A dieta da compaixão

Radicais na dieta e firmes na ideologia de não agressão aos animais, os vegans ganham espaço.

Por Rachel Melamet

Clóvis Ferreira/Digna Imagem

Luísa, George (acima) e Lila: cotidiano da tribo inclui cuidados como levar sempre uma "marmitinha" vegan a tiracolo. Além dos alimentos, adeptos rejeitam o uso de acessórios de couro e de itens como os amaciantes de roupa, que usam colágeno em sua composição.

Uma nova tribo está expandindo sua aldeia global no terceiro milênio. E o grito de guerra já foi ouvido na terra brasilis. Empunhando a bandeira da compaixão, os vegans colocam na mesa uma dieta vegetariana radical, que abomina carnes, aves, peixes, ovos, leite e seus derivados e mel, pois consideram cruéis os métodos utilizados para obrigar os animais a produzi-los.

Mais que uma opção alimentar, o veganismo é um estilo de vida que busca evitar todas as formas de exploração do reino animal, seja para alimentação, vestuário ou qualquer outro eventual propósito.

Couro – Os vegans não usam roupas de lã e seda nem sapatos ou acessórios de couro e pele. Travesseiros de penas, cosméticos com colágeno ou qualquer produto testado em animais também estão fora. Sem falar que eles ficam indignados com o confinamento de animais em circos, zoológicos, touradas, farra do boi e rinhas de galos ou cães.

Numa sociedade arrependida dos danos causados ao meio ambiente em um século de progresso e devastação, a ética vegan se encaixa como uma luva. No mundo inteiro, famosos vão à luta gritando "porcos são amigos, não comida", "não como nada que tenha um rosto" ou "minhas roupas são 100% livres de crueldade".

Famosos à frente – A queridinha do movimento nos EUA é a recém convertida Alicia Silverstone, atriz de As Patricinhas de Beverly Hills. Ela é a garota-propaganda do site www.cowsarecool.com, da Peta (Pessoas pelo Tratamento Ético aos Animais), onde os horrores do confinamento e abate de animais para consumo da carne e uso do couro, lã e peles são expostos de forma capaz de converter até o mais aficcionado dos carnívoros.

No Brasil, apesar dos muitos famosos envolvidos em movimentos de defesa animal, nenhum deles assumiu o veganismo publicamente, talvez preocupados com algumas "esquisitices", como não usar filmes fotográficos porque são recobertos por uma película de gelatina animal, não usar amaciantes de roupas porque levam colágeno e não comer mel porque a produção massiva escraviza as abelhas.

Points – Em São Paulo, os vegans já têm vários "points" para se encontrar e saborear sem medo os "alimentos sem crueldade". Um deles é a Sorveteria Soroko, onde o casal Maria Regina e Anatolie Soroko há seis anos começou a fabricar a iguaria com leite de soja, a pedido de uma cliente vegan que se cansou das opções de frutas e queria provar os sabores cremosos de flocos, chocolate com avelã e morango.

Marmitinha – Depois de saciar a fome com uma bela porção de sorvete, Luisa Pereira Santos, de 18 anos, estilista de camisetas, buttons e adesivos do movimento, mostra um acessório indispensável a qualquer vegan: a marmitinha, que sempre deve estar na bolsa ou mochila quando se sai de casa sem horário para voltar.

Achar a comida correta é o maior desafio dos vegans, pois até mesmo num restaurante vegetariano muitos salgados e doces são preparados com ovos, leite e mel. "Muitas vezes dizemos que somos alérgicos a leite ou ovo, porque as pessoas tentam nos empurrar comida animal", diz Luisa, vegan há quase três anos.

A estudante de Ciências Sociais Andréa Mori, de 21 anos, que deixou de comer carne aos 15 após a visão "aterradora" de um caminhão carregado de porcos para o abate, lembra momentos de fome em festas e reuniões regados a sermões sobre o quanto sua atitude é inútil diante de bilhões de pessoas que continuam comendo bichos. Mas ela não desanima: "Só vou a lugares e eventos onde sei que haverá alimentação pra mim".

Para auxiliar os candidatos a vegan, a designer Regina Lemos Nery, de 23 anos, reuniu as amigas e criou o grupo "Veganas", que faz folhetos informativos para distribuição em shows e "verduradas" – os churrascos vegetarianos.

Lista de permitidos – Segundo o nutricionista George Guimarães, o único na linha vegan em São Paulo, quem deixa de comer carne, ovos, leite e derivados não pode dispensar outras fontes de proteína, ferro, cálcio e vitamina B-12.

É preciso aderir ao feijão, ervilha, lentilha, grão de bico e soja, às castanhas e sementes (nozes, avelãs, amendoim), frutas secas, vegetais verde-escuros, algas marinhas e alimentos fortificados, como sucrilhos e leite de soja. Dono do restaurante Vegethus, Guimarães serve aos clientes até uma improvável feijoada sem pertences de porco.

Incontáveis – O termo vegan (originalmente veegn) teria sido criado no fim do século 19, na Grã-Bretanha. Mas só recentemente passou a ser usado para distinguir os vegans dos vegetarianos convencionais.

A primeira sociedade vegana foi criada em 1944, na Inglaterra. Em 1960, H. Jay Dinshah levou o movimento para os EUA. Desde então, surgiram mais de 50 grupos no mundo, mas não há dados sobre o número de adeptos porque eles estão dispersos em tribos.

A única lanchonete vegan de São Paulo, por exemplo, pertence ao casal hare khrisna Indra Gasparin e Leonardo Roth Stulman, o Lila. Aberta há um ano, no Brás, junto ao centro comercial da rua Oriente, a Viva Melhor vem conquistando até paladares carnívoros, como o dos árabes. No cardápio há quibe e beirute vegetarianos e um bolo vegan de chocolate com banana muito famoso.

Fonte:http://net.dcomercio.com.br/WebSearch/v.asp?TxtId=35746&SessionID=270087537&id=2&q=(vegan)
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