A “Santa Fé” de Bunge

Na Bélgica, estamos numa difícil negociação com o Boerenbond [Federação de Agricultores Belgas], o setor da indústria de ração animal, supermercados e outras partes interessadas em tornar toda essa história da soja “menos irresponsável”. Eu prefiro me expressar dessa maneira indireta para não utilizar as tão empregadas palavras “sustentável” ou “responsável”. Mundialmente, a frente das indústrias de ração animal e de processamento de carne está tentando vender seu sistema como sendo sustentável e por meio da elaboração de critérios para “soja responsável”. Puro “greenwashing” para não precisar realizar mudanças fundamentais, pois questionar o excessivo consumo de carne e nossos interesses nas exportações de carne é particularmente ameaçador.

Bunge

Nossos valores

Integridade

Honestidade e justiça direcionam todas as nossas ações.

Abertura e confiança

Somos abertos a ideias e opiniões diferentes e confiamos em nossos colegas.

Trabalho em equipe

Valorizamos a excelência individual e o trabalho em equipe para benefício da Bunge e das partes envolvidas.

Empreendedorismo

Prezamos a iniciativa individual de encontrar oportunidades e gerar resultados.

Cidadania

Contribuímos para o desenvolvimento das pessoas e da estrutura social e econômica das comunidades em que operamos, e cuidamos com responsabilidade do meio ambiente.

 

Valores vazios. Palavras ocas.

 

Recentemente, estávamos na reunião com um representante da Cargill. Ele fez uma exposição sobre os seus valores e princípios. Lindo! Até que você se torna concreto: ”Senhor, como é que isso se traduz no âmbito do Paraguai, onde Cargill estimula o avanço da soja?” Paraguai, onde o envenenamento de pessoas, água e solo é uma realidade diária. Paraguai, onde precisamente o deus soja desrespeita diariamente os direitos humanos. O bom homem que veio expor seus belos princípios em uma chamativa apresentação em PowerPoint aparenta total inocência.

Foi desse “encontro” que eu me lembrei hoje, durante a visita do concorrente Bunge em Pedro Afonso. O padre local, Amarildo Dias Cardoso, e Silvano Lima Rezende, membro da CPT-Tocantins, circularam comigo um dia inteiro para que eu conhecesse a realidade da soja e da cana-de-açúcar do Tocantins. O slogan do estado agora é: “Tocantins, o grande parceiro do agronegócio”. E que isso fique bem claro!

 

A Fazenda Santa Fé tinha 600 mil hectares mas, por causa das dívidas, eles venderam tudo, inclusive 75 mil hectares para o “projeto” de Bunge: um canavial para produção de etanol. Agora, Santa Fé está ocupada pela “Santa Sé” (1) da multinacional Bunge, com raízes históricas na Alemanha e na Bélgica, também presente na Argentina há mais de um século. Enquanto estamos na “Sé” regional, a prefeitura abriga uma reunião dos diversos interessados na construção de uma nova ponte sobre o rio Tocantins. Bunge quer puxar a brasa para sua sardinha e trazer a ponte o mais perto possível de seu projeto de etanol. Mas, com certeza, tudo acabará bem: o governo federal também está construindo uma nova ferrovia Norte-Sul para transportar a soja, o biodiesel e o etanol o mais rapidamente possível para São Luís, o porto mais próximo de Europa, EUA e Japão. É lá que se encontram os consumidores que desejam ardentemente energia “verde”. O estado da Califórnia decidiu, recentemente, abastecer os carros com o etanol de cana-de-açúcar. “Bunge Alimentos” e companhia estão esfregando as mãos. Adeus “Alimentos”! Atualmente dá para ganhar muito mais dinheiro com o motor do que com o estômago.

 

A casa da desconfiança

 

Entre os valores, se destaca “abertura e confiança”. Permite-se a entrada de outras ideias. Entretanto, nosso acesso não foi fácil. A desconfiança impera. Finalmente conseguimos. Será um encontro breve. O representante abre um mapa sobre a mesa com diversas partes de seu projeto: eles possuem 75 mil hectares, mas pretendem construir três usinas de álcool até 2011. Em parceria com os fazendeiros, serão necessários 100 mil hectares manter as usinas operando. Ao contrário do que ocorre no estado de São Paulo, aqui os canaviais necessitam de irrigação. Por isso, vemos equipamentos na forma de monstros gigantescos. Será que ainda não aprendemos nada com a história? Não é o já conhecido sistema com três etapas: irrigação, salinização, desertificação? No Norte de África, a Mesopotâmia – entre os rios Tigre e Eufrates – foi o paraíso na terra. Assim relata a Bíblia. Um dos primeiros projetos de irrigação do mundo foi realizado naquela região. Desde então, há séculos, tem sido um deserto, enquanto o Delta do rio Nilo, no mesmo norte africano, ainda é muito produtivo. Mas, nesse delta, nunca se aplicou irrigação…

Ao longo da conversa, eles falam das muitas medidas ambientais. As publicações chamativas também tratam do futuro “verde” e das numerosas iniciativas que estão sendo desenvolvidas. Mais uma vez nos deparamos com esse gigantesco “greenwashing”. Alguém que não acompanha o caso com algum conhecimento de causa seria facilmente enganado. E o problema é que a opinião pública é totalmente envolvida. A “Propaganda Fidei” (1), com auxílio do deus TV, faz seu trabalho com perfeição. Eles ocupam uma região rica em recursos hídricos. Mas como estará dentro de dez anos? No mundo todo há exemplos de completo abalo social e ecológico. Por exemplo, há dez anos são cultivadas milhões de rosas no Quênia. Milhares de operários trabalham em circunstâncias miseráveis e insalubres para o mercado mundial. No lago local, o nível da água já baixou tanto que desperta preocupação e este ameaça secar completamente dentro de alguns anos. Também aqui, a necessidade de água para 75 mil hectares de cana-de-açúcar é gigantesca. O ciclo da cana é de cinco anos. Imediatamente em seguida, planta-se cana novamente. Depois de dez anos, faz-se uma rotação de culturas durante um ano e, em seguida, voltam à monocultura de cana. Eu pergunto se posso fotografar o mapa. Não, é um documento interno. Como se estivéssemos diante de segredos de Estado do Pentágono. Adeus abertura.

 

Um emprego a cada 188 hectares

 

E como fica a geração de empregos? Claro que há o problema do trabalho escravo nos canaviais e do antigo costume de, imediatamente antes da colheita, colocar fogo para queimar a palha. O objetivo é chegar a 90% de colheita mecanizada e não mais utilizar o fogo. Isso é uma vantagem e boa propaganda numa época em que está na moda reduzir as emissões de CO2. Durante a conversa, tocamos no assunto da geração de empregos. Serão necessárias 400 pessoas para operar as máquinas 24 horas por dia, 7 dias por semana. Parece uma beleza, porque eles receberão um salário de classe média! A classe média que pode consumir e mantém a economia funcionando. Somente 400 pessoas para 75 mil hectares? Isso significa uma pessoa a cada 188 hectares. Obviamente, também haverá empregos nas usinas de álcool e açúcar projetadas. O governador estima que serão gerados 1.400 empregos diretos e 7 mil indiretos. Em 2012, o processamento de cana-de-açúcar deverá aumentar para 4,4 milhões de toneladas.

Menciono o fato de que Bunge é, na América Latina, o maior produtor de adubos químicos (“Ouro Verde”). “Sim, mas a necessidade é menor do que para a soja. São 500 kg por hectare para uma lavoura com ciclo de cinco anos, enquanto a soja – no modelo NPK (1) – necessita de 300 kg anualmente. Além disso, no processo de produção de etanol, há reciclagem de alguns resíduos que são retornados na forma de adubo para o solo.” Resumindo, uma verdadeira história de “sucesso”.

 

Oportunidades de expansão na África

 

Ao final da reunião, não consigo deixar de levantar outro ponto. O fato de que, atualmente, as usinas de açúcar na Europa estão sendo fechadas com subsídios da União Europeia e que o capital está se transferindo para o Brasil e a Austrália para construir usinas nesses países. E que a exigência do Brasil na OMC para abrir as fronteiras não está dizimando somente beterrabas açucareiras (e agricultores) na Europa, mas que os pequenos produtores nas Filipinas e na África também não estão conseguindo enfrentar essa violência do açúcar brasileiro.

Resposta: “Sim, de fato, a África tem muitas oportunidades”. Leia-se: possibilidades para nós plantarmos cana-de-açúcar naquele continente. Ninguém pensa ou fala nos desejos da população, na soberania alimentar e em empregos. “Bunge Alimentos” quer conquistar “a maior fatia de mercado possível”, e não a soberania alimentar.

Para encerrar, perguntamos quem financia o quê, qual é o capital que está por trás. Resposta: ”Eu não sei”. Falando de abertura… No que diz respeito às fábricas, seguramente 80% do capital é da Bunge e 20% da japonesa Itochu. Isso abre a possibilidade de também embarcar o etanol para o Japão. E tudo ficará realmente muito bem. Onde Bunge busca o dinheiro para os investimentos, isso é outro assunto. Mas, pelo jeito, “abertura nos negócios” se aplica a outras áreas da vida.

 

A cerca de 350 quilômetros dali se localiza o município de Campos Lindos: na verdade, os campos já foram lindos. Atualmente, são um “deserto” de monocultura de soja. Uma pesquisa recente mostrou que a renda da população local é a mais baixa de todo o Brasil. Existe um indicador melhor de que o cultivo de soja em grande escala traz apenas pobreza para muitos e riqueza somente para a elite? Será que canaviais em grande escala trarão um resultado melhor para a região?

 

Um mundo de oportunidades

 

Maior exportador mundial de farelo de soja

Maior processador de soja da América Latina e do Terceiro Mundo

Maior processador de trigo da América Latina

Maior produtor de fertilizantes da América do Sul

Maior exportador norte-americano de derivados de soja

Maior processador de milho dos EUA

Líder brasileiro em óleos vegetais refinados e margarinas

Líder brasileiro em proteínas vegetais e misturas para bolos

Este é o mundo

Bunge

 

Enquanto isso, na Comissão Pastoral da Terra (CPT)

 

Silvano é o nosso motorista. Padre Amarildo trabalhou nove anos em Pedro Afonso e abre muitas portas para nós. É interessante passar um dia inteiro com esses homens. Nós visitamos os projetos em andamento do agronegócio internacional, mas durante a viagem falamos muito sobre o trabalho da CPT e o engajamento da Igreja e do recém-chegado jovem bispo belga Philip Dickmans. Recentemente, por ocasião de sua consagração como bispo, Dom Philip recebeu do cacique Xerente um báculo1 de pau-brasil. Um momento emocionante. Eles têm muito apreço por ele, por causa do seu empenho enquanto padre pelos direitos dos povos indígenas.

 

A CPT anima três Grupos de Produção e Resistência (GPR) da Pastoral da Juventude Rural. Um deles está sediado na diocese de Miracema e dois em Tocantinópolis. Eles têm um viveiro, hortaliças orgânicas e mel. A fertilidade é mantida por meio de adubação verde.

Além da produção, eles também mantêm, em Campos Lindos, uma Escola Família Agrícola. Cercada pelo deserto de soja. E, obviamente, eles estão envolvidos na luta por terras, com ocupação. Por exemplo, há algumas semanas 108 famílias – inclusive crianças – foram expulsas com violência da Fazenda Santo Hilário. Tratava-se do acampamento Alto da Paz. Agora eles estão tentando, com as muitas partes envolvidas, mover uma ação judicial. O próprio Silvano estuda Direito para defender as pessoas “sem vez e sem voz”. Ele escreveu um artigo revelador: “Eucalipto: o Apocalipse do século XXI” (3).

E é claro que nessas redondezas existe a luta contra as novas formas de escravidão. Eles resgataram 16 famílias que agora estão envolvidas num projeto de produção de verduras: “Trilhas da Liberdade”. Com os núcleos da CPT de outros estados, eles produziram um DVD tocante: “Aprisionados por promessas”. Eles receberam, em novembro de 2008, um prêmio por esse filme sobre a escravidão, em Nova Iorque.

 

CPT significa trabalho árduo e muita coragem, em meio ao mais que evidente conflito entre dois modelos agrícolas. Amanhã é o “Dia Nacional do Solo”. Uma boa iniciativa, mas um dia como esse não chama também pelo irmão “Dia Nacional da Reforma Agrária e Combate à Violência no Campo”? Ou o agronegócio internacional – com o seu capital, suas sementes transgênicas, produtos químicos, soja, milho, cana-de-açúcar, café, cacau, carnes, algodão, pínus e eucalipto – será o Apocalipse do século XXI? Os movimentos sociais já elegeram o dia 17 de abril como o “Dia Internacional da Luta Camponesa”, após o massacre de camponeses em Eldorado dos Carajás, Pará, Brasil (4).

 

Luc Vankrunkelsven,

Guaraí, 14 de abril de 2009.

 

  1. Aproveito o nome da fazenda (“Santa Fé”) para revelar a “religião da economia” e seus “deuses”, utilizando outros dois termos conhecidos da Igreja Católica: “Santa Sé” e “Propaganda Fidei”, que é Congregação do Vaticano para a Propaganda da Fé.
  2. O próprio representante é quem começa a falar de NPK: Nitrogênio-Potássio-Fósforo. É o modelo químico clássico, com base nas teorias de Justus von Liebig. O triunfo da indústria química do século XIX sobre uma visão mais ecológica da agricultura perdura sem perder força. Ela utiliza as ideias de von Liebig – que, no final da sua vida, se sentiu mal interpretado pela indústria química – e relegaram Julius Hessel ao esquecimento. Até hoje.
  3. Veja http://cddh.blogspot.com.

    (4) O governo brasileiro, por meio da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, instalou um fórum para enfrentar a violência contra as mulheres nas zonas rurais: “Fórum Nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres do Campo e da Floresta”. Além disso, mantém a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 – que funciona 24 horas por dia, de segunda a domingo, inclusive feriados. A ligação é gratuita e o atendimento é de âmbito nacional.

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