A Relutância do Pensamento – Gustavo Bernardo

Publicado originalmente no Jornal do Brasil de 25 de março de 2006 

Tom Regan. Jaulas vazias. Tradução de Regina Rheda.
Porto Alegre: Lugano, 2006.

Como o leitor responderia à seguinte pergunta: “Deus ama mais: [a] as pessoas; [b]; os animais; [c] as plantas”. A resposta se encontra no manual de Religião adotado em conhecido colégio católico do Rio de Janeiro. A criança deve marcar a letra [a], como explica o manual: “olhem as flores e os passarinhos, Deus os alimenta e os quer bem. Mas Deus ama e cuida mais ainda de vocês, porque ele é o Pai de vocês”.

Para além das críticas que se poderiam fazer ao texto, interessa discutir a manifestação explícita de “especismo”. Os seres humanos não são animais também? Por que a espécie humana é superior às demais? Não estamos julgando em causa própria? É o que há séculos Michel de Montaigne se perguntava, identificando a presunção como nossa doença original: “a peste do homem é a suposição de que sabe”. O homem, a mais calamitosa e frágil das criaturas, se mostra a mais orgulhosa.

“Quando brinco com minha gata, quem sabe se ela não se distrai comigo mais do que eu com ela?”, pergunta o filósofo. Em termos modernos: o cientista condiciona o rato a procurar comida quando toca uma campainha, ou o rato condiciona o cientista a lhe dar comida e tocar uma campainha? Não nos comunicamos com os animais porque eles não têm linguagem ou porque não somos capazes de traduzir a sua linguagem?

Sob a ótica da moderação, cara à filosofia, os animais são mais regrados do que nós, contendo-se nos limites que a natureza prescreve aos seres. Logo, a resposta correta à questão acima seria a letra [b]: os animais não-humanos são superiores aos animais humanos, como o prova a recorrência das guerras: “quanto à guerra, que é a maior e mais pomposa das ações humanas, eu gostaria de saber se desejamos usá-la como argumento de uma prerrogativa ou, ao contrário, como prova de nossa fraqueza e imperfeição; pois na verdade a ciência de mutuamente nos aniquilarmos e nos matarmos, de arruinar e pôr a perder nossa própria espécie, parece não ter muito por que fazer-se desejar pelos animais que não a possuem”.

Outra prova da inferioridade dos homens frente aos animais não-humanos encontra-se na forma como estes são tratados por aqueles, como procura demonstrar o filósofo Tom Regan em “Jaulas vazias”. Seu livro é perturbador, porque afeta a presunção de superioridade do leitor e todo o seu cotidiano. Dedica o volume “aos relutantes”, isto é, àqueles que são simpáticos à defesa dos direitos dos animais mas relutam em alterar seus hábitos em função dessa simpatia.

Os relutantes aplaudem a crítica à caça esportiva. O caso do executivo que pagou 6 mil dólares para caçar uma morsa deve revoltar a maioria. Conduzido no gelo pelo guia esquimó, ele encontrou um par de morsas olhando com curiosidade para os homens. A 4 metros, o guia disse, pode atirar. Ele atirou e matou uma das morsas. Sua aventura equivaleu a fazer uma longa viagem de barco para atirar em um pufe grande. No entanto, o pufe respirava quando foi morto.

Os relutantes também não relutamos muito para condenar o comércio de peles, até porque nem as usamos no Brasil. O problema começa quando pensamos em sapatos, casacos e estofamentos de couro: animais foram mortos para que os tivéssemos. Animais não-humanos são despidos de suas peles e de todos os seus direitos, inclusive o direito à vida, para vestirem os animais humanos.

O problema dos relutantes aumenta quando se lembra que os animais não apenas nos vestem como nos alimentam. Como alterar milênios de educação alimentar? Sabemos que bois, pássaros e mesmo peixes sentem dor. Logo, sofrem quando aprisionados, maltratados e mortos. Se sofrem, então eles têm consciência de si. Mas recalcamos este saber para podermos usá-los como coisas para nós.

Argumentando com gentileza e cuidado, Regan denuncia os ditos desconexos, o duplipensar que cerca a relação humana com as outras espécies. A fábrica de frangos usa na propaganda o desenho de um frango alegre, reforçando as gravuras das granjas bucólicas que não existem mais: nas atuais, as galinhas nascem e morrem sem conseguir abrir as asas. A churrascaria põe na entrada a estatueta de um bezerro para que as crianças o acariciem antes de entrar: seduz-se o consumidor apelando tanto a seu sentimento infantil de simpatia pelos animais quanto à sua fome de carne, de preferência vitela mal passada. Um apelo entra em choque com o outro, mas não percebemos.

As indústrias que exploram produtos animais, os laboratórios que fazem testes com animais, todos se dizem preocupados com o tratamento humanitário dos animais. Mesmo os caçadores dizem que são humanitários, porque se a sua pontaria é boa a morte que propiciam é melhor do que a da natureza. Muitos relatos no livro mostram, no entanto, quanta crueldade se esconde sob o adjetivo “humanitário”. A hipocrisia vai ao extremo quando se usam animais para entretenimento nas touradas, nos rodeios, nos parques marinhos, nos circos e mesmo nos zoológicos. Essa hipocrisia é reforçada pela linguagem cotidiana, quando chamamos de “animal” e de “desumano” um estuprador, por exemplo, quando seus atos são exclusivamente humanos.

Pela qualidade do seu argumento e por colocar em xeque nossos principais hábitos culturais, o livro de Regan é indispensável. Mas ele também aponta caminhos para que o leitor relutante se torne um DDA: um defensor dos direitos dos animais. Essa perspectiva assusta porque implica uma luta contra muitas frentes, da filosofia especista à indústria da alimentação animal. Mas não se pode mais parar de pensar nisso. À ética é urgente considerar os direitos dos animais com o mesmo rigor com que considera os direitos humanos.

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