A vez do sem-estilo

Alexandre Kassin desponta como o mais promissor e criativo produtor de discos do momento

LAURO LISBOA GARCIA

Fotos: Leonardo Aversa/Ag. O Globo
DIVERSIDADE
Entre a experimentação e o convencional, Kassin encontra soluções no despojamento

Desde a atuação de Liminha nos anos 80, a figura do produtor vem conquistando papel cada vez mais relevante no pop brasileiro. Com o aprimoramento dos recursos eletrônicos, os anos 90 tiveram uma explosão de ótimos profissionais, como Tom Capone, Suba, Chico Neves e Apollo 9. Agora é a vez de o carioca Alexandre Kassin, de 28 anos, ganhar projeção. Espécie de faz-tudo, ele é produtor, baixista, compositor, guitarrista, programador eletrônico e se dá bem com qualquer instrumento. Só neste ano Kassin deixou evidências de sua qualidade artística em discos de cantores diversos, como Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso e Jorge Mautner, além de um projeto de rap cubano, dividido com Guga Stroeter. Ele ainda participa do CD de estréia de Vanessa da Mata e vai trabalhar no terceiro álbum do grupo Los Hermanos. 'Não me fixei em nenhum estilo e só não tenho preconceito. Poderia tanto produzir um disco de pagode como um de barulho experimental', diz o músico, que já tocou na banda de Lenine e fez remix para Bebel Gilberto. 'Talvez essa seja minha principal característica. Nenhum trabalho é igual ao outro. Só faço o que gosto.'

LEVEZA
Kassin arejou a música de Caetano no duo com Mautner. 'Achei corajoso da parte dele',
diz o produtor

E muita gente tem gostado do que ele faz. Caetano o considera 'naturalmente moderno', mas essa não é das condições que Kassin mais aprecia. 'O compromisso com a modernidade é muito chato', desconversa. O produtor Carlos Eduardo Miranda – que lançou os Raimundos e o mundo livre s.a. – não economiza elogios: 'Ele mal começou e é um dos mais brilhantes produtores surgidos no Brasil. O mundo vai absorvê-lo', prevê. 'O bom produtor é aquele que sabe ler a alma do artista e traduzi-la de maneira atraente', define Miranda. Kassin faz isso muito bem, mas não está sozinho. Em sociedade com Berna Ceppas, pilota há cinco anos o estúdio Monaural. Divide peripécias sonoras com Moreno Veloso, Domênico Lancelotti, Pedro Sá, sem compromisso com o comercial. 'O resultado é mérito da coletividade', elogia Miranda. Adriana Calcanhotto – que acaba de lançar o álbum Cantada, com pós-produção de Kassin e participação dos demais – concorda. 'Eles são desprendidos das regras absolutas, são criativos, têm humor, liberdade.'

#Q#

O SOM DE CADA UM
Produtores que deixaram marcas na MPB das últimas décadas
• Anos 60 – Aloysio de Oliveira
Nome de ponta da bossa nova, criou o selo Elenco e lançou Edu Lobo, Nara Leão, Silvia Telles, Nana Caymmi, Vinicius de Moraes

• Anos 70 – Marco Mazzola
Produziu álbuns essenciais de compositores como Jorge Ben, Raul Seixas, Gilberto Gil e Belchior, no auge da gravadora Philips

• Anos 80 – Liminha

Começou com As Frenéticas e tornou-se o midas do pop-rock, definindo o som de Titãs, Kid Abelha e Lulu Santos, entre outros

Anos 90 – Chico Neves
Responsável pelo desenvolvimento da eletrônica no pop brasileiro, promoveu guinadas na carreira de Fernanda Abreu, Skank e Lenine

Divulgação
SIMPLICIDADE
No disco de Adriana Calcanhotto ele deixou apenas 'o essencial para transmitir emoção'

Há harmonia até nas divergências. 'Ele gosta do funk carioca, que é a pior coisa que ouvi na vida', diz Guga Stroeter. 'Mas a gente se entende em outros aspectos. Ele é muito objetivo.' Liminha vê em Kassin certas semelhanças com sua maneira de entender música. 'Um produtor não pode ser burocrático, executivo. Fazer um disco é quase como um ato de compor', afirma. 'Improvisar e estar antenado com o que acontece no mundo é importante. Kassin tem essa capacidade.'

O estilo despojado vigora não só na música como no modo de viver. Kassin é conhecido internacionalmente, mas seu reduto é Copacabana. Rapaz de bons hábitos, é vegetariano, não fuma, não bebe, trabalha muito. É do tipo que conquista amigos 'na humildade', como eles dizem. 'E Kassin tem muitos', diz sua mulher, Hiromi Konishi. Um deles, Arto Lindsay, apresentou um ao outro no Central Park em Nova York. Kassin e Hiromi estão casados desde o ano passado. Nas rodas mais íntimas, Kassin é famoso também por ter sempre uma novidade na manga. Mantém atualizada a imensa discoteca que herdou do irmão mais velho, Gilberto, que era DJ e morreu em 1989.

Kassin adora experimentar e foi fazendo ruídos estranhos, antes do sampler, que começou a se profissionalizar. Tinha apenas 17 anos quando a coreógrafa Débora Colker o ouviu praticando aquilo que ele chama de 'colagens malucas' e o convidou para fazer as trilhas sonoras de seus espetáculos. Criou outras para o programa Brasil Legal e tocou guitarra no grupo de rock Acabou la Tequila. Em janeiro ele inaugurará um selo próprio, o Ping Pong. 'Ainda acho estranho ser profissional, brinco com música desde pequeno', diz. Entre múltiplas atividades, ele produz muito para o mercado externo e é mentor e guitarrista da Orquestra Imperial, que toca samba de gafieira. É do tipo que sempre vai além do esperado, mas não se preocupa em fazer história. 'Todo produtor quer marcar uma tendência. Se isso acontecer comigo, ótimo, mas enquanto eu estiver me divertindo já está bom.'

Fonte: Época

Please follow and like us: