A ONU está gritando. Quem vai ouvir?

8 / 12 / 2006

fonte
O Estado de S. Paulo

autor
Washington Novaes

Noticiam os jornais que uma comissão de representantes de sete ministérios, coordenada pela Casa Civil da Presidência, está definindo 'ações emergenciais' para recuperação da bacia do Rio Taquari, em Mato Grosso do Sul.

A memória dá um salto de 20 anos, para um seminário na cidade de Campo Grande, em 1986, no qual se discutia exatamente esse tema. Com o desmatamento na área das cabeceiras do Taquari, fora do Pantanal, para plantio de soja e criação de pastos, o rio vinha recebendo uma quantidade enorme de sedimentos gerados pela erosão. E ele, que fora a principal via de navegação até o Rio Paraguai, já podia ser atravessado com água pelas canelas. Pior, abria 'bocas' ao longo do trajeto, pelas quais a água invadia no Pantanal pastagens naturais e as inviabilizava. Recomendava-se, então, replantar matas ciliares, exigir a manutenção de reservas legais nas propriedades que se dedicavam ao plantio da soja e à pecuária bovina, dragar o leito do rio para retirar sedimentos.

Mas o autor destas linhas não se esqueceu ainda da brilhante intervenção do professor Aziz Ab'Saber, da Universidade de São Paulo. É preciso, de fato, replantar matas, exigir manutenção de reservas legais, dizia ele. 'Mas vocês podem dragar o rio durante séculos que não vão evitar um processo natural de assoreamento; porque essa região do Pantanal é de formação mais recente e está sobre um cone invertido de dejecção de areia de baixo para cima, que tem uns 60 mil quilômetros quadrados na superfície. Um processo ainda ativo.'

Quase ninguém se lembra da advertência de Ab'Saber. Continuam em discussão o replantio de matas, a exigência de reservas e outras ações emergenciais, quando as 'bocas' já inviabilizaram 11 mil km2 de pastagens. E quando, na verdade, todo o Pantanal – Sul e Norte – está ameaçado, nos seus 165 mil km2. Não apenas pelo assoreamento do Taquari e de outros rios. Mas pelo desmatamento em várias áreas (45% da superfície da bacia do Alto Paraguai, por exemplo, segundo a Conservação Internacional, que aponta um desmatamento total de 17% em todo o ecossistema, que poderá estar totalmente comprometido em 45 anos). Pela ameaça permanente do vinhoto das usinas de cana, pela mineração desordenada e outras atividades na região de Corumbá. Foi preciso até que um ambientalista, Francisco Anselmo de Barros, ateasse fogo às vestes e morresse para impedir as novas usinas desejadas pelo próprio governador de Mato Grosso do Sul.

Muita coisa aconteceu ao longo das duas décadas. Inclusive o não-cumprimento, pelo Brasil, de um convênio assinado com o BID, que destinaria US$ 165 milhões aos trabalhos no Pantanal. Como a União e os Estados de Mato Grosso e Mato grosso do Sul não entraram com os 50% de recursos que lhes cabia, o convênio morreu e até mereceu um editorial indignado deste jornal (15/11/2005). E tudo isso num ecossistema que o Brasil se comprometeu a preservar, na Convenção de Ramsar (de proteção de áreas úmidas), e que é um sonho do turismo mundial.

No Pantanal, como em toda parte, continuamos presos a um pensamento perverso. Sabemos, todos, que a situação é muito grave e exige mudanças fortes no nosso comportamento, para enfrentar questões como mudanças climáticas e produção e consumo insustentáveis. Mas, atados a lógicas financeiras, seguimos pelos mesmos caminhos. E até boa parte dos que se incomodam com o panorama se habituaram a pensar que só haverá uma reversão 'quando acontecer alguma grande catástrofe'. Como se as tragédias não estivessem já bem diante dos olhos.

Neste momento mesmo, mais de 1 milhão de pessoas estão desabrigadas no Quênia – onde acaba de se realizar uma reunião da Convenção do Clima – por inundações terríveis. Também o Sudeste da Ásia está às voltas com o clima. Tufão nas Filipinas mata centenas de pessoas. No Brasil mesmo, níveis de chuva inéditos há décadas voltam a matar e a desabrigar em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Espírito Santo, em Minas e muitos outros lugares. Relatórios científicos assustadores chegam todos os dias. O pensamento dominante, entretanto, só parece preocupado com o crescimento físico da produção, com a ocupação de novas áreas pela agropecuária.

Nessa hora, dá conta este jornal (30/11) de novo relatório da Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO), das Nações Unidas – A grande sombra do gado. Que aponta a insustentabilidade, nos formatos e padrões atuais, das criações para produção de carnes e leites. Esse setor, diz o relatório, responde por mais emissões que contribuem para mudanças climáticas do que o próprio setor de transportes. São 18% das emissões totais no mundo, aí incluídos 65% do óxido nitroso emitido por ações humanas (e ele tem um potencial de aquecimento global 296 vezes mais forte que o do dióxido de carbono), 37% de todo o metano (23 vezes mais prejudicial que o CO2) e 64% da amônia, que contribui para a formação de chuva ácida. A pecuária, que ocupa 30% da superfície terrestre fora das áreas geladas e responde pela subsistência de 1,3 bilhão de pessoas, já tem uma produção mundial de 229 milhões de toneladas de carnes e 580 milhões de toneladas de leite. A projeção é de que dobrará até 2050 – mas isso não é sustentável, diz a ONU, porque contribui para o desmatamento de florestas tropicais (70% do total), degradação de recursos hídricos, contaminação das águas. Principalmente na América Latina. E no Pantanal.

Carnes ocupam um lugar destacado na economia brasileira, principalmente na exportação. Que se pensa fazer? 'O custo ambiental por unidade de produção tem que cair para metade, só para impedir que a situação piore', diz o relatório da FAO. Quem ouvirá?

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