue proibir a fabricação de bombas de fragmentação.

Logo abaixo, a opinião dos padres James Crowe e Antonio Marchioni, dois defensores do “Movimento Nossa São Paulo” (5). O esforço de 580 organizações conseguiu tornar a imensa cidade mais justa e sustentável. Pelo menos, essa é a perspectiva. 

Amazônia abortada 

Para mim, não há necessidade de excomunhões – nem pelos abortos que ocorrem em pequena escala, nem pelos em grande escala. Nem para Monsanto, nem para os fabricantes de bombas de fragmentação. Quem foca a salvação do planeta e a melhoria da sociedade humana não está preocupado com as excomunhões ex cathedra dessa ou daquela igreja (6).

De qualquer modo, até 2100, cerca de 20% da Floresta Amazônica terá se transformado em Cerrado devido ao aquecimento global. No pior dos cenários – se, todos juntos, conseguirmos aumentar a temperatura da Terra entre 4oC a 6oC – 85% da atual região amazônica será Cerrado. 

O que estamos esperando? Devemos excomungar todos aqueles que comem carne demais, que utilizam excessivamente seus carros e viajam demais de avião? Devemos excomungar o sistema econômico atual e seus economistas, por exaurirem a terra em ritmo acelerado? Os políticos? Os bancos?

Ou vamos conseguir nos comunicar mundialmente para deter o aborto que afeta a nós todos? 

Luc Vankrunkelsven,

Pirapora, 9 de março de 2009. 

  1. Coleção obras completas de Dom Hélder Câmara; Circulares Conciliares (Orgs. Luiz Carlos Luz Marques e Roberto de Araújo Faria) e Circulares Interconciliares (Org. Zildo Rocha); Editora CEPE e Instituto Dom Hélder Câmara (Elisabeti Barbosa), Rua Henrique Dias 278 – Igreja das Fronteiras – Boa Vista – Recife-PE – CEP 50070 –140. Fone: (81) 3231-5341 e 3421-1076 – CEDOHC; E-mail: cedohc.org@hotmail.com
  2. http://www.incestseksueelgeweld.be.
  3. Mais informações nos sites www.mineaction.org e www.clusterconvention.org.
  4. Dia do Débito Ecológico Global: dia em que é ultrapassado o limite da capacidade de geração da Terra. Ou seja, uma ferramenta para indicar em que medida nosso padrão de vida – enquanto população mundial – está além dos recursos de que dispomos. Do mesmo modo que a metáfora da “pegada ecológica” pode nos alertar para a urgência de ajustes em nosso padrão de consumo. Veja, entre outros, www.voedselvoetafdruk.be.
  5. www.nossasaopaulo.org.br.
  6. Bem a propósito, o tema da Campanha da Fraternidade 2009, da CNBB, é “A Paz é fruto da Justiça”.
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