A Amazônia, as réplicas e as tréplicas

O Eco

Marcos Sá Correa*

Quem acha que os jornalistas fazem a cabeça dos leitores – por exemplo, o ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro – não perde nada, além das ilusões, visitando o site da revista National Geographic , no qual ainda se discute a reportagem deste mês sobre a Amazônia. Ou melhor, sobre as “forças do mercado globalizado”, que transformam a floresta em desertos queimados.

No papel, a história de capa ocupou 32 páginas, contando as que incluem fotografias panorâmicas do chão amarelado, onde os tratores apagaram os últimos vestígios da selva, ou de serrarias que cospem fumaça em cenários sem árvores. A primeira linha já avisa: no tempo que se gastaria para chegar ao ponto final, um naco do Brasil “maior que 200 campos de futebol” estaria devastado.

O assunto é controverso. Mas o repórter Scott Wallace não deixou por menos. Ouviu pequenos fazendeiros, latifundiários, índios, funcionários públicos, militantes ambientalistas e autoridades, como Blairo Maggi, governador de Mato Grosso. Maggi é o rei da soja. Wallace fez, portanto, o dever de casa, como manda o bê-á-bá do jornalismo. E o que ele conseguiu com o rigor da apuração foi puxar, no site da revista, um fio interminável de reações contraditórias.

São dezenas de debates paralelos. Cada um puxa centenas de réplicas e tréplicas. O inglês, nesta arena, é língua franca, inclusive entre brasileiros, o que a certa altura faz Melissa Martin despedir-se dos interlocutores com um “obrigada por tomar consciência deste assunto tão importante”, em português mesmo, e leva Natalia Botero a rogar, em espanhol, “que o governo do Brasil incremente seus esforços de conservação”.

“Tim H.” escreve para considerar a reportagem preconceituosa, inclusive pelas imagens que foram escolhidas para ilustrá-la. Ele reclama da falta de números para comparar a selva amazônica com a extensão da floresta que cobria o território americano no século 16. “Tenho a impressão de que ninguém está dando a mínima para o desmatamento que ocorreu de um lado a outro dos Estados Unidos, e também que o autor teria preferido ver uma floresta de pé do que uma multidão de seres humanos sobrevivendo com o consumo de grãos e carne produzidos pela devastação”, ele afirma.

Há gosto para tudo. Joana Isabel Silva, que se apresenta como “uma menina portuguesa”, pede sugestões sobre o que fazer. Acaba de ler a revista e quer remediar o problema da Amazônia. “Se há alguém aí que possa me dar uma mão, eu agradeceria muito!”. O primeiro palpite é parar de comer carne. “Isso ajudaria muito porque as árvores estão sendo derrubadas para abrir espaço às plantações para que o gado tenha rações.”

Joana agradece. Mas não gosta mesmo de carne. Logo, abster-se não resolve. Entra em cena Marco Clivatti, que alega conhecer a Amazônia, porque fez duas duas viagens ao Brasil e “os milhões de plantas e animais que existem lá são uma experiência inesquecível”. A seu ver, os brasileiros, sozinhos, não podem acabar nem com a floresta nem com o desmatamento. Quem fará isso “somos nós, cidadãos do mundo”. Ele não crê em fronteiras para o meio ambiente. Mas também não acredita que a opção pelo vegetarianismo seja “a única solução”.

Aparece lá pelas tantas “Vladmir”, pedindo uma avaliação “em dinheiro” dos serviços ambientais prestados ao mundo pela Amazônia. Quer que se “pague a Brasília por salvar a floresta”. E “Mr. O’Neill” recomenda que os países ricos parem de comprar móveis feitos com madeira nobre de origem tropical. “Anônimo” rebate, denunciando que nisso também atua o conflito de gerações: “Visitei meus pais, que estão construindo uma nova casa. Meu pai estava orgulhoso com seu piso… madeira de lei do Brasil”.

Et cetera e tal. Pode não haver nessa troca de mensagens internacionais a menor esperança para a Amazônia. Mas ela resolve pelo menos o temor do ministro das Relações Institucionais, de que “os poderes midiático” estão devastando no Brasil “o Poder Legislativo”. Felizmente, a internet está aí para provar que os leitores não levam ao pé da letra os jornalistas. Se levassem, Genro não estaria agora trabalhando para um presidente que, 20 anos atrás, despediu-se do Congresso, chamando-o de casa dos 300 picaretas.

*Jornalista e editor do site O Eco

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