Aurora no Campo - Soja Diferente

A mulher, a gralha, a floresta choram dentro mim

Que o ‘sistema’ está falhando, é novamente bem ilustrado nestes dias – mas será que nós percebemos? Muitas imagens me vêm à mente.

 

          Na semana passada, foi constatado um foco de febre aftosa no Mato Grosso do Sul. Imediatamente, muitas possibilidades de exportação da carne bovina se fecharam. Todos estão alarmados, até mesmo o presidente Lula que, na Rússia, tenta defender os interesses do setor pecuário do Brasil junto ao presidente Putin.

          A região amazônica está nos noticiários diariamente, pois os rios estão secos. Barcos não conseguem navegar e as pessoas estão sem alimentos e água. O aquecimento das águas do Oceano Atlântico é apontado como uma das causas mas, certamente, o avanço do desmatamento contribui para a redução da chuva nesta região – que normalmente é muito úmida. Isto é noticiado diariamente na televisão, mas será que enxergamos a relação entre a dívida externa brasileira e os interesses dos exportadores, de um lado, e o nosso próprio padrão de consumo, do outro? A Floresta Amazônica está sendo derrubada e queimada por causa de madeira, carne e soja. Todos ficam indignados e, em seguida, continuam com suas rotinas. O mesmo ocorreu nas décadas de 1960 e 1970, no sul do Brasil, mas naquela época ninguém protestou. Agora os pastos já estão formados e ninguém se questiona acerca do elevado consumo de carne em seu próprio meio. Onde, há 40 anos, a Mata de Araucária proporcionava biodiversidade, agora domina o gado para produção de carne a baixo preço.

 

[foto 4]

Carne: afinal, trata-se de florestas, muitas florestas

 

          Nesta manhã, Marina Silva, a ministra do Meio Ambiente, apareceu no telejornal. Ela enfatizou a determinação deste governo de finalmente fazer algo a respeito crescimento anual do desmatamento. Enquanto os europeus participavam de um jantar oferecido pelo governador Requião, nós saímos para jantar com um grupo de brasileiros. Serviram-nos enormes pedaços de carne que fariam o consumidor médio europeu perder o fôlego. Não tenho coragem de fazer um comentário. Seria considerado – novamente – o eterno moralista. Afinal, é parte da cultura gaúcha comer carne, muita carne. Mesmo assim… gado precisa de terra, muita terra. Afinal, isso representa floresta, muitas floresta. Não faz diferença se ela foi derrubada há 40 anos, ou no século XVI, ou no século XIX, ou em 2005.

          Entrementes, enquanto espero pelo grupo no parlamento, passo o tempo lendo Aarde-Werk-Brief [Boletim do grupo Trabalho pela Terra] (2). Sempre encontro artigos marcantes sobre ‘a situação em nosso planeta’. Impressionou-me o relatório envolvente da semana de reflexão realizada durante o verão, Dierenbevrijding: een groen thema? [Libertação dos animais: um tema verde?]. Será que florestas, animais, água, terra e ar são temas ‘verdes’? Ou será que já estamos prestes a nos afogar na água e na estiagem, na abundância e na escassez?

          No salão do presidente da Assembléia Legislativa há um enorme quadro do pintor Lange de Morretes, ‘Alma da Floresta’. Tocou-me profundamente: um pinheiro derrubado, com uma mulher nua, arrasada, chorando sobre o tronco. Ela parece prestes a ter sua cabeça decepada. O pinheiro e a gralha-azul são os símbolos do Paraná. Ambos correm o risco de extinção.

Desolada, a mulher chora sobre tronco sem vida. A alma da floresta sangra. A mulher, a floresta, a gralha choram dentro de mim.

 

[foto 5]

A mulher, a floresta, a gralha choram dentro de mim.

 

Qual é a atitude que devo tomar no próximo churrasco?

 

            Curitiba, 18 de outubro de 2005.

 

(1)    Visite: <http://www.gmo-free-regions.org>. Em janeiro de 2005, as regiões reuniram-se pela primeira vez em Berlim. O ‘Manifesto de Berlim’, assinado por milhares de instâncias na Europa, é um dos resultados. Nos dias 14 e 15 de janeiro de 2006 será realizada, nesta mesma cidade, a segunda Europese Conferentie GGO-vrije regio’s, Biodiversiteit en Plattelandsontwikkeling [Conferência européia sobre Regiões Livres de Transgênicos, Biodiversidade e Desenvolvimento Rural].

(2)   Aardewerk vzw, Prattenborgplein 35, 3270 Scherpenheuvel-Zichem [Bélgica]; telefone: 013/33.55.74; jeanneke.vandeven@worldonline.be; <http://www.aardewerk.be>.

Please follow and like us: