A ascensão da cultura da carne no Império Romano

[Baseado nos Capítulos 5 – "Sistemas Alimentares e Modelos de Civilização" e 6 – "A Carne e Seus Ritos" do livro "História da Alimentação"]

As propostas rigorosamente vegetarianas das antigas seitas filosóficas – o Orfismo e o Pitagorismo – eram uma manifestação cujo aparecimento foi favorecido por uma cultura já amplamente difundida. A rejeição ao sacrifício de animais e ao consumo de carne era justificada pelo respeito à vida dos animais ou pela filosofia de metempsicose (reencarnação de humanos em animais). Os sacrifícios eram condenados tanto por serem cruentos como por dissimularem um desejo puro e simples de comer carne.

Grupos de sábios vegetarianos existiram durante toda a Antigüidade, da idade clássica aos períodos helenístico e imperial. Na época romana, são eles que criticam com unanimidade o sistema de sacrifícios cruentos. No entanto, é sob o avanço do Cristianismo que esse costume acaba abolido ou seriamente transformado.

A carne, que embora nunca tenha sido destacada, teve papel maior na alimentação dos romanos devido à tradição "itálica" de criação de porcos. Os porcos eram mortos e sua carne distribuída com o pão sob ordens dos imperadores a partir do século III para manter a ordem pública e reafirmar o status privilegiado dos habitantes da capital.

Mesmo assim, os soldados romanos recebiam uma ração diária de 800g a 1 quilo de pão em tempo de guerra. As imagens que os caracterizaram como carnívoros se devem mais às práticas de sacrifício animal do que à sua dieta. O soldado ideal era o que, depois de servir à pátria no combate, se punha a cultivar uma área das terras conquistadas concedida a ele.

Na Idade Média, a carne superou o pão como alimento-símbolo do guerreiro por influência das culturas germânica e cristã. A carne tem maior identidade com o caçador do que com o camponês e a caça se tornou a imagem da guerra.

O modelo alimentar greco-romano começa a se desagregar a partir dos séculos III-IV. A principal mudança foi na maneira como o consumo de carne era encarado. A carne passa pouco a pouco a assumir um papel de destaque no sistema de valores alimentares por ser um componente importante da alimentação das classes abastadas.

De início, a difusão cristã põe em questão a prática e a "filosofia" do sacrifício. O Cristianismo nega o valor do sacrifício do ponto de vista doutrinário, considerando-o como falsa oferenda feita a falsos deuses.

Além disso, o Cristianismo substitui o sacrifício cruento por um sacrifício "vegetal", lembrando com as espécies sagradas de pão e vinho, o sacrifício bem mais importante e cruento que aconteceu para a salvação dos homens.

Dessa vez, os sacrifícios foram condenados não pelos mesmos motivos que os filósofos vegetarianos alegavam, mas sim por serem sacrifícios dedicados a seres maus: os demônios. Segundo os primeiros autores cristãos, esses seres eram alimentados pelos sacrifícios e tinham o poder de provocar doenças e se retirar do doente, restituindo-lhe a saúde, somente após receber a oferenda.

Os cristãos que se recusavam a fazer sacrifícios aos deuses se abstinham de comer a carne dos animais sacrificados. Isso tinha conseqüências sócio-econômicas pois as carnes sacrificiais eram destinadas à venda. Os cristãos que sacrificavam e comiam essas carnes eram mal vistos pelos demais e os que se recusavam a comer eram punidos com o martírio por trazerem prejuízo a esse comércio e perturbarem os interesses econômicos dos templos pagãos. Os episódios bíblicos da cura da pitonisa (Atos 16:16) e do ataque do ourives de Ártemis (Atos 19:23) são exemplos limitados porém significativos.

À medida que o consumo da carne se desvincula da prática do sacrifício, os ritos cristãos sacramentalizam o pão e vinho. Como efeito colateral, a carne, que tinha um papel importante nos cultos religiosos, passa a se tornar um simples "alimento cotidiano", cujo consumo passa a ser "normal".

O segundo fator de transformação à favor da carne foi a cultura dos povos germânicos, que foi fundada não no mito da agricultura e dos produtos da terra, mas na intensa exploração das florestas e terras não cultivadas. A importância que a carne adquire também é devido à diminuição das terras cultivadas em proveito das pastagens nos grandes latifúndios que substituíram os pequenos roçados camponeses.

Assim, com as invasões germânicas, o modelo alimentar "bárbaro" baseado no consumo de carne consolida sua hegemonia simultaneamente à conquista do poder pelos povos invasores.

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A ascensão da cultura da carne no Império Romano

A ascensão da cultura da carne no Império Romano



[Baseado nos Capítulos 5 – "Sistemas Alimentares e Modelos de Civilização" e 6 – "A Carne e Seus Ritos" do livro "História da Alimentação"]

As propostas rigorosamente vegetarianas das antigas seitas filosóficas – o Orfismo e o Pitagorismo – eram uma manifestação cujo aparecimento foi favorecido por uma cultura já amplamente difundida. A rejeição ao sacrifício de animais e ao consumo de carne era justificada pelo respeito à vida dos animais ou pela filosofia de metempsicose (reencarnação de humanos em animais). Os sacrifícios eram condenados tanto por serem cruentos como por dissimularem um desejo puro e simples de comer carne.

Grupos de sábios vegetarianos existiram durante toda a Antigüidade, da idade clássica aos períodos helenístico e imperial. Na época romana, são eles que criticam com unanimidade o sistema de sacrifícios cruentos. No entanto, é sob o avanço do Cristianismo que esse costume acaba abolido ou seriamente transformado.

A carne, que embora nunca tenha sido destacada, teve papel maior na alimentação dos romanos devido à tradição "itálica" de criação de porcos. Os porcos eram mortos e sua carne distribuída com o pão sob ordens dos imperadores a partir do século III para manter a ordem pública e reafirmar o status privilegiado dos habitantes da capital.

Mesmo assim, os soldados romanos recebiam uma ração diária de 800g a 1 quilo de pão em tempo de guerra. As imagens que os caracterizaram como carnívoros se devem mais às práticas de sacrifício animal do que à sua dieta. O soldado ideal era o que, depois de servir à pátria no combate, se punha a cultivar uma área das terras conquistadas concedida a ele.

Na Idade Média, a carne superou o pão como alimento-símbolo do guerreiro por influência das culturas germânica e cristã. A carne tem maior identidade com o caçador do que com o camponês e a caça se tornou a imagem da guerra.

O modelo alimentar greco-romano começa a se desagregar a partir dos séculos III-IV. A principal mudança foi na maneira como o consumo de carne era encarado. A carne passa pouco a pouco a assumir um papel de destaque no sistema de valores alimentares por ser um componente importante da alimentação das classes abastadas.

De início, a difusão cristã põe em questão a prática e a "filosofia" do sacrifício. O Cristianismo nega o valor do sacrifício do ponto de vista doutrinário, considerando-o como falsa oferenda feita a falsos deuses.

Além disso, o Cristianismo substitui o sacrifício cruento por um sacrifício "vegetal", lembrando com as espécies sagradas de pão e vinho, o sacrifício bem mais importante e cruento que aconteceu para a salvação dos homens.

Dessa vez, os sacrifícios foram condenados não pelos mesmos motivos que os filósofos vegetarianos alegavam, mas sim por serem sacrifícios dedicados a seres maus: os demônios. Segundo os primeiros autores cristãos, esses seres eram alimentados pelos sacrifícios e tinham o poder de provocar doenças e se retirar do doente, restituindo-lhe a saúde, somente após receber a oferenda.

Os cristãos que se recusavam a fazer sacrifícios aos deuses se abstinham de comer a carne dos animais sacrificados. Isso tinha conseqüências sócio-econômicas pois as carnes sacrificiais eram destinadas à venda. Os cristãos que sacrificavam e comiam essas carnes eram mal vistos pelos demais e os que se recusavam a comer eram punidos com o martírio por trazerem prejuízo a esse comércio e perturbarem os interesses econômicos dos templos pagãos. Os episódios bíblicos da cura da pitonisa (Atos 16:16) e do ataque do ourives de Ártemis (Atos 19:23) são exemplos limitados porém significativos.

À medida que o consumo da carne se desvincula da prática do sacrifício, os ritos cristãos sacramentalizam o pão e vinho. Como efeito colateral, a carne, que tinha um papel importante nos cultos religiosos, passa a se tornar um simples "alimento cotidiano", cujo consumo passa a ser "normal".

O segundo fator de transformação à favor da carne foi a cultura dos povos germânicos, que foi fundada não no mito da agricultura e dos produtos da terra, mas na intensa exploração das florestas e terras não cultivadas. A importância que a carne adquire também é devido à diminuição das terras cultivadas em proveito das pastagens nos grandes latifúndios que substituíram os pequenos roçados camponeses.

Assim, com as invasões germânicas, o modelo alimentar "bárbaro" baseado no consumo de carne consolida sua hegemonia simultaneamente à conquista do poder pelos povos invasores.

 


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